A doença de Lula e a homenagem a Ronaldinho na Academia Brasileira de Letras despertaram a miséria intelectual da sociedade
Por Felipe Amin Filomeno
Nos últimos dias, duas ondas de manifestações na internet revelaram preconceitos arraigados que ainda envilecem a sociedade brasileira. A primeira decorreu da notícia de que o ex-presidente Lula sofre de câncer na laringe e está sendo tratado no Hospital Sírio-Libanês. A segunda foi causada pela homenagem feita a Ronaldinho Gaúcho pela Academia Brasileira de Letras (ABL).
Ambos acontecimentos foram duramente criticados em comentários que questionavam a moralidade de Lula e o mérito de Ronaldinho. Na essência de tais manifestações está um preconceito de classe, expressado até mesmo por pessoas de classe média ou baixa, incapazes de perceberem o quanto são vítimas da ideologia conservadora que reproduzem em suas opiniões cotidianas.
No Facebook, uma “campanha” foi iniciada defendendo que Lula seja tratado no Sistema Único de Saúde (SUS). A campanha assume que Lula seria culpado pela debilidade do sistema de saúde pública brasileiro e, portanto, não seria moralmente correto seu tratamento na rede privada. Tal mobilização é, no mínimo, de mau gosto e demonstra falta de civismo em relação a um ex-chefe de Estado. Um, aliás, que deixou o governo com índices altíssimos de popularidade e um país que, de acordo com vários indicadores econômicos e sociais, era melhor do que aquele que herdou de seu antecessor.
Por falar em indicadores, a tal “campanha” não mostrava nenhuma estatística sobre saúde pública que pudesse justificar jogar em Lula, pessoalmente, a culpa pelos problemas da saúde pública brasileira. O que deveria ser avaliado não é se o SUS é, hoje, perfeito ou não, mas sim se, durante o governo Lula, o SUS melhorou ou não. Segundo dados do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), o gasto do governo federal com saúde como proporção dos gastos federais totais caiu, durante o governo FHC, de 5.2% em 1995 para 3.1% em 2003 (apesar da CPMF). No governo Lula, o gasto em saúde subiu de 3.1% em 2003 para 4% em 2008. Pode estar longe do ideal, mas é um avanço que torna injustificável a tal campanha.
Obviamente, os participantes da mobilização não se preocuparam em verificar dados quando repassaram mensagens através de blogs, Facebook ou Twitter. Isso porque, na raíz da campanha não está uma análise racional de fatos e dados, há apenas preconceito e ideologia. Aliás, chega a ser engraçado que vários abriram a boca para falar mal do Lula por ser tratado no Sírio-Libanês, mas quase ninguém elogiou Hugo Chávez por ir se tratar num hospital público em Cuba. Mas é essa a “lógica” do preconceito, “um peso, duas medidas”.
Em relação ao Ronaldinho, o preconceito foi ainda mais evidente. Em primeiro lugar, a homenagem ao jogador foi indiretamente uma homenagem ao escritor José Lins do Rego, que agora completaria 110 anos se estivesse vivo. Lins do Rego era torcedor fanático do Flamengo. Em segundo lugar, as centenas de manifestações criticando a ABL pela homenagem revelam uma concepção bastante estreita do que seja cultura. Como era de se esperar, os imortais da ABL sabem que cultura vai além da literatura, ao contrário dos críticos de Ronaldinho, que provavelmente mal sabem quem foi José Lins do Rego. Como diz o brasileiro, “futebol é arte”. A paixão pelo futebol e a excelência em sua prática são elementos dos mais característicos da cultura, sim CULTURA, brasileira.
Portanto, a onda de críticas a Lula e Ronaldinho é, em essência, fruto de preconceito de classe, do rico contra o pobre. Afinal, que pessoas podem ser mais representativas do povo brasileiro do que Lula e Ronaldinho Gaúcho? Do ponto de vista conservador, instituições de elite como o Hospital Sírio-Libanês (em termos de excelência em serviços de saúde) e a Academia Brasileira de Letras (em relação à excelência literária) não são espaço para um operário presidente ou um jogador de futebol. Eis a miséria intelectual do conservadorismo cotidiano.
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Google Tradutor








Um ponto de vista, duas medidas.
O questionado aqui não é o ser humano, mas o ícone.
Como ser humano ele pode se tratar onde quiser.
Como ícone público deve ir ao local em que todos os brasileiros vão.
E isso é apenas uma maneira de indignação da população, mostrando o estado de corrupção existente em nossa sociedade, e a evidente política protecionista do PT para com seus “camaradas”.
E dar esmola não é política pública!
O brasileiro que não tem voz se expressa pelas redes sociais agora!
E Ronaldinho, com o histórico pessoal que tem não deveria passar nem perto da Academia Brasileira de Letras! Independente do Lins gostar ou não de futebol! Jogador hoje é mercadoria, não tem amor à camisa.
Parando pra pensar, tem acadêmico que nem deveria ser acadêmico! Olha euzinha soltando Marimbondos de fogo… Tem Coelho nesse mato!
Realmente um texto excelente nos dando um panorama mais profundo de nossa real ignorância intelectual.
Ainda assim, sendo um assíduo usuário das redes sociais e vendo todas as mensagens sobre a questão do “Lula no SUS”, há um ponto importante que me parece que não foi apontado.
Muito da discussão não é a frieza sobre uma doença horrível sobre uma pessoa tão importante como o ex-presidente, e menos ainda sobre a responsabiliização pelo ex-presidente das debilidades do sistema SUS. Mas sim relembrar que muito da nossa população sofre com as mazelas do sistema, sendo muitas pessoas com a mesma doença em questão. Daí senti que as pessoas aproveitaram da posição de destaque do nosso ex-presidente, reabrindo com ênfase a discussão dolorosa da melhoria do sistema de saúde no país.
Fica o meu abraço ao escritor.
Realmente é lamentável a cara leitora acima achar que nós não temos voz e por isso usamos as redes sociais. Mas eu pergunto: O que ela fez ou faz com o seu voto?…Lembrando que nós temos tratamento de primeiro mundo, o exemplo disso é o Hospital do Câncer em Barretos. É lamentável saber que ainda tem tantas pessoas vivendo um falso elitismo, mesmo sendo da classe média e achando que fazem parte dessa “Elite”.
Felipe Amin Filomeno, obrigada pela ótima matéria!
Fácil fazer propaganda petista com os números que muitas vezes foram manipulados pelos mesmos. Fácil utilizar a fragilidade do Lula para acusar os indignados de preconceito e ignorância intelectual.
Difícil é esquecer a célebre frase “…é fácil ser médico na Av. Paulista..”, acusando os trabalhadores dedicados, que chegam a ficar quase 100 horas por semana trabalhando em pelo menos cinco empregos diferentes para ter uma vida digna.
Ninguém deseja que o Lula não se recupere, o que queremos é que este políticos corruptos, hipócritas e sem caráter ou noção de bem comum vejam que a falta de remédios, falta de leitos, falta de exames para diagnóstico e a falta de hospitais é real e não é culpa de quem trabalha lá! Se houvesse uma política de saúde verdadeira, com investimentos reais, o Lula não precisaria ir ao Albert Einstein para se tratar.
Falar dos planos de saúde que são utilizados pela classe média/alta que fazem procedimentos dos mais complexos na rede pública, ninguém fala????
Não tenho por hábito participar de redes sociais e apenas li a repercussão dos comentários sobre o tratamento de Lula no Sirio-Libanes. Concordo que há muito preconceito e posturas francamente conservadoras. Mas a sociedade é isso, uma soma de contradições, tal qual o homem e a figura pública Luis Ignácio Lula da Silva, que verbaliza seus preconceitos, contradições como nenhuma outra figura pública. Mas essa mesma sociedade elegeu Lula, apostou em um projeto de país senão de “esquerda” ao menos mais comprometido com algumas bandeiras como a melhor distribuições de renda e a ampliação dos gastos públicos com saúde, educação e programas de transferencia de renda. Penso que parte dos comentários embutem um sentimento de que nem figuras públicas do ex e do atual governo apostam no sistema público a ponto de buscarem tratamento lá. Esse tipo de aposta e de retidão moral faz parte do lento, arduo e complexo processo de construção efetiva da reforma sanitária. Lembro que uma figura pública como Florestan Fernandes recusou ajuda para ser tratado fora da rede pública e jamais aceitou “furar a fila”. Mas é dificil julgar quando é a nossa vida que está em jogo. Por outro lado, é bom lembrar que a rede federal possui um centro de referencia para Cancer respeitado no mundo – o INCA. Por fim, quem consegue hoje atendimento na rede hospitalar de alta complexidade, seja no sistema público seja no privado, já pode considerar-se elite. A realidade na rede privada, dominada pelo planos, está muito longe do que assistimos na última semana. Logo não dá para polarizar publico/não privilegiado X privado/ privilegiado.
Ronaldinho não merece medalha nenhuma pela demonstração de mau caratismo q teve com o clube q o revelou, o Grêmio Porto Alegrense.
Pelamordedeus! Se querem dar uma medalha a um jogador do time de José Lins do Rego, q homenageiem o maior ídolo da torcida do Flamengo de todos os tempos: o autêntico e verdadeiro CRAQUE Zico! Esse sim, além de caráter faz por merecer uma medalha pelos seus serviços dentro dos gramados brasileiros e internacionais e não pseudocraques baladeiros mercenários da espécie de ronaldinho gaúcho……
Pedir ao Lula que se tratasse pelo SUS, sem furar a fila, foi para chamar a atenção de todos para o que alguns querem esquecer. As filas para atendimento e o tempo de trés meses de espera. De forma alguma se fez ironia sobre a doença do LULA que espero como a todo brasileiro que tenha essa doença se recupere total e rapidamente sem sofrimento.
Se todos que tem cargos publico fossem obrigados por Lei a se tratar no sistema público de saúde, sem furar a fila, com certeza não existiria fila!!!!!
Acho que há uma onda de hipocrisia por parte de certos segmentos que querem se usufruir de “benefícios” dos cofre públicos com políticas que privilegiam uns poucos. Lula simboliza também a miséria de nossas instituições, simboliza a corrupção, simboliza o dinheiro público que sai do governo e não chega à sociedade mais carente. Quero ver índice com critérios honestos e não apenas matemática. Históricamente, militantes políticos que ao chegarem a alguma posição de poder, qualquer que seja, usam de todas as práticas imorais, contra pessoas e a sociedade, julgando que a sua “revolução” está acima de qualquer ética. É um insulto à sociedade dar diplomas à essa canalha que na realidade se presta a um jogo demagógico no circo em que o povo é sempre a vítima. Quer enganar quem?
A questão do Lula, pelo menos de minha parte e das pessoas com as quais conversei sobre o assunto, é fruto da crítica pública que ele fez a classe médica, culpando a mesma pelos problemas do SUS e dizendo que é muito fácil trabalhar na av. Paulista. Oras, se o sistema melhorou tanto durante o seu governo, e acho que melhorou um tanto mesmo, então não é nada de mais sugerir que ele lá se trate. Também é muito fácil se tratar no hospital mais caro do país, e nessa hora ele ironicamente não critica ninguém.
E quanto ao Ronaldinho Gaúcho, o problema não está em premiar um jogador de futebol ou um jogador de futebol de origem humilde. Mas que tal premiar um jogador que não tenha dispensado a seleção brasileira em algumas oportunidades para privilegiar o clube europeu onde jogava/ganhava seus milhões? Futebol faz sim parte da cultura brasileira, mas isso não é motivo para premiar alguém apenas pela sua fama.
Preconceito é uma via de mão de dupla, e esses dados também estão a disposição por aí.
O autor busca legitimidade da concessão da medalha em José Lins do Rego. Bem, o que Lins do Rego, flamenguista fanático, pensaria do leilão promovido por Ronaldinho e seu irmão Assis, que reduziu três clubes a tietes de seu interesse e alvos da exploração suja dos meios de comunicação? Ora, o Ronaldinho não é flamenguista. Não é representante do brasileiro. Eu sou brasileiro e não me sinto representado por Ronaldinho. Assim como eu, muitos. Fascismo é reduzir um País inteiro a uma personalidade… a uma “esquete” das várias vertentes do povo. A cultura de um povo não é tangível, não é concebível em forma definida e única, não é representada por uns poucos, reduzida em um ser humano. Defini-la como tal é cair no mesmo erro daqueles que um dia alardearam o “português” como matriz do povo brasileiro. Não, não é o negro ou o português, nem mesmo o mestiço matrizes deste povo, mas o conjunto deste, para além da mestiçagem, para além da concepção litorânea do que é ser brasileiro que se configura, de fato, o “ser brasileiro”. Mas o autor quer nos impor o seu “ser brasileiro” como realidade tangível do eu-nacional. E o busca em Ronaldinho para justificar uma espécie de “racismo” que sofre o jogador, por ser agraciado com a medalha. Com os diabos! Ronaldinho nem mesmo flamenguista é! O que Lins do Rego tem a ver com a condecoração de um jogador que o Flamengo adquiriu num leilão, que paga mais de um milhão por mês para jogar, que não é flamenguista, e que desrespeitou o clube que o lançou no futebol, que deu a ele casa, condições, treinamento de alto nível etc.? Não, fosse outro jogador, flamenguista e com história dentro do Flamengo, e tudo bem. Mas foi Ronaldinho, um marqueteiro, em mais uma jogada de marketing. Do Ronaldo e do Flamengo. E é isso que o “fanatismo” reproduz hoje.
Engraçado, o Sr. José de Alencar que foi vice presidente do mesmo presidente Lula conseguiu sobreviver às várias cirurgias por serem feitas em clínicas especializadas e particulares. Aí vem a pergunta, porque isso não foi questionado? Porque o Sr. José de Alencar era empresário de grande força no Brasil.
Um deputado ou senador que não são originários da “classe baixa” podem gastar milhares de reais em gastos duvidosos mas o Sr. Francisco Everardo Oliveira Silva, vulgoTiririca, não pode se dar ao luxo de gastar alguns caraminguás em um restaurante “de classe” que lá vem os paparazzi da imprensa brasileira caindo de pau.
Infelizmente aqui é assim, a ideia escravocrata ainda persiste, a relação senhor escravo ainda existe com toda força, os senhores aqueles que estão por cima e os escravos a população em geral e os capitães do mato aqueles que oprimem os demais da sua própria classe e admiram os senhores.
Certamente o autor Felipe Amin Filomeno deve ser um petista obscuro que fica irritado com qualquer tipo de crítica que se levante contra o ícone da pseudoesquerda brasileira, ou seja, o Lulinha Paz e Amor. O pior é que tudo vira preconceto nesta selva do esquerdismo simplório brasileiro. Lula tá muito rico com palestras debilóides que produz pelo mundo afora e por isso deve mais é gastar sua grana no Sirio-Libanês. Na verdade ele não faria uso do SUS porque no governo do lulinha e seus esquerdistas retóricos (o grande intelectual deste grupo é o Zé Dirceu!!!) tivemos um SUS verdadeiramente sucateado que agride a população usuária. Quanto ao Ronaldinho que ganha vergonhoso 1 milhão e meio mensal e,portanto,agride uma série de pesquisadores de altíssimo nível no Brasil (veja USP,UFRJ,UNICAMP,FIOCRUZ,UFMG,UNB…) a ida a ABL não diz nada até porque os “intelectuais” da ABL também são literatos frustrados de pouca produção intelectual fundacional para a cultura brasileira (eles até elegeram o Merval Pereira, rei das baboseiras escritas e televisivas!!! Até o débil e ultrapassado Sarney é “intelectual” da ABL!!!). Porém o que mais me preocupa é este sindrome paranóico de “preconceito” em todo o dito. Hoje não se pode fazer mais nenhuma crítica pois ela pode carregar inconscientemente um preconceito que aflora sem que a pobre coitado se dê conta. Como dizia minha avó: VADE RETRO!!
Preconceito de classe e preconceito racial. Muito bem apontados. Ha muitas outras excelentes analises na mesma direcao. Os pretensamente indignados que aqui soltam desaforos e xingamentos certamente nunca entraram num hospital publico, e nunca se preocuparam com os pobres. Dai a falta de autoridade moral dessas campanhas.