EUA: Bernie Sanders, o socialista, está de volta

Senator Bernie Sanders, an independent from Vermont and 2016 Democratic presidential candidate, raises his fist after speaking during a campaign rally Milton High School in Milton, Massachusetts, U.S., on Monday, Feb. 29, 2016. Sanders is pinning his hopes for staying in the Democratic presidential race on working-class white voters, the same constituency that helped Hillary Clinton extend her 2008 campaign. Photographer: Scott Eisen/Bloomberg via Getty Images

Em outro sinal de avanço de uma nova esquerda, ele lançou candidatura à Presidência e recebeu apoio ainda maior que em 2016. Mas há obstáculos à frente — em especial na cúpula do Partido Democrata

Por Vinicius Gomes Melo

Ele está de volta. Menos de 24 horas após anunciar que concorreria mais uma vez à eleição presidencial norte-americana, o senador Bernie Sanders arrecadou quase 6 milhões de dólares em doações individuais para sua campanha. O valor é quatro vezes maior do que ocorrera em 2015 — e foi doado por 223 mil pessoas, o que resulta numa contribuição média de 27 dólares – um número quase cabalístico e que ficou marcado como símbolo da rejeição de Sanders às doações milionárias para campanhas políticas.

Mas a pergunta que não quer calar é: será que agora o Partido Democrata permitirá que Sanders, um senador sem filiação partidária, um autoproclamado socialista democrático e um outsider tenha uma chance real nas eleições de 2020? Continuar lendo

Um fotógrafo brasileiro no Oriente Médio em chamas

ChaimEntre ruínas e escombros: Gabriel Chaim dialoga sobre sua experiência cobrindo as guerras que os EUA e seus aliados promovem na Síria, Iraque e Iêmen

Por Vinicius Gomes Melo | Fotos: Gabriel Chaim

Era início do verão no hemisfério norte quando o paraense Gabriel Chaim entrou com sua câmera e seus equipamentos de filmagem no norte do Iêmen, uma área controlada pelos rebeldes houthis e de quase impossível acesso para qualquer estrangeiro, ainda mais para um jornalista do Ocidente – ao menos, na concepção geográfica da palavra.

Não demorou para ele ser procurado pelos grandes veículos internacionais de comunicação perguntando-lhe como conseguiu o feito. Chaim não disfarça a satisfação de ter realizado tal façanha, sendo um brasileiro atuando de maneira independente e sem o apoio financeiro desses gigantes da mídia estrangeira — que não se entusiasmaram quando o fotógrafo propôs a pauta pela primeira vez.

Considerado o país mais pobre do Oriente Médio, o Iêmen foi apenas a última parada do premiado fotógrafo antes de retornar ao Brasil para a produção de um documentário junto à Globo News sobre esse conflito que já dura três anos. Também aproveitou para participar de uma conversa com o público em um evento organizado pela DOC Galeria, escritório que representa suas fotografias desde 2014. Continuar lendo

Na África, choque entre potências, espionagem e intrigas

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Enciumados com os chineses, que doaram à União Africana sede de 200 milhões de dólares, EUA e França acusam Pequim de vigilância. Intriga revela enorme interesse internacional sobre continente

Por Vinicius Gomes Melo

Os escritórios já se encontram vazios e o silêncio reina dentro do imponente complexo de vidro espelhado, próximo ao antigo aeroporto em uma das principais avenidas de Adis Abeba, capital da Etiópia. É ali que está sediada a União Africana (UA), a mais importante organização internacional do continente.

Porém, é na madrugada, quando toda atividade do dia cessa, que os servidores da organização internacional parecem mais trabalhar. Durante as primeiras duas horas do dia, todas as informações e comunicação digital que trafegaram internamente saía da cidade no leste africano diretamente para outros servidores, cerca de oito mil quilômetros distantes, na China.

Isso teria ocorrido por cinco anos desde que o complexo fora inaugurado, em janeiro de 2012, cujas obras foram financiadas pelo próprio governo chinês, então presidido por Hu Jintao. O presente de 200 milhões de dólares dos chineses – que inclusive fizeram questão de que o prédio principal medisse 99,9m, em homenagem ao dia 9 de setembro de 1999, quando a Organização da União Africana votou para se transformar na atual UA – teve suas obras finalizadas no final de 2011 e seus trabalhos iniciados já no primeiro mês do ano seguinte, e com eles, a espionagem chinesa.

Bem, pelo menos é isso que o jornal francês Le Monde reportou recentemente, mas será que tudo isso de fato aconteceu?

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O que será do Curdistão?

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Menos de um mês depois de os curdos expressaram seu desejo de independência em relação ao Iraque, sonho de um país próprio encontra-se muito mais longe. Um erro de cálculo monumental levou ao fracasso

Por Vinicius Gomes Melo

No último domingo de setembro, o roxo na ponta do dedo indicador – ao lado da bandeira de listras verde, branco e vermelho, com o alegre sol amarelo em seu centro – era o maior sinal de orgulho para a população curda dentro Iraque. A marca demonstrava que seu portador tinha acabado de participar do plebiscito para a independência da Região Autônoma Curda, ou Curdistão iraquiano.

Nesse dia, enquanto muito da atenção internacional esteve voltada à Catalunha, que também consultava sua população em um referendo sobre a independência, cerca de 92% das três milhões de pessoas que compareceram aos postos eleitorais votaram a favor da indepedência. Ainda que o plebiscito fosse apenas uma consulta de opinião, sem poder jurídico automático, a quase unanimidade na pleito evidenciou que os curdos, não apenas no Iraque, mas na Síria, na Turquia e no Irã ainda desejam ter seu próprio país. Numa cruel ironia, aquele dia marcou o momento em que a esperança para um Curdistão independente ficou ainda mais longe. Continuar lendo

Trump, o bufão isolado

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Em novo sinal do declínio dos EUA, presidente ameaça romper acordo nuclear com Irã e é rechaçado por seus próprios aliados europeus. Gesto alimenta linha dura de Teerã

Por Vinícius Gomes Melo

Nesse final de semana, Donald Trump oficializou aquilo vinha ensaiando nas últimas semanas: ele sabotou o acordo nuclear com o Irã. Ao decidir unilateralmente por sua não-certificação, o presidente norte-americano conseguiu, numa só tacada, antagonizar aliados, fortalecer a ala linha-dura dentro do Irã e destruir a credibilidade dos EUA perante o mundo – e de quebra, envolver o planeta em mais uma complexa crise nuclear, afinal, só a Coreia do Norte não bastava.

O acordo negociado com o Irã impôs rígidos limites ao programa nuclear do país, em troca, a comunidade internacional cessou uma série de sanções econômicas. Desde então, a cada 90 dias, os EUA têm que confirmar que Teerã tem se mantido dentro do acordo para as sanções continuarem suspensas.
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(P)Ilhas de Lixo: o nascimento de um país

Em novo esforço para despertar consciência ambiental, movimento pleiteia o direito de transformar em país uma pilha de lixo do tamanho da França, que flutua no Oceano Pacífico

Por Vinicius Gomes Melo

Al Gore. Ex-vice-e-ex-futuro-presidente dos Estados Unidos é o primeiro cidadão reconhecido das Trash Isles, ou Ilhas de Lixo, ou (P)ilhas de Lixo (nunca um trocadilho foi tão fácil de fazer numa tradução para português).

No mínimo, ele é o primeiro com passaporte entre as mais de 100 mil pessoas que subscreveram seu desejo de receber a cidadania da pilha de lixo do tamanho da França que boia no Pacífico Norte, próximo ao Havaí. Continuar lendo

Como o Brasil alimenta as guerras globais

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País já é o quarto exportador mundial de armamento leve — o que mais mata. Entre os clientes, Arábia Saudita, que promove agressão brutal contra o Iêmen

Robert Muggah, entrevistado por Vinicius Gomes Melo

No dia de 5 de dezembro de 2016, durante uma reunião na Assembleia-Geral das Nações Unidas, cerca de 180 países aprovaram a implementação da Conveção sobre Munições Cluster (CCM, sigla em inglês), que proíbe a produção, estocagem e venda desse tipo de armamento. As munições cluster carregam dezenas ou centenas de submunições explosivas. Após o lançamento, elas se abrem no ar, espalhando os explosivos sobre uma ampla área de impacto. Dada sua natureza, essa arma não distingue civis de militares. Mais de cem países já assinaram o tratado de 2008; o Brasil não é um deles.

Ao seu lado, estão o governo do Iêmen, a Arábia Saudita, Egito, Bahrein, Sudão, Qatar e Emirados Árabes – países que não são conhecidos por seu respeito aos direitos humanos – além dos tradicionais Estados Unidos, Rússia e China. 

Uma pergunta honesta a ser feita, caso alguém se desse ao trabalho de conectar os pontos, seria: “Por que o Brasil, notório defensor da resolução não-violenta e diplomática de conflitos internacionais, fica na contramão do mundo ao não apoiar um tratado que, em última instância, visa extinguir os danos humanitários e o sofrimento de população em zonas de conflito?”. Numa cruel ironia, a resposta para essa possível pergunta viria menos de 24 horas depois.  Continuar lendo

E se Donald Trump cair?

pencePerfil de Mike Pence, o homem que assumiria a Casa Branca. Ele é tão contrário aos direitos humanos como o presidente — e muito mais ligado ao establishment político e à indústria de armamentos

Por Vinicius Gomes Melo

Pneumonia, ataque cardíaco, hemorragia cerebral, gastroenterite aguda, renúncia e assassinatos (quatro, no total) do governante eleito. Essas foram as causas que levaram nove vice-presidentes dos Estados Unidos ao posto de líder do país. Uma taxa de quase 20%. Em tempos de impeachment, nunca é demais considerar esse cenário.

E se as orações de um significativo número de pessoas nos EUA, e ao redor do mundo, fossem atendidas e Donald Trump se tornasse o décimo norte-americano a não terminar sua presidência? Continuar lendo

Algo estranho na “terra da liberdade”

Amy Goodman, no programa de TV e rádio "Democracy Now"

Amy Goodman, no programa de TV e rádio “Democracy Now”: ameaçada de prisão

EUA mantêm presos dezenas de “protetores” que lutam pacificamente contra oleoduto em terras indígenas. Promotor tenta encarcerar jornalistas por defenderem os que se manifestam

Por Vinicius Gomes Melo

Ainda era uma madrugada fria dessa segunda-feira na Dakota do Norte, estado norte-americano que faz fronteira com o Canadá, quando a jornalista Amy Goodman, principal voz e rosto do Democracy Now!, começou sua reportagem:

“Estamos transmitindo ao vivo de Manda, Dakota do Norte, de frente a corte do condado de Morton, onde várias pessoas aparecerão hoje para enfrentar acusações relacionadas às manifestações de resistência à construção do oleoduto de 3,8 bilhões de dólares da Dakota Access. Dezenas de pessoas que se autodenominam protetoras, e não manifestantes, foram presas nos últimos meses por fazerem oposição à construção do oleoduto […] O condado de Morton também expediu um mandado de prisão para mim, em 8 de setembro, cinco dias depois de o Democracy Now! reportar em vídeo, os guardas da empresa de segurança do oleoduto agredirem fisicamente os protetores pacíficos, em sua maioria nativo-americanos, atacando-os com spray de pimenta e com cachorros. Um deles foi visto com sangue pingando de seu focinho e boca”.

A jornalista encerrou sua transmissão dizendo que compareceria à corte e desafiaria a acusação. O caso Dakota do Norte v.s. Amy Goodman baseia-se na cobertura que o site Democracy Now! fez sobre os protestos contra o oleoduto, em 3 de setembro, e o consequente ataque dos seguranças contratados pela companhia proprietária do oleoduto contra os manifestantes pacíficos. Continuar lendo

Sudão do Sul: mais uma guerra esquecida na África (II)

O único meio de proteção contra o bombardeio sudanês é dentro das cavernas dos Montes Nuba (Do More Canada)

O único abrigo contra o bombardeio sudanês são as cavernas dos Montes Nuba (Do More Canada)

Empobrecido e dizimado, país vive sua terceira guerra civil em quarenta anos. Agora, em fase aguda do conflito, exércitos têm como alvo central a população civil e as colheitas

Por Vinicius Gomes Melo

Em 2011, o mundo ganhou um novo país. Após um referendo aprovar a divisão do Sudão, nascia o Sudão do Sul. O futuro parecia radiante e promissor. A independência finalmente chegava após duas milhões de pessoas mortas e duas guerras civis, que totalizavam 38 anos de conflito. Porém, uma terceira guerra civil espreitava o maior país da África.

Quando a contagem se encerrou contabilizando 99% de votos pela independência e as fronteiras entre Norte e Sul foram desenhadas, duas regiões acabaram ficando do lado “errado” do mapa.

As províncias do Cordofão do Sul e Nilo Azul estão localizadas na região dos Montes Nuba – exatamente no enclave entre Sudão e o Sudão do Sul – e apesar de ambas também terem lutado junto ao Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA, sigla em inglês) contra o regime em Cartum, elas foram deixadas para trás quando o novo país foi formado.

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