Trump, o bufão isolado

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Em novo sinal do declínio dos EUA, presidente ameaça romper acordo nuclear com Irã e é rechaçado por seus próprios aliados europeus. Gesto alimenta linha dura de Teerã

Por Vinícius Gomes Melo

Nesse final de semana, Donald Trump oficializou aquilo vinha ensaiando nas últimas semanas: ele sabotou o acordo nuclear com o Irã. Ao decidir unilateralmente por sua não-certificação, o presidente norte-americano conseguiu, numa só tacada, antagonizar aliados, fortalecer a ala linha-dura dentro do Irã e destruir a credibilidade dos EUA perante o mundo – e de quebra, envolver o planeta em mais uma complexa crise nuclear, afinal, só a Coreia do Norte não bastava.

O acordo negociado com o Irã impôs rígidos limites ao programa nuclear do país, em troca, a comunidade internacional cessou uma série de sanções econômicas. Desde então, a cada 90 dias, os EUA têm que confirmar que Teerã tem se mantido dentro do acordo para as sanções continuarem suspensas.
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E se Donald Trump cair?

pencePerfil de Mike Pence, o homem que assumiria a Casa Branca. Ele é tão contrário aos direitos humanos como o presidente — e muito mais ligado ao establishment político e à indústria de armamentos

Por Vinicius Gomes Melo

Pneumonia, ataque cardíaco, hemorragia cerebral, gastroenterite aguda, renúncia e assassinatos (quatro, no total) do governante eleito. Essas foram as causas que levaram nove vice-presidentes dos Estados Unidos ao posto de líder do país. Uma taxa de quase 20%. Em tempos de impeachment, nunca é demais considerar esse cenário.

E se as orações de um significativo número de pessoas nos EUA, e ao redor do mundo, fossem atendidas e Donald Trump se tornasse o décimo norte-americano a não terminar sua presidência? Continuar lendo

Algo estranho na “terra da liberdade”

Amy Goodman, no programa de TV e rádio "Democracy Now"

Amy Goodman, no programa de TV e rádio “Democracy Now”: ameaçada de prisão

EUA mantêm presos dezenas de “protetores” que lutam pacificamente contra oleoduto em terras indígenas. Promotor tenta encarcerar jornalistas por defenderem os que se manifestam

Por Vinicius Gomes Melo

Ainda era uma madrugada fria dessa segunda-feira na Dakota do Norte, estado norte-americano que faz fronteira com o Canadá, quando a jornalista Amy Goodman, principal voz e rosto do Democracy Now!, começou sua reportagem:

“Estamos transmitindo ao vivo de Manda, Dakota do Norte, de frente a corte do condado de Morton, onde várias pessoas aparecerão hoje para enfrentar acusações relacionadas às manifestações de resistência à construção do oleoduto de 3,8 bilhões de dólares da Dakota Access. Dezenas de pessoas que se autodenominam protetoras, e não manifestantes, foram presas nos últimos meses por fazerem oposição à construção do oleoduto […] O condado de Morton também expediu um mandado de prisão para mim, em 8 de setembro, cinco dias depois de o Democracy Now! reportar em vídeo, os guardas da empresa de segurança do oleoduto agredirem fisicamente os protetores pacíficos, em sua maioria nativo-americanos, atacando-os com spray de pimenta e com cachorros. Um deles foi visto com sangue pingando de seu focinho e boca”.

A jornalista encerrou sua transmissão dizendo que compareceria à corte e desafiaria a acusação. O caso Dakota do Norte v.s. Amy Goodman baseia-se na cobertura que o site Democracy Now! fez sobre os protestos contra o oleoduto, em 3 de setembro, e o consequente ataque dos seguranças contratados pela companhia proprietária do oleoduto contra os manifestantes pacíficos. Continuar lendo

Sudão do Sul: mais uma guerra esquecida na África (I)

(Albert Gonzalez Farran/Agence France-Press /Getty Images)

(Albert Gonzalez Farran/Agence France-Press /Getty Images)

Cinco anos após “independência”, país está mergulhado num conflito tão selvagem quanto ignorado pelo mundo. Washington, que instigou a secessão, agora cruza os braços

Por Vinicius Gomes Melo

“Às vezes, os Estados Unidos levam caos a outro país
atirando bombas ou invadindo.
No Sudão do Sul, nós fizemos diferente”
Stephen Kinzer, Boston Globe

Na noite de 8 de julho, um dia antes do quinto aniversário de independência do Sudão do Sul, um confronto armado deixou 273 cadáveres estendidos na rua em frente ao parlamento, na capital Juba. A intensa troca de tiros aconteceu entre a guarda presidencial do governante do país, Salva Kiir, e seus oposicionistas comandados pelo ex-vice-presidente Riek Machar.

Ambos estavam dentro do prédio parlamentar negociando mais um cessar-fogo quando irrompeu este novo episódio de violência que já tornou-se rotina na vida do país, desde que a disputa política entre os dois, desde 2013, degenerou numa guera total que, segundo a porta-voz da missão da ONU no país, já tirou a vida de mais 50 mil pessoas, transformou quase 2,5 milhões de habitantes em desabrigados e deixou o já paupérrimo país à beira da fome generalizada. Economicamente, o conflito fez com que a inflação disparasse em quase 300% e a moeda local tivesse uma desvalorização de 90%, em 2016, praticamente colapsando a indústria do petróleo, que representa quase que toda a renda do Sudão do Sul.

A esse cenário caótico, somam-se elementos que tornam o conflito no Sudão do Sul particularmente cruel. De acordo com investigadores da União Africana, a descoberta de inúmeras valas coletivas forneceram as provas de atrocidades cometidas por ambos os lados do conflito. Continuar lendo

Uma alternativa nas eleições dos Estados Unidos?

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Diante da xenofobia de Trump e da agressividade imperial de Hillary, parte dos apoiadores de Bernie Sanders vê saída em Jill Stein — candidata da esquerda verde. Mas quem é ela e o que propõe?

Por Vinicius Gomes Melo

No momento em que a Convenção Nacional Democrata anunciou oficialmente que Hillary Clinton seria a representante do partido na corrida presidencial de 2016, é possível imaginar que dezenas de milhões de apoiadores e apoiadoras de Bernie Sanders olhando para os lados e perguntando-se “e agora?”.

Foi quando depararam-se com a escolha que tanto temiam — ter de votar em Hillary Clinton — que uma alternativa mostrou-se mais clara: Jill Stein, do Partido Verde.

No dia seguinte à nomeação da primeira mulher a concorrer pela Casa Branca por um dos dois grandes partidos do país, Stein estava nos metrôs da Filadelfia rodeada por pessoas que faziam fila para conversar e tirar selfies com a candidata.

As comportas se abriram. Eu me sinto quase uma assistente social conversando com os apoiadores de Bernie”, dizia Stein a uma repórter que testemunhava tudo. “Seus corações estão partidos. Todos sentem que foram violados e enganados, em grande parte pelo Partido Democrata”.

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A política externa de Donald Trump

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Establishment de Washington zomba do candidato republicano — rejeitado até por setores de seu partido. Mas sua proposta de rever posição agressiva dos EUA no mundo merece ser examinada atentamente

Por Vinicius Gomes Melo

Na semana em que o magnata conseguiu passar todos os limites (até mesmo para ele) ao incentivar hackers russos a invadirem os servidores do e-mail pessoal de Hillary Clinton, o tema “política externa” voltou a ser pauta e na corrida presidencial norte-americana e poderá desempenhar papel decisivo na escolha de quem ocupará a Casa Branca a partir de 2017.

Depois de sua declaração bombástica, o Partido Democrata não deixará tão cedo de ligar a imagem do candidato republicano à do premiê russo Vladimir Putin – a quem está recaindo a culpa sobre o recente vazamento do WikiLeaks – tudo por conta desse “convite” para que uma potência estrangeira lançasse uma operação de espionagem cibernética contra a possível próxima presidenta dos Estados Unidos.

Porém, entre todas as suas bravatas xenofóbicas, chiliques narcisistas e atitudes dignas de um moleque briguento no pátio da escola, há um assunto que Donald Trump já expôs um raro vislumbre de bom senso – ainda que enviesado: a política externa dos Estados Unidos. Continuar lendo