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O chavismo em seu curto-circuito

O sociólogo Edgardo Lander examina, no Fórum Social Mundial, as causas da nova crise venezuelana. Para ele, a esquizofrenia do processo bolivariano está na origem das turbulências; e os próximos seis meses podem redefinir o futuro político do país

(Entrevista a Antonio Martins, Brunna Rosa e Rita Casaro)

Em Porto Alegre, no mesmo palco onde participou há pouco do seminário que avalia os dez primeiros anos do Fórum Social Mundial, o sociólogo venezuelano Edgardo Lander concede agora uma entrevista sobre a crise em seu país. Ao ouvir a pergunta, o corpo que sustenta este rosto tenso, de testa larga e pelos grisalhos, inquieta-se. Lander se remexe na poltrona, para ficar ereto; emite um suspiro e começa a descrever, com detalhes e nuances, o que quase nunca aparece na mídia. Nem a oficial, que vê em Chávez um demônio a ser exorcizado, nem a de certa esquerda, que quase sempre trata o presidente como anjo redentor.

“O processo político venezuelano continua marcado por uma profunda esquizofrenia”, pensa este professor da Universidade Central da Venezuela e membro do Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais (Clacso). “A mobilização social desencadeada desde a posse de Chávez despertou da apatia as maiorias. Elas sentem-se donas do país. Milhões de pessoas, antes submissas, querem opinar. E o fazem, nos Conselhos Comunais, Comitês de Água, ou espaços abertos para debater as políticas de Saúde e Educação.

“No entanto, a mobilização foi desencadeada pelo Estado e dele depende fortemente”, continua Lander, que também é um dos articuladores assíduos e inspirados dos Fóruns Sociais das Américas. Ele dá exemplos: “Os Conselhos Comunais, pedra de toque do novo processo político, costumavam encarar a sério todas as propostas de debate lançadas pelo presidente. Mas que fazer se, em meio a uma polêmica intensa, os integrantes de um Conselho ligam a tevê e vêem o presidente anunciar, garboso, que ya decidió a questão em que estavam mergulhados? Não é natural que se enxerguem como meros figurantes?”, pergunta o sociólogo.

Segundo Lander, as várias crises que se entrecruzam na Venezuela de hoje estão relacionadas, para bem e para mal, com o caráter particular do chavismo. Ele apela à iniciativa dos de baixo para se contrapor ao conservadorismo das elites. Mas não quis ou não foi capaz, ao menos por enquanto, de libertar as maiorias também de seu grande líder… Por isso, produz ineficiência, acomodação e personalismo.

A crise energética, explica Lander, é um dos sintomas. Ela está se tornando a cada dia mais severa, não tem solução a curto prazo e provocará um apagão que poderá desorganizar a economia. As decisões serão tomadas em breve. Fala-se em cortes de energia que durarão quatro horas por dia, cinco vezes por semana – atingindo tando as residências quanto todo o setor produtivo.

Há uma causa natural: uma seca prolongada, devastadora num país em que 70% da energia vem de matriz hidrelétrica. A barragem da usina de Gúri, situada no rio Caroní (no sudesde do país), e responsável por mais da metade da eletricidade gerada, está perdendo 11 centímetros por dia. No início da semana, Chávez lançou um apelo de emergência a Lula, pedindo-lhe que especialistas brasileiros de alto nível sejam enviados à Venezuela, para tentar encontrar saídas.

Mas num país com fontes hídricas abundantes, não se pode culpar apenas o clima. Assim como no Brasil da virada do século, as raízes do apagão estão também em ineficiência, incapacidade de planejamento, indigência administrativa. “Um dos desdobramentos da cultura personalista é julgar que, para dirigir bem uma empresa ou um setor da economia, basta compromisso político”, diz Lander.

No terreno econômico, o segundo problema crucial da Venezuela é o risco de inflação e desabastecimento, provocados por uma alta até agora incontida do dólar. Em 8 de janeiro, a chamada “segunda-feira negra”, o governo foi obrigado a abandonar uma política de câmbio fixo que mantinha, desde 2003, o dólar quotado a 2,15 bolívares – a moeda local.

A taxa era surreal. No mercado negro, o dinheiro norte-americano valia o dobro, e um volume cada vez maior de transações se fazia fora dos canais legais. A desvalorização foi de 100%: dólar a 4,30 bolívares. Abriu-se exceção para uma pequena cesta de produtos de primeira necessidade (como medicamentos) e compras governamentais, que se beneficiarão de um dólar a 2,60 bolívares. Numa economia que importa quase tudo, a tendência é inflação em disparada. A classe média foi as compras, provocando desabastecimento.

Para Lander, o chavismo repetiu os governos anteriores, ao não enfrentar a enorme dependência do país em relação ao petróleo. Durante os anos em que o combustível disparou no mercado mundial, entraram tantos dólares que a Venezuela deu-se ao luxo de trazer tudo de fora. Mas como enfrentar, agora, um cenário em que se combinam racionamento de energia, desorganização econômica e inflação acelerada?

Lander vê o fulcro da crise venezuelana deslocado para as eleições parlamentares, que ocorrerão em setembro. A oposição, diz ele, já não comete os erros infantis em que incorria no passado, quando chegou a abandonar um pleito e ficar fora do Parlamento. Agora, pensa a médio e longo prazo. Não tentará transformar os protestos das últimas semanas numa tentativa de golpe, como em 2003. Estará unida e articulada, nos próximos meses. A depender da desorganização econômica, não se exclui a possibilidade de que seja maioria no Congresso. Nesse caso, o presidente estaria privado do controle quase monopólico do poder de Estado, no momento essencial para seu projeto político.

Como o chavismo reagirá, se esta possibilidade se concretizar? Para Lander, aqui estão a incógnita e, num certo sentido, a esperança. De um lado, imagina ele, haverá setores dispostos a desconhecer o resultado das urnas e a dizer que o “processo revolucionário” precisa avançar, a qualquer custo. De outro, e desde agora, há o caminho de uma retificação. Não significaria abrir mão de todos os avanços alcançados. Implicaria, porém, um poder menos personalista, mais aberto às divergências, à necessidade de alianças sociais e políticas. Na melhor hipótese, o chavismo reconheceria que, para continuar apoiando-se nas maiorias, precisa reconhecer que devem ser de fato autônomas.

O chamado “processo bolivariano” será capaz deste enorme passo adiante? Para Lander, desta grande questão, ainda em aberto, depende o futuo imediato da Venezuela.

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Dossiê: a preparação de um golpe no Paraguai

Está em marcha tentativa de derrubar Lugo no Congresso (Elementos para pesquisa e preparação de matéria)

Talvez um dos grandes desafios da blogosfera seja examinar, produzir e difundir informações sobre os fatos que a mídia convencional não quer investigar. Este post sugere um esforço comum para apurar em detalhes o que está ocorrendo no Paraguai — onde há sinais nítidos de um golpe de estado em preparação. Como os planos atuais são de aplicá-lo em silêncio — no Legislativo, e sob aparência de legalidade –, faz parte da lógica evitar que a opinião pública internacional compreenda, em detalhes, o que se passa. Continued…

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A China observa suas transnacionais

Deixá-las lucrar “livremente” no exterior está provocando desgaste político crescente

Dirigentes e cientistas sociais chineses estão voltando os olhos, com preocupação crescente, para um problema espinhoso. Estimuladas a conquistar novos mercados (e, particularmente, novas fontes de matérias-primas) no exterior, as transnacionais do país estão adotando práticas muito semelhantes — e, às vezes, piores — que as de empresas ocidentais. Estes procedimentos desgastam a imagem da China junto a parte da opinião pública internacional, e mesmo a aliados históricos. A apreensão é sincera; ainda não está claro, contudo, se ela será suficiente para reverter as ações das empresas chinesas, ou se acabarão prevalecendo as razões econômicas e de poder. Continued…

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Perspectivas 2010: da crise ao pós-capitalismo

Reflexões a partir de uma pesquisa global da BBC e uma contribuição de Immanuel Wallerstein ao Fórum Social Mundial 2010



Parte da esquerda tradicional está, em várias partes do mundo, desencantada e deprimida com os desenvolvimentos da crise financeira internacional. Ela não resultou, ao contrário do que alguns acreditavam, numa implosão do sistema capitalista. Nas economias mais atingidas, os efeitos dolorosos tendam a se estender — desemprego e empobrecimento, em especial. Mas a ação dos Estados evitou tanto um drama social maior quanto uma série devastadora de falências em dominó (que parecia possível, no final de 2008). Teria sido mais uma “oportunidade perdida”.

No nascer de um novo ano, vale a pena temperar este pessimismo com alguns sinais no sentido oposto. Eles indicam que a grande batalha em torno da crise está apenas começando. E sugerem que, em vez de um desfecho mítico, pode iniciar-se uma etapa de grandes incertezas e instabilidade, mas também de enorme abertura para a construção de alternativas aos valores e às lógicas sociais vigentes. Em outras palavras, pode surgir um cenário em que o sistema predominante nos últimos séculos ainda se mantém — e no entanto é possível construir, de modo muito mais acelerado, relações pós-capitalistas. Continued…

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Fórum Social Mundial, dez anos

Nenhum evento para dezenas de milhares — mas quase trinta iniciativas ao longo do ano, espalhadas pelo mundo

Ao chegar a sua décima edição, o Fórum Social Mundial terá, em 2010, um formato novo. Eis algumas de suas características:

> Ao contrário do que ocorreu entre 2001 e 2003 (Porto Alegre), 2004 (Mumbai, Índia), 2005 (Porto Alegre), 2007 (Nairóbi, Quênia); e em 2009 (Belém), não será um evento único — e sim, “policêntrico”. Desde 2006, por reivindicação de alguns movimentos sociais, o FSM alterna anos de eventos concentradores e decentralizados.

> Estão previstos, ao longo de 2010, cerca de trinta eventos-FSM, espalhados pelo mundo. No Brasil, os principais ocorrerão em Porto Alegre (25 a 29/1), Salvador (29 a 31/1) e Rio de Janeiro (maio, em paralelo à Conferência Mundial das Cidades, da ONU).

> Nenhuma destas atividades será, em termos de mobilização, comparável aos fóruns únicos. No entanto, há importante novidades. Em Porto Alegre, um seminário intitulado “Dez anos depois” tentará fazer um balanço dos Fóruns Sociais e suas perspectivas futuras. Em Salvador, há esforço para um diálogo inédito entre sociedade civil e chefes de governo — da América Latina e África.

> O FSM 2011, novamente centralizado, ocorrerá em Dakar, Senegal, em janeiro do ano que vem.

> Informações mais detalhadas numa matéria que escrevi para a revista Fórum, e foi publicada na edição de novembro último. Veja na continuação deste texto. Continued…

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A democracia em nossas democracias

Honduras

APTOPIX Honduras Coup por Current News Stories.

No momento em que reverter o golpe em Honduras parece possível, vale a pena analisar o que se passou desde que o exército invadiu o palácio do governo e derrubou o presidente Zelaya. Um alerta: nas críticas da mídia ao governo brasileiro, reaparece o velho apego das elites latino-americanas ao uso da força, quando os privilégios estão ameaçados

(Por Tadeu Breda)

A destituição forçada de Manuel Zelaya, no último dia 28 de junho, foi um golpe de Estado. Por mais que o novo governo se considere um regime de facto ou uma administração interina, rechace o termo ditadura e diga que a queda do presidente equivale apenas a uma transição de poder, o uso da força define a ausência de democracia. Por mais que os eufemismos tentem dissimular a conspiração, o fato é que Zelaya foi surpreendido por um batalhão do exército durante a madrugada. Enquanto o mandatário dormia, soldados meteram o pé na porta da residência oficial, derrubaram o presidente da cama e o despacharam sem mais delongas para o exterior, ainda de pijamas.

Sim, pode-se dizer que a Suprema Corte de Justiça havia aprovado sua saída. É verdade. Mas o procedimento legal não é distribuir fuzis para uma tropa de militares com ordens expressas de expulsar à força o chefe-de-estado. Afinal, em 1992 poucos brasileiros queriam que Fernando Collor permanecesse na presidência e nem por isso apelou-se para a violência. O político alagoano desrespeitou as leis do país mas passou por um processo de impeachment, como manda a lei.

O delito cometido por Manuel Zelaya em Honduras foi ter insistido na realização de uma consulta popular considerada ilegal pela máxima autoridade jurídica do país. O presidente queria sondar a opinião do povo sobre uma reforma constitucional que, entre outras coisas, tinha como objetivo instituir a reeleição para cargos executivos. É importante frisar: o presidente não tinha a intenção de perpetuar-se no poder. Não porque seja bonzinho, mas porque não havia tempo hábil.

Seu mandato termina oficialmente no início de 2010. As eleições estavam marcadas para novembro. Por mais que o resultado da consulta demonstrasse um eventual apoio popular à reforma constitucional e à reeleição, o calendário não permitiria que Zelaya fosse reeleito – muito menos que se eternizasse no poder, como temiam as elites hondurenhas.

O processo de reformulação constitucional é demorado e depende obrigatoriamente do Legislativo. No regime democrático, é o congresso que vota a convocação da Assembléia Constituinte. Nos processos vividos recentemente, por Bolívia e Equador, demorou pelo menos dois anos. Depois de aprovada a Constituinte pelo Legislativo, houve eleições, nas quais o povo escolheu as pessoas encarregadas de discutir e elaborar a nova Carta Magna. Uma vez finalizado, o projeto constitucional passou pelo crivo de uma equipe jurídica e só então voltou à apreciação dos eleitores

Não há dúvidas, portanto, de que Zelaya desrespeitou a Constituição hondurenha, ao insistir na realização de uma consulta que havia sido deslegitimada pelo Poder Judiciário do país justamente por ser inconstitucional. No entanto, recebeu uma punição igualmente ilegal. As leis hondurenhas não preveem o desterro como punição para nenhum crime. Muito menos admitem que alguém seja sumariamente julgado e condenado. Enfim, os golpistas passaram por cima da Constituição para punir um presidente que havia passado por cima da Constituição.

Mesmo assim, o governo de Roberto Micheletti diz estar garantindo a democracia em Honduras. Ora, é caso de discutirmos o que os artífices do golpe entendem por democracia. Já está claro que a sucessão não foi democrática. Mais claro ainda, porém, é a inspiração totalitária do novo regime. Como se não bastasse a repressão contínua às manifestações pró-Zelaya, a ditadura já acabou com a vida de pelo menos três pessoas que pacificamente exerciam sua liberdade de expressão – a Missão Internacional pela Observação dos Direitos Humanos em Honduras denuncia 17 mortos.

A conclusão óbvia é a de que não há liberdade política, porque tampouco é permitido reunir-se em público. Ademais, lideranças da oposição são sistematicamente detidas e levadas ao estádio olímpico, no melhor estilo pinochetista, sem processo nem mandado judicial. Estima-se em 4 mil o número de presos políticos. Também não há liberdade de ir e vir, porque o governo constantemente decreta toques de recolher e impede as pessoas de circularem à noite. E a liberdade de imprensa, tão cara à democracia, deixou de vigorar no início de outubro. Um canal de televisão e uma emissora de rádio foram fechadas por “atentarem contra a paz social” – na verdade, a rádio Globo e o canal 36 eram os dois únicos meios de comunicação hondurenhos contrários ao regime de força.

O contexto interno já é suficiente para definir o governo de Roberto Micheletti como uma ditadura, mas nunca é demais lembrar que a comunidade internacional condenou a “sucessão” em Honduras por unanimidade. Ninguém aceita o novo governo, os Estados Unidos cortaram a ajuda financeira e até mesmo o FMI congelou os empréstimos ao país. Ainda assim, o golpismo persevera, e o mundo se pergunta o que mais terá que ser feito no terreno diplomático para dissuadir Roberto Micheletti de prolongar ainda mais seu governo ilegítimo.

Desde que Manuel Zelaya pediu abrigo na embaixada brasileira em Tegucigalpa, o Itamaraty assumiu um papel de destaque no conflito. Muita gente diz que Lula está se metendo nos assuntos de outros países, mas o que está em jogo em Honduras é o retorno de uma doutrina que tinha ficado no passado. Os golpes militares que se acometeram sobre a maioria dos países latino-americanos, entre as décadas de 1960 e 70, foram uma triste realidade que não deve ser ressuscitada das catacumbas da história.

Nossas democracias são frágeis e só agora, depois de vinte e poucos anos, é que estão aprendendo a caminhar com as próprias pernas. O que aconteceu em Honduras nos devolve uma prática política que se utiliza da força – e não do debate público – para impor interesses de classe e manter privilégios. É um retrocesso inimaginável e, se aceito, pode abrir um precedente perigoso.

O governo Lula, portanto, não está “metendo o bedelho” em negócios internos de Honduras. Muito menos está infringindo a soberania do país centro-americano. Ao hospedar Manuel Zelaya na embaixada de Tegucigalpa, o Brasil apenas colabora para o restabelecimento da ordem democrática na região. A Corte hondurenha tem todo direito de querer julgar o presidente por haver desrespeitado a Constituição. Mas, obviamente, isso deve ser feito dentro do ordenamento jurídico do país, e não sob a ameaça de metralhadoras, por demais anacrônica.

A diplomacia brasileira neste momento espera o aval da ONU e da OEA para começar a mediar o conflito, já que o presidente da Costa Rica, Óscar Árias, fracassou em sua tentativa de encontrar uma saída negociada para o impasse devido à intransigência dos próprios golpistas. Zelaya está coberto de razões ao exigir seu retorno imediato ao cargo – e Lula, como todos os demais presidentes sul-americanos, está igualmente certo em apoiá-lo.

O que está acontecendo em Honduras não é apenas mais um episódio da excentricidade política que no século passado definiu a fama das “repúblicas das bananas”. É um teste para ver até onde os latino-americanos somos realmente democráticos e até onde podem ir nossas democracias. A vitória eleitoral de uma série de presidentes de esquerda em todo o continente, defensores de uma agenda popular e anti-neoliberal, transportou nossos regimes políticos para uma bifurcação. Um dos caminhos leva ao fortalecimento das instituições, dos direitos e das liberdades, pois permite que o poder político (de direito) seja exercido por grupos que não necessariamente detêm o poder econômico (de fato). O outro é um desvio que nos reconduz a uma das fases mais obscuras de nossa história.

Os desdobramentos do golpe hondurenho, portanto, vão dizer quanto de democracia existe em nossas democracias.

No momento em que reverter o golpe em Honduras parece possível, vale a pena analisar o que se passou desde que o exército invadiu o palácio do governo e derrubou o presidente Zelaya. Um alerta: nas críticas da mídia ao governo brasileiro, reaparece o velho apego das elites latino-americanas ao uso da força, quando os privilégios estão ameaçados

(Por Tadeu Breda)

A destituição forçada de Manuel Zelaya, no último dia 28 de junho, foi um golpe de Estado. Por mais que o novo governo se considere um regime de facto ou uma administração interina, rechace o termo ditadura e diga que a queda do presidente equivale apenas a uma transição de poder, o uso da força define a ausência de democracia. Por mais que os eufemismos tentem dissimular a conspiração, o fato é que Zelaya foi surpreendido por um batalhão do exército durante a madrugada.

Enquanto o mandatário dormia, soldados meteram o pé na porta da residência oficial, derrubaram o presidente da cama e o despacharam sem mais delongas para o exterior, ainda de pijamas.
Sim, pode-se dizer que a Suprema Corte de Justiça havia aprovado sua saída. É verdade. Mas o procedimento legal não é distribuir fuzis para uma tropa de militares com ordens expressas de expulsar à força o chefe-de-estado. Afinal, em 1992 poucos brasileiros queriam que Fernando Collor permanecesse na presidência e nem por isso apelou-se para a violência. O político alagoano desrespeitou as leis do país mas passou por um processo de impeachment, como manda a lei.

O delito cometido por Manuel Zelaya em Honduras foi ter insistido na realização de uma consulta popular considerada ilegal pela máxima autoridade jurídica do país. O presidente queria sondar a opinião do povo sobre uma reforma constitucional que, entre outras coisas, tinha como objetivo instituir a reeleição para cargos executivos. É importante frisar: o presidente não tinha a intenção de perpetuar-se no poder. Não porque seja bonzinho, mas porque não havia tempo hábil.

Seu mandato termina oficialmente no início de 2010. As eleições estavam marcadas para novembro. Por mais que o resultado da consulta demonstrasse um eventual apoio popular à reforma constitucional e à reeleição, o calendário não permitiria que Zelaya fosse reeleito – muito menos que se eternizasse no poder, como temiam as elites hondurenhas.

O processo de reformulação constitucional é demorado e depende obrigatoriamente do Legislativo. No regime democrático, é o congresso que vota a convocação da Assembléia Constituinte. Nos processos vividos recentemente, por Bolívia e Equador, demorou pelo menos dois anos. Depois de aprovada a Constituinte pelo Legislativo, houve eleições, nas quais o povo escolheu as pessoas encarregadas de discutir e elaborar a nova Carta Magna. Uma vez finalizado, o projeto constitucional passou pelo crivo de uma equipe jurídica e só então voltou à apreciação dos eleitores

Não há dúvidas, portanto, de que Zelaya desrespeitou a Constituição hondurenha, ao insistir na realização de uma consulta que havia sido deslegitimada pelo Poder Judiciário do país justamente por ser inconstitucional. No entanto, recebeu uma punição igualmente ilegal. As leis hondurenhas não preveem o desterro como punição para nenhum crime. Muito menos admitem que alguém seja sumariamente julgado e condenado. Enfim, os golpistas passaram por cima da Constituição para punir um presidente que havia passado por cima da Constituição.

Mesmo assim, o governo de Roberto Micheletti diz estar garantindo a democracia em Honduras. Ora, é caso de discutirmos o que os artífices do golpe entendem por democracia. Já está claro que a sucessão não foi democrática. Mais claro ainda, porém, é a inspiração totalitária do novo regime. Como se não bastasse a repressão contínua às manifestações pró-Zelaya, a ditadura já acabou com a vida de pelo menos três pessoas que pacificamente exerciam sua liberdade de expressão – a Missão Internacional pela Observação dos Direitos Humanos em Honduras denuncia 17 mortos.

A conclusão óbvia é a de que não há liberdade política, porque tampouco é permitido reunir-se em público. Ademais, lideranças da oposição são sistematicamente detidas e levadas ao estádio olímpico, no melhor estilo pinochetista, sem processo nem mandado judicial. Estima-se em 4 mil o número de presos políticos. Também não há liberdade de ir e vir, porque o governo constantemente decreta toques de recolher e impede as pessoas de circularem à noite. E a liberdade de imprensa, tão cara à democracia, deixou de vigorar no início de outubro. Um canal de televisão e uma emissora de rádio foram fechadas por “atentarem contra a paz social” – na verdade, a rádio Globo e o canal 36 eram os dois únicos meios de comunicação hondurenhos contrários ao regime de força.

O contexto interno já é suficiente para definir o governo de Roberto Micheletti como uma ditadura, mas nunca é demais lembrar que a comunidade internacional condenou a “sucessão” em Honduras por unanimidade. Ninguém aceita o novo governo, os Estados Unidos cortaram a ajuda financeira e até mesmo o FMI congelou os empréstimos ao país. Ainda assim, o golpismo persevera, e o mundo se pergunta o que mais terá que ser feito no terreno diplomático para dissuadir Roberto Micheletti de prolongar ainda mais seu governo ilegítimo.

Desde que Manuel Zelaya pediu abrigo na embaixada brasileira em Tegucigalpa, o Itamaraty assumiu um papel de destaque no conflito. Muita gente diz que Lula está se metendo nos assuntos de outros países, mas o que está em jogo em Honduras é o retorno de uma doutrina que tinha ficado no passado. Os golpes militares que se acometeram sobre a maioria dos países latino-americanos, entre as décadas de 1960 e 70, foram uma triste realidade que não deve ser ressuscitada das catacumbas da história.

Nossas democracias são frágeis e só agora, depois de vinte e poucos anos, é que estão aprendendo a caminhar com as próprias pernas. O que aconteceu em Honduras nos devolve uma prática política que se utiliza da força – e não do debate público – para impor interesses de classe e manter privilégios. É um retrocesso inimaginável e, se aceito, pode abrir um precedente perigoso.

O governo Lula, portanto, não está “metendo o bedelho” em negócios internos de Honduras. Muito menos está infringindo a soberania do país centro-americano. Ao hospedar Manuel Zelaya na embaixada de Tegucigalpa, o Brasil apenas colabora para o restabelecimento da ordem democrática na região. A Corte hondurenha tem todo direito de querer julgar o presidente por haver desrespeitado a Constituição. Mas, obviamente, isso deve ser feito dentro do ordenamento jurídico do país, e não sob a ameaça de metralhadoras, por demais anacrônica.

A diplomacia brasileira neste momento espera o aval da ONU e da OEA para começar a mediar o conflito, já que o presidente da Costa Rica, Óscar Árias, fracassou em sua tentativa de encontrar uma saída negociada para o impasse devido à intransigência dos próprios golpistas. Zelaya está coberto de razões ao exigir seu retorno imediato ao cargo – e Lula, como todos os demais presidentes sul-americanos, está igualmente certo em apoiá-lo.

O que está acontecendo em Honduras não é apenas mais um episódio da excentricidade política que no século passado definiu a fama das “repúblicas das bananas”. É um teste para ver até onde os latino-americanos somos realmente democráticos e até onde podem ir nossas democracias. A vitória eleitoral de uma série de presidentes de esquerda em todo o continente, defensores de uma agenda popular e anti-neoliberal, transportou nossos regimes políticos para uma bifurcação. Um dos caminhos leva ao fortalecimento das instituições, dos direitos e das liberdades, pois permite que o poder político (de direito) seja exercido por grupos que não necessariamente detêm o poder econômico (de fato). O outro é um desvio que nos reconduz a uma das fases mais obscuras de nossa história.

Os desdobramentos do golpe hondurenho, portanto, vão dizer quanto de democracia existe em nossas democracias.

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Pré-sal: regime de urgência é "precipitação"?

Por trás das queixas dos partidos de direita e da mídia, uma jogada “esperta”: manter a lei atual, que dá metade do petróleo às transnacionais

Exxon]

No episódio pré-sal, a ficha da velha mídia não vai cair tão cedo. É inacreditável, mas o UOL publica nesse instante, na área de destaque principal da home, um vídeo-manipulação sobre o tema. Entre outras bisonhices, inclui uma montagem que leva os internautas a pensar que a gafe de Vanuza com o Hino Nacional, foi cometida durante a cerimônia em que Lula anunciou o novo marco regulatório.

A ficha não cai porque há muitos interesses em jogo. Para alguns partidos e meios de imprensa, deixar de defendê-los é perder a razão de existir — tanto no sentido ideológico quanto no material. Algumas armadilhas estão montadas. Uma delas, que pouca gente ainda entendeu, é dizer que há precipitação, quando se pede regime de urgência para a votação, no Congresso, do novo marco regulatório do petróleo. Este argumento esconde o seguinte:

> *Já há* uma legislação em vigor. Sua peça principal, no momento, é a Lei 9478/97 — votada, como o próprio número sugere, nos tempos de hegemonia do neoliberalismo (é preciso mencionar em que governo?). Não se trata, portanto, de criar do nada, em 90 dias, regras novinhas em folha. E sim de *corrigir*, com urgência, enormes distorções que, se não sanadas, ou tornarão inviável a exploração do pré-sal, ou impedirão que a sociedade brasileira exerça controle sobre esta riqueza.

> A Lei 9478/97 estabelece, por exemplo, que o percentual *máximo* das receitas do petróleo a ser apropriado pela União é 40%. Somando-se mais 5% de royalties dos Estados, chega-se a 45%. Um estudo técnico de Fernando Siqueira, presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet), revela que este percentual contrasta com um intervalo entre 85% e 90% praticado, por exemplo, em todos os países da OPEP.

> Além disso, a mesma lei transfere, para as empresas que firmarem contratos de concessão com o Estado brasileiro, a *propriedade* sobre o petróleo extraído. Se a legislação permanecer, elas terão, por exemplo, o poder de definir o *ritmo* da exploração. Poderão, entre outras decisões, acelerar a extração de petróleo, para atender a seus próprios interesses de mercado, menosprezando o do país.

> Por suas características geológicas singulares, o pré-sal é, ao mesmo tempo, uma área de exploração dificílima e de perspectivas excepcionais — tanto em volume de petróleo, quanto em qualidade. A Petrobrás é a única empresa que se capacitou para explorá-lo adequadamente. Companhias internacionais adquiriram, nos leilões estabelecidos pela Lei 9478/97, participação em cerca de 30% das áreas. Porém, não se mobilizaram para localizar jazidas. A Petrobrás investiu, só no poço descobridor da província, 260 milhões de dólares. Depois, furou mais onze vezes, com índice de êxito de 100%. O comportamento das estrangeiras tem sido seguir as pegadas da empresa nacional. Evitam os investimentos pesados. Compram áreas nos leilões, esperam e depois vão atrás de trilhas abertas.

> Numa área em que há certamente *dezenas de bilhões* de barris de petróleo, de qualidade elevadíssima (vale ler, a respeito, a excelente reportagem de Consuelo Dieguez em “Piauí”, manter o regime estabelecido pela Lei  9478/97 seria, este sim, um crime contra a democracia e sociedade e brasileira. Ela seria obrigada a se satisfazer com 45% da receita do petróleo, quando o padrão em províncias petrolíferas de igual qualidade e dimensão chega a 90%.

> Fernando Siqueira tem alertado, em palestras e textos, para o intenso trabalho de lobby desenvolvido há um ano, no Congresso Nacional, por consultores internacionais do Big Oil, o novo cartel internacional que surgiu na indústria do petróleo, em substituição às antes célebres “seis irmãs”. São mega-corporações, cada uma delas muito maior, financeiramente, que a Petrobrás, mas com um pé de barro assustador. *Perderam*, nos últimos anos, o controle sobre quase 100% das reservas de petróleo que detinham (ler, no “Le Monde Diplomatique”, A nova era do Petróleo estatal. Precisam, desesperadamente, reconquistá-las, seja onde for.

> No Brasil, o modo mais fácil de tentá-lo é *manter* a Lei 9478/97. Quem fala contra a suposta “precipitação” de uma nova norma, *esconde* que apóia a que está em vigor; e, principalmente, o que ela pode causar. É uma manipulação mais ou menos tão grosseira quanto o vídeo que o UOL destaca agora, em sua home.

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Bonn: contagem regressiva contra a catástrofe climática

Duas polêmicas marcam a tentativa de acordo para redução de carbono que vá além do Protocolo de Kioto

090812-poluicaoComeçou segunda-feira (10/8), em Bonn (Alemanha), uma nova bateria de negociações internacionais para tentar um acordo que reduza as emissões de gases do efeito-estufa — e evite o aquecimento catastrófico da atmosfera. Promovido pela ONU, praticamente ignorado pela mídia brasileira, o encontro tem participação de dezenas de países. É a antepenúltima oportunidade para um entendimento. A conferência decisiva das Nações Unidas sobre o tema está marcada para Copenhague, capital da Dinamarca, em dezembro. Lá, serão definidas as possíveis ações internacionais a serem adotadas após 2012, quando expira o Protocolo de Kyoto.

Não se trata apenas de um ponto no calendário. Estudos científicos estimam que, para evitar um aquecimento do planeta superior a 2 graus centígrados, será necessário reduzir em 50% as emissões de CO2 e  moléculas que produzem o mesmo efeito, até 2050. Como as medidas necessárias para esta diminuição consomem anos ou décadas, a possibilidade de agir com eficácia concentra-se no próximo período.

Duas polêmicas sobressaem, no percurso entre Bonn e Copenhague (haverá, no interregno, mais dois encontros: em Bancoc-Tailândia e num local ainda indefinido). A primeira diz respeito ao compromisso dos países considerados “em desenvolvimento” — em especial grandes emissores de CO2, como China, Índia e Brasil. Ao contrário do que estabelece o acordo de Kioto, os países mais ricos reivindicam que o esforço para reduzir as emissões seja estendido a toda a população do planeta. Há controvérsias sobre os percentuais da participação de cada grupo. Mas o fato de a China ter se tornado o maior responsável absoluto pelo efeito-estufa, no ano passado (suas emissões per capita são muito inferiores às do mundo rico) e fenômenos como as queimadas na Amazônia pressionam em favor de uma participação de todos na luta contra o aquecimento.

Outro aspecto diz respeito às tecnologias necessárias à defesa da atmosfera. No início do ano, o Brasil liderou uma proposta dos chamados BRICS (incluídos Rússia, Índia, China e África do Sul) para quebra das patentes sobre os conhecimentos e processos produtivos que reduzem as emissões. A proposta baseia-se na idéia segundo a qual a proteção do planeta é mais importante que os lucros. Para torná-la efetiva, porém, será necessário enfrentar  forte resistência de um cartel de transnacionais que espera ganhar muito com as green technologies.

M A I S:

> A luta contra o aquecimento global, e para intervir em favor de um acordo positivo em Copenhague, mobiliza inúmeras redes internacionais de movimentos e ONGs. No plano internacional, há, por exemplo, a Climate Action Network [Rede de Ação pelo Lima], em cujo site é possível encontrar, além de informação técnica, boletins constantes sobre o desenvolvimento do encontro em Bonn. Também muito articulada é a Climate Justice Now [Justiça Climática Já]. No site internacional do Greenpeace, há uma seção totalmente dedicada aos que querem promover mobilizações e exercer pressão sobre os governos, em favor de menos emissões de gases do efeito-estufa.

> Há verbetes robustos sobre aquecimento global na Wikipedia, tanto em português quanto em inglês.

> Na Biblioteca do Le Monde Diplomatique, edição brasileira, é possível encontrar uma pasta de textos sobre o tema e uma série especial de quatro matérias sobre capitalismo, risco de catástrofe climática e alternativas. (1, 2, 3, 4)

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Honduras de novo nas ruas

Golpistas decretam toque de recolher após nova onda de protestos — mas seu isolamento cresce também no exterior. Presidente legítimo chega ao Brasil

090812-HondurasAs dificuldades dos governantes que destituíram o presidente constitucional de Honduras voltaram a se agravar ontem, internamente e no exterior. Duas manifestações, reunindo dezenas de milhares de pessoas, tomaram as ruas na capital, Tegucigalpa, e em San Pedro Sula, norte do país. À noite, o governo tentou interrompê-las, decretando novamente toque de recolher.

Já o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, confirmou que uma missão de chanceleres do continente viajará a Honduras na próxima semana ou na seguinte. É novo sinal de que os governos da região não se conformaram com a existência com o afastamento do presidente eleito, Manuel Zelaya. Ele, aliás, chega hoje a Brasília, onde será recebido com honras de chefe de Estado.

> Para mais detalhes, veja nosso clipe

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Ministro israelense admite libertar Barghouti

Divisão do governo de Telavive confirma: congresso da Al-Fatah pode ter sido passo importante para palestinos

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O ministro israelense da Indústria e Comércio, Benyamin Ben Eliezer (do Partido Trabalhista) defendeu publicamente, ontem, a libertação de Marwan Barghouti, o mais conhecido (e popular) prisioneiro político detido em seu país. A proposta foi feita um dia depois da eleição de Barghouti para a direção da Al-Fatah, o grupo que dirige a Autoridade Nacional Palestina. Eliezer ressaltou que “a paz não se faz com anjos, mas com líderes capazes de tomar decisões difíceis”.

As declarações foram contestadas em seguida por outro ministro israelense: Levor Livnat, do mesmo partido do premiê Benyamin Netaniahou. A divergência em Telavive revela, porém, um raro momento de hesitação, diante de fatos provocados pela resistência palestina. Encerrado na noite de domingo, o congresso da Al-Fatah resultou numa importante renovação no comitê central do movimento. Ela foi vista como fundamental, num momento em que o governo Barack Obama prepara-se para anunciar um plano de paz que poderia enfraquecer a ocupação israelense, ao relativizar décadas de apoio incondicional de Washington a Telavive.

MAIS

> Nossa nota analítica sobre o congresso da Al Fatah está aqui.

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