Um fotógrafo brasileiro no Oriente Médio em chamas

ChaimEntre ruínas e escombros: Gabriel Chaim dialoga sobre sua experiência cobrindo as guerras que os EUA e seus aliados promovem na Síria, Iraque e Iêmen

Por Vinicius Gomes Melo | Fotos: Gabriel Chaim

Era início do verão no hemisfério norte quando o paraense Gabriel Chaim entrou com sua câmera e seus equipamentos de filmagem no norte do Iêmen, uma área controlada pelos rebeldes houthis e de quase impossível acesso para qualquer estrangeiro, ainda mais para um jornalista do Ocidente – ao menos, na concepção geográfica da palavra.

Não demorou para ele ser procurado pelos grandes veículos internacionais de comunicação perguntando-lhe como conseguiu o feito. Chaim não disfarça a satisfação de ter realizado tal façanha, sendo um brasileiro atuando de maneira independente e sem o apoio financeiro desses gigantes da mídia estrangeira — que não se entusiasmaram quando o fotógrafo propôs a pauta pela primeira vez.

Considerado o país mais pobre do Oriente Médio, o Iêmen foi apenas a última parada do premiado fotógrafo antes de retornar ao Brasil para a produção de um documentário junto à Globo News sobre esse conflito que já dura três anos. Também aproveitou para participar de uma conversa com o público em um evento organizado pela DOC Galeria, escritório que representa suas fotografias desde 2014. Continuar lendo

Como o Brasil alimenta as guerras globais

170402-Armas

País já é o quarto exportador mundial de armamento leve — o que mais mata. Entre os clientes, Arábia Saudita, que promove agressão brutal contra o Iêmen

Robert Muggah, entrevistado por Vinicius Gomes Melo

No dia de 5 de dezembro de 2016, durante uma reunião na Assembleia-Geral das Nações Unidas, cerca de 180 países aprovaram a implementação da Conveção sobre Munições Cluster (CCM, sigla em inglês), que proíbe a produção, estocagem e venda desse tipo de armamento. As munições cluster carregam dezenas ou centenas de submunições explosivas. Após o lançamento, elas se abrem no ar, espalhando os explosivos sobre uma ampla área de impacto. Dada sua natureza, essa arma não distingue civis de militares. Mais de cem países já assinaram o tratado de 2008; o Brasil não é um deles.

Ao seu lado, estão o governo do Iêmen, a Arábia Saudita, Egito, Bahrein, Sudão, Qatar e Emirados Árabes – países que não são conhecidos por seu respeito aos direitos humanos – além dos tradicionais Estados Unidos, Rússia e China. 

Uma pergunta honesta a ser feita, caso alguém se desse ao trabalho de conectar os pontos, seria: “Por que o Brasil, notório defensor da resolução não-violenta e diplomática de conflitos internacionais, fica na contramão do mundo ao não apoiar um tratado que, em última instância, visa extinguir os danos humanitários e o sofrimento de população em zonas de conflito?”. Numa cruel ironia, a resposta para essa possível pergunta viria menos de 24 horas depois.  Continuar lendo