Chéri à Paris: Procura-se creche no Brasil

“Brincar? Esse tipo de atividade, a gente não estimula. Imagina se ela cai e se machuca. É muito arriscado, querido”

Por Daniel Cariello*

- Bom dia.

- Bom dia.

- Sabioquié? Tô procurando uma creche para a minha filha e me falaram muito bem de vocês.

- Pois o senhor veio ao lugar certo. Sua filha vai adorar a gente. Qual a idade da pituba?

- De quê?

- Da tchutchuquinha, da guria, da piá, da…

- Da criança?

- Isso.

- 1 ano e 9 meses.

- Que coisa mais fofa, 21 meses de pura traquinagem, de noites mal dormidas, de cocô mole, de…

- Escuta, será que a gente podia visitar o estabelecimento?

- Mas só se for agora, campeão.

- É agora mesmo, porque se você quiser me mostrar quando eu não estiver aqui não vai adiantar de muita coisa.

- Pois bem. Esta é a maravilhosa sala de estímulos. Tem atividades pra desenvolver a criatividade, pra exercitar a lógica e pra aprender a calcular a raiz quadrada de cabeça e em menos de 5 segundos.

- E ali?

- Ali é o incrível laboratório de línguas. Sua filha já fala?

- Um pouco. Diz umas coisas em português e em francês.

- Francês?

- Isso, ela é pariense.

- Meu querido, francês já era, babau, ficou démodé, se é que você me entende. Paris está decadente, só interessava às pessoas nascidas no século XIX, que adoravam fazer bico, dizer “uh la la” e levantar o dedo mindinho enquanto bebiam uma taça de vinho. Hoje em dia, c’est fini. Aqui sua filha vai ter aula de inglês e espanhol de manhã, de chinês e árabe depois do almoço e noções de russo e de hindi à tarde.

- Russo e hindi?

- É claro. É papel dos educadores preparar a criança para o mundo globalizado. Nunca ouviu falar nos BRICs? Mas depois voltamos ao assunto, pois virando à esquerda chegamos à fabulosa horta orgânica.

- Vocês plantam o que servem na cantina?

- Quase isso, capitão. Quem planta são as crianças. Elas capinam, preparam a terra, jogam as sementes, regam, espantam as pragas, colhem e lavam tudo. E depois ainda picam as cebolas pro almoço, pois eu sempre choro quando tento fazer isso.

- Elas não choram?

- Claro que sim, mas elas já choram o tempo inteiro, então ao menos agora têm um motivo real.

- E aquela enorme caixa preta? Que treco é esse?

- Mais respeito. Ali é o must. O top. The best thing in the whole damn world. Trata-se da Fantastic Black Box, única na América Latina. Há apenas cinco em todo o mundo e é claro que em Paris não tem uma dessas.

- E do que se trata?

- Trata-se de uma caixa sensorial. Cinco minutos ali dentro e sua filha nunca mais será a mesma. A gente liga 435 eletrodos no corpo da criança e ela vai entender na hora de onde veio e qual o seu papel na terra. Vai, inclusive, saber se passará ou não no concurso para o Senado em 2032. Assim poderá dirigir seus esforços para coisas que darão realmente certo em sua vida, sem perder tempo com bobagens que não a levarão a lugar algum.

- !?

- Impressionante, não?

- E depois de todas essas atividades ela vai pro parquinho brincar?

- Brincar?

- Isso. Escorrega, trepa-trepa, gangorra.

- Olha, esse tipo de coisa a gente não estimula aqui não. Imagina se ela cai e se machuca? Ou se fica presa em cima de uma árvore? A gente não saberia o que fazer. É muito arriscado, meu querido, muito arriscado.

(*) Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular do Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. Os textos publicados entre março de 2008 e março de 2009 podem ser acessados aqui

Share

Leia também:

  1. Chéri à Paris Tudo bem na rue d’Aligre
  2. Chéri à Paris: Carta a Vinícius
  3. Chéri à Paris: Noventa e um
  4. Chéri à Paris: Pílulas
  5. Chéri à Paris: Pra lá de Marrakech
  6. Chéri à Paris À table!
  7. Chéri à Paris: Creche em greve
  8. Chéri à Paris: Brasiliá à Paris
  9. Chéri à Paris: a festa de Louise
  10. Chéri à Paris: Na companhia de Shakespeare

About the Author

Outras Palavras informa e debate sobre a globalização e as alternativas. Estimula a Comunicação Compartilhada e procura enxergar e construir relações sociais pós-capitalistas. Para entrar em contato, escreva ao editor: antonio@outraspalavras.net.