Um fotógrafo brasileiro no Oriente Médio em chamas

ChaimEntre ruínas e escombros: Gabriel Chaim dialoga sobre sua experiência cobrindo as guerras que os EUA e seus aliados promovem na Síria, Iraque e Iêmen

Por Vinicius Gomes Melo | Fotos: Gabriel Chaim

Era início do verão no hemisfério norte quando o paraense Gabriel Chaim entrou com sua câmera e seus equipamentos de filmagem no norte do Iêmen, uma área controlada pelos rebeldes houthis e de quase impossível acesso para qualquer estrangeiro, ainda mais para um jornalista do Ocidente – ao menos, na concepção geográfica da palavra.

Não demorou para ele ser procurado pelos grandes veículos internacionais de comunicação perguntando-lhe como conseguiu o feito. Chaim não disfarça a satisfação de ter realizado tal façanha, sendo um brasileiro atuando de maneira independente e sem o apoio financeiro desses gigantes da mídia estrangeira — que não se entusiasmaram quando o fotógrafo propôs a pauta pela primeira vez.

Considerado o país mais pobre do Oriente Médio, o Iêmen foi apenas a última parada do premiado fotógrafo antes de retornar ao Brasil para a produção de um documentário junto à Globo News sobre esse conflito que já dura três anos. Também aproveitou para participar de uma conversa com o público em um evento organizado pela DOC Galeria, escritório que representa suas fotografias desde 2014.

Antes disso ele passou por outros palcos de guerra da região, registrando, principalmente, a devastação sem igual que resulta do combate ao Estado Islâmico. Entre essas coberturas, muitas produzidas junto a CNN, lhe renderam duas indicações ao Emmy 2018: “Queda de Raqqa” e “Queda do ISIS no Iraque e na Síria”, esta última, já premiada com o Peabody Awards, em abril.

Chaim está desde 2013 na estrada da cobertura de guerra, pulando de conflito em conflito, tendo como a maior constância, e aquilo que continua a levá-lo ao campo de batalha, compartilhar histórias. “Eu acho que todo ser humano tem algo pra falar, não importa de onde for. Para mim não existe nada mais interessante do que histórias de vidas de pessoas normais, de pessoas que estão vivendo aquela situação”, diz ele, “seja o soldado com sua história de vida por detrás daquele uniforme, seja um civil fugindo da guerra”.

Por entre ruínas, escombros e paisagens desoladas, Chaim busca essas histórias e, através de suas lentes, conhecemos um pouco mais de mundos distantes e das pessoas que neles lutam para sobreviver, às margens da humanidade.

Mosul e Raqqa: um conto de duas cidades

Quando em junho de 2014, um tal de Abu Bakr al-Baghdadi declarou o estabelecimento de um Califado – um tipo de governo regido pelas leis islâmicas do Sharia – exigindo que todos os muçulmanos ao redor do mundo, assim como os grupos jihadistas, jurassem aliança a ele, inaugurou-se uma nova etapa na Guerra contra o Terror, iniciada por George W. Bush.

Osama bin Laden já estava morto e sua temida Al-Qaeda, que nos dez primeiros anos do século 21 apavorou o mundo, já não tinha espaço no noticiário internacional. Os analistas mais atentos, porém, haviam percebido que o governo sectário no Iraque e a guerra civil na Síria contra o regime de Bashar al-Assad estavam abrindo espaço para algo totalmente novo e ainda mais sinistro. Repentinamente, os combatentes do Estado Islâmico tomaram o controle de quase um terço do Iraque e, no apogeu de seu poder, expandiu seu pseudo-califado até as margens de Aleppo, na Síria, até poucos quilômetros da capital iraquiana, Bagdá.

O mundo tinha um novo inimigo público número 1. O combate a ele, nesses dois países, absorveria as principais potências globais e regionais, além de um sem-número de grupos não-estatais, em um xadrez geopolítico em que aliados e antagonistas muitas vezes se confundiam.

Parte do resultado disso foi registrado pelas câmeras de Chaim. Do alto, seu drones dimensionavam a destruição causada pelo bombardeio aéreo. No chão, as lentes capturavam o drama humano tendo que conviver com a perda, a morte e a fuga para sobrevivência.

Destaca-se aqui a cobertura que Chaim realizou em dois dos principais redutos do Estado Islâmico: Mosul, no Iraque e Raqqa, na Síria.

Civis abandonando o bairro Havy Zarai, em Mosul, por conta dos confrontos com o Estado Islâmico

Civis abandonando o bairro Havy Zarai, em Mosul, por conta dos confrontos com o Estado Islâmico

Mosul nunca foi uma cidade homogênea. Na parte leste havia uma população mais aberta ao Ocidente, onde a investida do exército iraquiano foi muito mais fácil. Diferente do que ocorreu na chamada Mosul Antiga, que contava uma população salafista, que enxerga o Islã através de lentes mais ortodoxas e conservadoras. Assim, quando o Estado Islâmico chegou, eles foram bem-vindos e muitas pessoas que ali viviam ingressaram nas fileiras do grupo – e foi exatamente ali que ocorreu seu último, e feroz, ato de resistência em Mosul.

Chaim acompanhou tudo isso de perto, pois esteve inserido em uma unidade especial do exército iraquiano chamada Golden Division, “Eu ia com eles casa por casa. Eles eram os primeiros a entrar, em uma unidade de oito a dez soldados, em territórios do Estado Islâmico. Eu fiquei oito meses com esses caras, só não morri por sorte”, conta.

Essa operação da Golden Division levou duas semanas para ser cumprida. Todavia, foi precedida por meses de bombardeio aéreo norte-americano. Estima-se que para reconstruir Mosul Antiga, seria necessário cerca de 1 bilhão de dólares.

“A parte antiga da Mosul foi totalmente devastada”, diz Chaim. “Se você chegasse para um civil de lá, como eu cheguei para centenas deles, e pedisse para ele contar como era sua vida antes, 99% deles diziam que estava fugindo por conta dos ataques aéreos que destruíram suas casas e mataram suas famílias”.

Concomitantemente ocorriam os combates em Raqqa, cidade considerada a “capital” do Estado Islâmico, que já vinha sendo campo de batalha antes do surgimento do movimento jihadista sunita, por conta da guerra civil na Síria, entre forças do governo de Basha al-Assad e grupos opositores.

Após ter testemunhado a libertação de Mosul, Chaim atravessou a fronteira para a Síria, a fim de registrar os meses finais daquilo que ficou conhecido como a Queda de Raqqa. E as comparações com a cidade iraquiana, em termos de destruição, são inevitáveis, principalmente por conta de quem conduziu os ataques aéreos.

“A devastação de Raqqa era uma coisa impressionante, também com apoio do Ocidente. Ali, não só com os EUA, mas com a coalizão que eles lideravam, que incluía o Reino Unido, a França, etc.”, diz Chaim.

Sobre a estratégia adotada no combate ao Estado Islâmico, não faltaram condenações, justificativas, teorias e muitos “e se”, Uma reportagem do Washington Post parece trazer mais luz ao debate: “Um profundo senso de injustiça dominou as conversas entre os sobreviventes e refugiados que retornaram à cidade devastada. Muitas pessoas com quem conversamos questionam a maneira com que a operação foi conduzida: houve alguma preocupação com as vidas dos civis? O uso de bombas para eliminar um único atirador causando, como consequência, a morte de muitos civis é uma escolha aceitável?”, lê-se no texto.

Além disso, de acordo com um relatório da ONU, de agosto, o Estado Islâmico já teria condições de se reconstruir pois, “apesar da queda de Raqqa, em outubro passado, o movimento jihadista sunita possui cerca de vinte a trinta mil membros espalhados pela Síria e Iraque”. Ou seja, por conta do “califado físico ter sido largamente destruído”, o Estado Islâmico teria se transmutado de um “proto-Estado” para uma “rede terrorista clandestina” de alcance global”, com afiliados no sul e sudeste da Ásia, região do Sahel africano, na Península Arábica e, claro, na Europa.

Em Raqqa, Mosul e outras tantas cidades, entretanto, resta a ruína, o número de mortos não contabilizados, o cheiro fétido por conta dos corpos em decomposição que ainda não conseguiram ser recuperados dos escombros, a impossibilidade de reconstruir suas vidas e o fado de continuar sendo a parte mais frágil e invisível de uma guerra sem fim à vista.

Gabriel Chaim reflete sobre como essa estratégia de guerra total contra o terrorismo, de “vamos matá-los, temos que acabar com eles, não importa quantos morrerem” pode servir de combustível para o prolongamento dessa guerra:

“As pessoas, geralmente os civis, que estão naquela situação de comoção, de total desespero, geralmente enxergam na imprensa estrangeira uma porta-voz das suas dores, das suas mágoas, do seu ódio – inclusive, mais do ódio. Quando você passa por muitos anos de sofrimento, acaba transformando aquela dor que te fazia chorar no ódio que te faz matar. É isso o que o Ocidente ainda não entendeu. A guerra faz com que o oprimido se torne assassino e vai querer matar o seu opressor”, diz o fotógrafo, e reflete, “Será que a gente não ia fazer o mesmo?”.

Menina correndo entre escombros em área controlada pelos rebeldes sírios, em Aleppo

Menina correndo entre escombros em área controlada pelos rebeldes sírios, em Aleppo

Iêmen e as armas brasileiras

De acordo com os números oficiais das Nações Unidas, em três anos de conflito no Iêmen, cerca 10 mil pessoas foram mortas, mais de 40 mil foram feridas de alguma maneira, pelo menos 3 milhões de iemenitas tiveram de abandonar suas casas. Pelo menos 50 mil crianças foram mortas só em 2017, uma média de 130 por dia, e de acordo com a Organização Mundial da Saúde, o país está à beira de sofrer uma segunda epidemia de cólera, que já matou 2 mil pessoas desde 2016.

Ainda assim, esse é um conflito que o noticiário internacional demorou para dar atenção devida. Inclusive, Gabriel revela que nunca sentiu tanta dificuldade em publicar seu conteúdo e convencer os veículos com quem está acostumado a trabalhar como foi o caso do Iêmen. “Existe um desinteresse muito grande em relação ao que está acontecendo no Iêmen, eu não sei o porquê”, diz ele.

Para compreender o conflito no Iêmen é preciso, em primeiro lugar, ter em mente que esse país sempre foi dividido entre norte e sul, sendo unificado apenas em 1990, mas ainda assim, uma frágil unificação. Então veio a Primavera Árabe, em 2011, e no Iêmen, manifestantes tomaram as ruas do país exigindo a saída do presidene Ali Abed Allah Saleh, por 33 anos no poder. Com a sua recusa, os confrontos entre protestantes e forças de segurança do governo recrudesceram até que, graças a uma mediação internacional, Saleh entregou o poder para seu vice-presidente, Abd-Rabb Mansour Hadi, em 2012.

Há muitas teses e justificativas dizendo por que isso falhou, tudo dependerá do referencial de partida para uma análise. O fato é que em 2014, o movimento rebelde dos houthis, muçulmanos xiitas, aproveitou a instabilidade política do país e tomou controle das províncias ao norte e, logo depois, a capital Sanaa, forçando Hadi a ir para o exílio na Arábia Saudita.

Quando os rebeldes começaram a partir para o sul, em direção à cidade portuária da Aden, a segunda maior do país, formou-se uma coalizão militar entre países árabes a fim de derrotá-los e restaurar o governo de Hadi.

Essa coalizão, liderada pela Arábia Saudita, inclui o Kuwait, os Emirados Árabes, Bahrein, Egito, Jordânia, Sudão, Marrocos e Senegal, além de contar com o apoio logístico e armamentista dos EUA, Reino Unido e França. Do lado dos houthis, estaria o Irã, visto como uma ameaça pelas monarquias do Golfo (todas sunitas), e capaz de exercer enorme influência em outras três capitais árabes: Damasco (Síria), Beirute (Líbano) e Bagdá (Iraque). Não à toa, esse conflito é muitas vezes descrito como uma grande “guerra fria” entre as potências regionais, em especial Irã-Arábia Saudita.

Chaim oferece uma outra análise sobre isso, muito mais pragmática. Para o fotógrafo, toda essa guerra pode ser resumida pelo controle dos portos, em especial o de Hudaydah, no Mar Vermelho, que caíra sob domínio houthi. É por ali que o comércio internacional entre Europa, Ásia e África ocorre, através do Canal do Suez.

De qualquer maneira, entre toda essa salada geopolítica na guerra do Iêmen está o Brasil.

Em campo de refugiados no Iêmen, mãe tenta alimentar sua filha, Malika, pesando 2,5kg

Em campo de refugiados no Iêmen, mãe tenta alimentar sua filha, Malika, pesando 2,5kg

Ao entrar na área do país controlada pelos houthis, Gabriel Chaim conseguiu mostrar em imagens algo que as agências internacionais de direitos humanos vêm denunciando há anos: armas de fabricação brasileira estão sendo usadas no Iêmen. Pior que isso, são armas consideradas ilegais por grande parte da sociedade internacional.

As chamadas munição cluster, ou de fragmentação, têm por característica explodirem e dispersarem centenas de submunições por uma área de até quatro campos de futebol. Esse tipo de armamento é considerado ilegal por muitos especialistas, uma vez que ao atingirem indiscriminadamente tanto alvos militares, quanto civis, eleviola o princípio da distinção prevista na Convenção de Genebra. Já existe uma convenção internacional para sua proibição completa, a qual o Brasil nunca assinou e nem dá sinais de que tem tal intenção.

Apesar de nem sequer possuir uma representação diplomática no país, esse relacionamento (in)direto que o Brasil possui com a guerra civil iemenita deve-se ao fato de a Arábia Saudita, ser um dos principais destinos desse munições made in Brazil.

“Primeiro que eu fiquei muito envergonhado em relação aos caras ao meu redor, mas como eles já sabiam que eu era brasileiro e que queria falar das clusters e queria contar a verdade do que eles estão passando, eles me ajudaram em tudo e isso foi muito gratificante”.

Longe de se posicionar ao lado dos houthis, Chaim considera que as atrocidades cometidas no Iêmen não são exclusividade de ninguém. “Os dois lados estão matando inocentes, estão colocando crianças pra lutar. O número de crianças que eu vi com arma na mão era absurdo, eu nunca tinha visto nada parecido. Depois de um tempo aquilo normatiza, não é mais uma criança, é um soldado”, lamenta ele.

Iraque. Síria. Iêmen. Os endereços mudam, mas dois pontos conectam todo eles: o drama humano e a busca pelo poder, ainda mais quando se trata de Oriente Médio, abençoado e amaldiçoado com por sua localização geográfica e pela abundância do petróleo.

O que não muda, porém, é que como em toda guerra, independente de sua origem, não há santos, mas há sempre vítimas.

Uma vida em conflitos

“Uma das coisas do meu trabalho é que se eu não estiver lá, não está valendo para mim. Não é questão de correr risco, mas é ver a história nascendo, de onde essa história está vindo. Eu quero estar lá e conferir com os meus olhos e você tem provas do que você está falando é verdade” diz Chaim.

Nas palavras do fotógrafo, ele “não é um cara que vai lá passar uma hora fazendo hard news em um determinado local antes de voltar para o seu hotel”. Ele estaria entre aqueles jornalistas que se inserem de verdade nos lugares, dedicam a passar muito tempo fazendo as coberturas.

Esse tipo de jornalismo, entrando e saindo por tanto tempo de regiões hostis ao redor do mundo, faz com que os repórteres desenvolvam uma frieza torpe, que lhes permite seguir em frente. Em seu livro Clube do Bangue Bangue, o fotógrafo sul-africano Greg Marinovitch relatou que os corpos que via pelas ruas de Joanesburgo nos anos de violência sectária do país no pós-apartheid, deixavam de ser cadáveres. Pelo olhar de seu obturador, aquele corpo sem vida perdia a humanidade e o fotógrafo, a cada clique de sua máquina, também perdia a sua.

Na voz de Gabriel, no entanto, não há nenhum traço de frieza cínica que o testemunho diário de tragédias humanas e a indiferença do resto do mundo para com elas poderia resultar. Pelo contrário, a indignação com o sofrimento causado pela guerra e a vontade de dar voz àqueles que não têm, ainda está presente.

“Você percebe o quanto a sociedade é doente, porque centenas e milhares de crianças e adultos inocentes são mortos por conta de ataques que ocorrem de maneira não-coordenada de países do Ocidente. Mas as lágrimas caem por duas ou três vítimas da intolerância que morrem em países europeus, ocidentais. Você percebe como essa diferença é tão gritante no nosso mundo que é difícil mensurar dor, caos, por que tantos morrem, tantos passam por isso diariamente de uma maneira totalmente esquecida, às margens da humanidade, que…”, ele não termina a frase.

Por outro lado, todavia, o fotógrafo não está imune ao que muitos de seus pares sentem quando saem do front: a necessidade de retornar para lá.

“Eu não sei te explicar isso, mas essa necessidade é constante na minha vida. Você está inserido em um contexto numa área de guerra e tudo na sua vida gira contra o relógio, seus pensamentos começam a fluir de uma maneira diferente, seus sentimentos ficam diferentes, então, você sempre vai em frente, sempre seguindo, nunca parando, vai, vai, vai, vai, até que um dia…”, ele não termina a frase mais uma vez, mas agora dá uma risada tranquila.

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