Trump e as raízes do populismo conservador

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Três expressões do populismo de direita: Donald Trump, Marine Le Pen (França) e Viktor Orbán (Hungria)

Atacar as elites, sem ameaçar as lógicas centrais do sistema, é algo presente na política norte-americana há mais de um século. Como esta tradição foi gestada. Por que a globalização multiplica sua força. Quais são seus limites

Por Reginaldo NasserWillian Moraes Roberto

O resultado das eleições presidenciais nos EUA trouxe espanto para o establishment do país, confiante na vitória de Hillary Clinton. A apreensão diante da vitória de Donald Trump também percorreu a rede global de aliados do país, da Europa ao Japão. Especulou-se sobre a possibilidade de que o sistema de segurança estadunidense poderá ser repactuado devido ao questionamento feito por Trump em relação ao papel da OTAN e de outras alianças militares.

Mas, o que de fato podem representar os votos dados a Donald Trump? Aparecendo, retoricamente, como o candidato anti-establishment, uma contraposição à elite política tradicional de Washington, o bilionário e apresentador de reality shows capitalizou sobre o amplo descrédito na política e na representatividade dos partidos, sobre percepções de perdas socioeconômicas advindas do processo de globalização, e sobre a impopularidade de Hillary Clinton. De acordo com a autora Naomi Klein, a candidata democrata representa a personificação da “classe de Davos”, em menção à cidade suíça onde ocorre o Fórum Econômico Mundial – uma rede hiper-conectada de banqueiros, bilionários dos setores tecnológicos e industriais, e líderes eleitos que estão amplamente integrados com tais interesses. Enquanto essa elite transnacional e globalizada enriqueceu-se enormemente, nos últimos vinte anos, com a expansão do neoliberalismo, a população estadunidense viu seu padrão de vida despencar em meio a uma estagnação real da renda familiar e dos salários.

O regime neoliberal e o advento da globalização, junto dos acordos de livre-comércio assinados pelos EUA, beneficiaram diversas empresas multinacionais que passaram a mover seus processos de produção para outros países em busca de menores salários e maiores incentivos tarifários. Wall Street e seus bancos aliaram-se ao processo, usufruindo de lucros extraordinários e de intensa desregulamentação financeira, enquanto, por outro lado, a manufatura doméstica entrava em declínio, impactando no nível de empregos e salários.

Apesar de construir uma polêmica candidatura conflagrada por escândalos de caráter misógino, racista e homofóbico, e mesmo sendo ele mesmo um bilionário, Trump conseguiu dialogar com essa parcela da população. Seu discurso serviu a uma classe trabalhadora branca, principalmente masculina, afetada pelos efeitos da globalização e que percebe o crescente aumento da desigualdade no país. Estados que compõem o chamado “Cinturão da Ferrugem” (Rust Belt) abraçaram o discurso de Trump contrário ao NAFTA, ao TPP e aos efeitos da globalização. Iowa, Ohio, Wisconsin e Pennsylvania há anos davam vitória aos democratas. Mas sua economia baseia-se na indústria pesada e na manufatura. Por isso, são declinantes e empobrcidos. 

Ao mesmo tempo, a campanha de Trump mobilizou setores conservadores da população branca, sobretudo aquela rural ou de pequenas cidades, que acreditam numa suposta ameaça do multiculturalismo, principalmente de muçulmanos, e veem a imigração como uma fonte de roubo de seus empregos, principalmente latinos e mexicanos. Donald Trump soube, assim, explorar o medo, a insegurança e o sentimento de exploração e descrença política em um momento de incertezas globais.

Entretanto, apesar da mídia tradicional desenhar Donald Trump como um fenômeno meteórico e desconectado da história dos EUA, sua fala de campanha, embora na maioria das vezes expressar agressividade e propostas desconexas, é possível identificar elementos que dialogam com uma vertente populista existente desde o século XIX no país. John Judis, autor do novo livro “The Populist Explosion” (2016), clarifica questões acerca do termo populismo e sua aplicação na história dos EUA. Para o autor, é difícil conceitualizar tal termo devido ao fato de que não há um conjunto universal de características comum a todos os grupos e partidos colocados sob esse signo. Nos contextos específicos dos EUA e da Europa, entretanto, sob matizes à esquerda e à direita, o populismo seria uma espécie de lógica política, uma forma de pensar a ação dentro das regras do jogo em que se diferencia, de maneira geral, “o povo”, “nós”, de um “outro”, “eles”.

As variações à esquerda definiriam “o povo” contra a elite ou o establishment, em um tipo de política vertical das classes baixas e médias contra o topo. Já as variações à direita definiriam “o povo” contra uma elite que acusam de beneficiar a si mesma e um terceiro grupo, em geral minorias – no caso dos EUA, imigrantes, islâmicos e afro-americanos. Assim, o populismo à direita mobilizaria uma fatia populacional — o “povo”, nessa concepção — que se levantaria contra uma elite, ligada às grandes corporações e ao capital que os fazem enriquecer, mas também contra um grupo com mais dificuldades socioeconômicas, de classes mais baixas ou de culturas diferentes, que seriam sustentados, nessa visão, pelos impostos e pelo trabalho dessa classe média branca.

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Essa tradição populista conservadora iniciou-se nos EUA ainda no final do século XIX, com a fundação do Partido do Povo, em 1891, que postulava maior regulação por parte do Estado nas companhias ferroviárias, controle de preços, bem como limites na imigração e taxação de renda. De acordo com Judis, o Partido do Povo teria sido, nos EUA, o primeiro grande movimento contra a visão de mundo laissez-faire do capitalismo. Seu candidato à presidência, James B. Weaver, de Iowa, pleiteava a plataforma de “restaurar o governo da República de volta para as mãos do povo”. Segundo o autor, na medida em que suas ideias se expandiram, tendo influenciado o próprio New Deal de Franklin Roosevelt, o partido se extinguiu. No século XX, a vertente populista conservadora reemergiu nos partidos tradicionais, sobretudo na figura de George Wallace pelos Democratas ao longo dos anos 1960 e 1970. Tendo chegado a defender a segregação racial, afirmava que “nós estamos cansados do cidadão comum ser taxado até a morte enquanto multibilionários como os Rockefellers, os Mellons e os Carnegies não pagam impostos”.

Nos anos 1970, o sociólogo Donald Warren realizou um importante trabalho que identificou a existência de uma parte da sociedade norte-americana que denominou “Americanos Médios Radicais” (Middle American Radicals, MRA). Essa fração social, que representaria, à época, mais de 25% do eleitorado, se sentia alienada tanto dos Democratas quanto dos Republicanos, desprezando questões como direitos sociais e de minorias e controle de armas, mas reverenciando o antigo partido Democrata, sob Franklin Roosevelt, com sua ênfase na economia, empregos e segurança social. Eles também se sentiam espoliados tanto pela “elite plutocrática”, quanto pelas classes sociais mais baixas, que viam como sustentadas pela classe média e pelo Estado de bem-estar social.

Percebe-se, assim, que o discurso de Donald Trump não tem nada de inusitado e pode ser compreendido como algo que faz parte de uma tradição política nos EUA, com um diálogo claro com experiências passadas. O atual momento tem como diferença, de um lado, o fato de um candidato dessa plataforma ter conseguido chegar à Presidência da República e, de outro, o sucesso deste ter conseguido expandir sua base de apoio – o que está intimamente ligado aos efeitos do neoliberalismo, do crescimento da desigualdade, dos efeitos da globalização e da interligação do establishment político tradicional com a “classe transnacional de Davos”.

Entretanto, ainda que se possa identificar sua filiação política, agora que chegou à presidência, Trump ainda permanece como uma incógnita em termos do que realmente implementará como política. Não só suas propostas são confusas em diversas áreas, como também se faz necessário questionar até que ponto o novo líder eleito pode, segundo suas vontades, redefinir os rumos da maior potência mundial.

Vejamos o caso de Barack Obama. Ao ser eleito em 2008, prometeu uma mudança substancial na política externa estadunidense, mas se essa foi sua vontade, não foi capaz de controlar a estrutura do establishment político-industrial-militar do país. Os EUA venderam, entre 2009 e 2014, 190 bilhões de dólares em armas, mais do que sob qualquer governo desde a Segunda Guerra Mundial. Em relação a Israel, hoje os EUA oferecem o maior compromisso de assistência militar em termos absolutos de toda sua história: mais de 40 bilhões de dólares em um período de 10 anos, iniciando em 2018. Internamente, a militarização da polícia dos EUA também vem se aprofundado, a despeito das promessas em sentido contrário de Obama. Os anos de 2014 e 2015, por exemplo, testemunharam picos nas transferências de equipamentos militares para a polícia do país, em meio a uma escalada de tensões envolvendo questões raciais, como em Ferguson, em 2014. Aprofundou-se, assim, uma crescente militarização das cidades, que securitiza cada vez mais protestos e manifestações civis.

De qualquer forma, a postura de Trump, apesar de vaga, marca o discurso de que haverá mudanças – de que agora é “América primeiro”. Suas propostas aventadas para a área de política externa são igualmente polêmicas. Prometeu a construção de um muro na fronteira com o México para conter a imigração ilegal e a ser pago por esse país; sugeriu banir temporariamente a imigração de pessoas da religião islâmica que viessem de países subjetivamente considerados “problemáticos”; defendeu o uso de certas técnicas de tortura para interrogatório de suspeitos de terrorismo; prometeu rasgar o NAFTA, o TPP e o Acordo Climático de Paris e também retirar as tropas do país estacionadas em território de aliados, como em Estados da Europa e da Ásia, tendo inclusive sugerido que Japão e Coreia do Sul poderiam desenvolver armas nucleares para sua própria defesa.

Sobretudo, o mote de Trump parece ser uma rejeição ao intervencionismo liberal que marcou as presidências de Bill Clinton e Barack Obama, ou mesmo o intervencionismo de ocupação de George W. Bush no Oriente Médio. Taxado por ter uma visão “isolacionista”, é possível que a política externa de Trump tente não manter o tipo de engajamento internacional atual, mas sim remodelar a forma do internacionalismo do país – sem necessariamente se isolar. Cabe relembrar o período (1919-1933) na história dos EUA durante o entre-guerras, em que sua política externa foi chamada de “isolacionista” por ter se recusado a participar da Liga das Nações, mas que, na verdade, foi um momento em que o país expandiu suas ligações internacionais e esteve presente em diversas negociações na Ásia-Pacífico e em outras regiões do globo – apenas fora do circuito multilateral, dominado principalmente pela diplomacia europeia.

A questão, entretanto, é em que medida suas promessas poderão se tornar realidade diante das pressões dos grupos sociais organizados bem como dos poderosos lobbies do país. É preciso compreender que é um momento de divisão e disputa renhida entre elites políticas e econômicas nos EUA. Sua equipe de transição é composta por políticos conhecidos por suas funções lobistas em Washington – apesar de Trump ter denunciado tais práticas durante sua campanha. O bilionário conta com nomes como Michael Catanzaro, lobista para as empresas Koch, e Eric Ueland, anteriormente lobista republicano pela Goldman Sachs.

Por trás de sua retórica “antielitista” a eleição de Trump e a orientação de seu futuro governo podem estar revelando um ponto de inflexão na politica norte-americana. Se, desde os anos 1930, sociólogos e analistas têm chamado a atenção para o poder dos círculos corporativos na realização de seus próprios interesses sobre a maioria da sociedade, atualmente há uma complexa rede de conexões que impede com que haja uma proposta unificada dessa elite. As eventuais medidas protecionistas podem prejudicar alguns, mas deverão promover outros, resultando em composições politicas e econômicas bastante heterodoxas.

Assim, muito provavelmente, teremos mais um presidente dos EUA a cumprir a máxima do príncipe de Lampedusa: tudo deve mudar para que tudo fique como está.

Reginaldo Nasser é professor de Relações Internacionais da PUC(SP) e do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP). Coordenador do GECI – Grupo de pesquisa em Conflitos Internacionais

Willian Moraes Roberto é mestrando do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP) e pesquisador do GECI

Israel ensina o mundo a reprimir

a127Como a Palestina ocupada foi convertida num laboratório onde se experimentam — em seres humanos — técnicas e dispositivos exportados para dezenas de países

Por Arturo Hartmann e Bruno Huberman

O discurso do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, no último 22 de setembro, como parte da 71ª Assembleia Geral da ONU, expôs a responsabilidade internacional para a manutenção do impasse político à respeito da questão Palestina/Israel. Segundo o líder israelense, está em curso uma mudança profunda na forma das nações ao redor do mundo relacionarem-se com Israel. “Nada menos do que uma grande revolução”, afirmou. “Abaixem suas armas. A guerra contra Israel na ONU acabou. Talvez vocês ainda não saibam, mas eu estou confiante que um dia, em um futuro não tão distante, vocês recebam a mensagem de seus presidentes ou de seus primeiros-ministros informando que a guerra contra Israel nas Nações Unidas tenha acabado”, declarou Netanyahu, possivelmente referindo-se à votação na Assembleia Geral, em 2012, que por 138 votos a favor e 9 contrários reconheceu a Palestina como Estado observador, além das dezenas de resoluções condenatórias das políticas de colonização de Israel nos Territórios Palestinos Ocupados (TPO) desde 1967.

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Nas últimas décadas, as principais nações do mundo assumiram uma posição contraditória perante à questão Palestina/Israel: enquanto declaram-se a favor do processo de paz e da solução de dois Estados, na prática contribuem para o aprofundamento e normalização da colonização israelense dos TPO. Neste processo de construção do Estado palestino, a comunidade internacional tornou-se parceira de Israel na continuada exploração da população e dos territórios palestinos, partilhando os lucros e produtos da indústria israelense de ocupação, assim como provendo os meios para manter a resistência palestina sob controle. Ao nosso ver, a cumplicidade internacional com os crimes em curso nos TPO e a mudança de posição prevista por Netanyahu em seu discurso na ONU são resultado do sucesso de duas políticas israelenses: a reestruturação de poder contida no processo de paz de Oslo e a “diplomacia das armas” que emergiu após o 11 de setembro de 2001.

O processo de paz entre israelenses e palestinos teve início em 1991, quando, por pressão das principais potências internacionais foi realizada a Conferência de Madrid. O mundo estava escandalizado com a violência vista nos TPO durante a Primeira Intifada, que havia começado quatro anos antes, em 1987, e exigia uma solução para o impasse político que já durava décadas.

Havia, aparentemente, um consenso de que a criação de um Estado palestino soberano nos territórios ocupados por Israel na guerra de 1967 seria a melhor solução para a questão palestina. O  processo de paz, definido em seu espírito final em um canal secreto em Oslo, ganhou sua efetividade prática nas negociações mediadas pelos EUA, quando decidiu-se que o Estado palestino seria estabelecido gradualmente. Foi então criada a Autoridade Palestina (AP), que seria responsável por administrar a vida da população palestina — como educação, saúde e segurança pública — em algumas zonas autônomas e desconexas entre si, nos territórios ocupados, denominadas Área A, permeadas por uma área contínua sob o controle direto civil e militar israelense — a Área C. A movimentação da população palestina dentro do território e entre este e Israel seria monitorada por checkpoints (postos militares) — localizados em Área B —, compostos pelas burocracias israelense e da AP. Israel, desta forma, manteve o controle sobre todas as fronteiras dos territórios palestinos, assim como o espaço aéreo e os aquíferos subterrâneos.

Blindados comprados pela PM de São Paulo para reprimir periferias e protestos. Vendidos por Israel, cada um custou R$ 5 milhões, o equivalente a cem casas populares

Blindados comprados pela PM de São Paulo para reprimir periferias e protestos. Vendidos por Israel, cada um custou R$ 5 milhões, o equivalente a cem casas populares

As questões econômicas do acordo foram definidas no Protocolo de Paris, assinado em 1995. O orçamento da Autoridade Palestina seria formado pelo repasse israelense de impostos coletados nestas zonas autônomas palestinas e pela ajuda financeira internacional. A gestão da economia dos TPO seria partilhada com as instituições financeiras internacionais, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Seguindo o receituário neoliberal vigente e impulsionado pelas milionárias doações externas, os TPO experimentaram uma falsa sensação de desenvolvimento econômico. Entre 1995 e 1999, os TPO tiveram um crescimento acumulado do PIB de 82% (Banco Mundial, 2015).

Durante as negociações políticas, entretanto, Israel manteve a colonização dos territórios palestinos. Nos sete anos de Oslo, a população de colonos judeus na Cisjordânia cresceu 91%, chegando a um total de 195 mil nos TPO, excluindo Jerusalém Oriental (GORDON, 2008, p. 193). Após o fracasso das negociações de status final de Camp David, em 2000, seguido pela erupção de uma nova revolta popular palestina, a Segunda Intifada (2000-06), os TPO mergulharam em uma crise política, econômica e social. A insatisfação da população palestina, assim como a responsabilidade para o fracasso do processo de paz, voltaram-se desta vez para a incapaz AP e, por extensão, para a comunidade internacional.

O cientista político israelense Neve Gordon (2008, p. 169-196) observa que o processo de Oslo não foi concebido como uma retirada do poder soberano israelense, mas como uma reorganização deste poder, possibilitando a manutenção da colonização dos territórios palestinos, enquanto que a administração da vida da população ocupada foi terceirizada para a AP. Dentro deste raciocínio, o aumento do número de colonos judeus nos TPO faz todo o sentido. Essa reorganização promovida pelo processo de paz quebrou o contato direto entre a população ocupada e a força ocupante. Durante todas as negociações, o Estado e as corporações israelenses mantiveram o controle militar sobre todo o território palestino, assim como a exploração dos seus recursos naturais, enquanto que a comunidade internacional teve e continua a ter um papel central na sustentação e administração da ocupação israelense mesmo após o fracasso dos acordos de paz.

Desde Oslo, 40 países e 20 agências multilaterais, incluindo agências da ONU, deram a sua contribuição para governança, desenvolvimento e atividades humanitárias nos TPO. A assistência internacional cresceu de 178,74 milhões de dólares, em 1993, para 2,011 bilhões de dólares, em 2009 (TURNER, 2014). Desta forma, os palestinos viram a sua dependência econômica transferida de mãos, passando para a da comunidade doadora internacional (HEVER, 2010). Estes recursos internacionais aumentaram a desigualdade social e a percepção de corrupção na sociedade palestina, além de influenciar na democracia e em instituições políticas e na resistência palestina, ao financiar ONGs que adotam as agendas políticas de seus investidores (FARSAKH, 2009). Como resultado, a economia palestina passou por um processo de deterioração estrutural, inviabilizando qualquer possibilidade de desenvolvimento econômico sustentável no médio e longo prazo. Desde a Segunda Intifada, a economia palestina demonstra uma incapacidade estrutural de desenvolvimento (ROY, 1999). Segundo Hever (2010), a economia israelense também só não entrou em colapso e o governo pode manter as suas intervenções militares nos territórios ocupados durante a revolta palestina dos anos 2000 graças às maciças doações militares dos EUA.

Simultaneamente, os territórios palestinos tornaram-se um importante espaço para o desenvolvimento de mecanismos e tecnologias de segurança, vigilância e controle social, principalmente a partir da explosão da Segunda Intifada, nos TPO, e da Guerra Global ao Terror, após o 11 de setembro de 2001. A capacidade israelense de capitalizar a sua “experiência de laboratório” ao demonstrar estas tecnologias em uso nos conflitos com os palestinos e seus vizinhos árabes se tornou um importante fator de marketing dos produtos israelenses. A aliança próxima entre Israel e os Estados Unidos abriu portas para o mercado global, como os próprios Estados Unidos, o Canadá, a União Europeia, a China, o Brasil, a Índia e até mesmo antigos inimigos, como a Rússia. No centro desta cooperação estavam os novos imperativos da vigilância e controle social: como preventivamente identificar, seguir e destruir guerrilheiros e terroristas que se escondem no meio da multidão. Segundo Graham (2011), estes conhecimentos seriam utilizados tanto em Gaza e Bagdá, como nas ações de contraterrorismo, segurança de fronteira e segurança nacional nos EUA, em Israel e em todo Ocidente. O autor avalia que essa exportação da experiência israelense estaria “palestinizando” diversas regiões do mundo como, por exemplo, o Iraque ocupado pelos EUA. Não é de espantar que os EUA aumentaram a sua ajuda militar a Israel para 3,8 bilhões de dólares neste ano.

Além de impedir que a economia palestina entre em total colapso através das continuadas doações, as principais nações do mundo passaram a se beneficiar das tecnologias de segurança desenvolvidas nos territórios palestinos, partilhando os seus lucros. O ativista e antropólogo israelense Jeff Halper (2015) argumenta que o emprego dos mecanismos e tecnologias israelenses pelas elites nacionais para o controle social e vigilância das suas próprias populações tornou interessante a perpetuação da ocupação israelense dos territórios palestinos. Desta forma, nas últimas décadas, a exportação de armas e outros dispositivos de guerra passou a ocupar uma centralidade cada vez maior na diplomacia israelense. Quando Netanyahu afirma do palanque da ONU que uma nova era para Israel está chegando, é porque sabe que há uma rede que internacional que sustenta e tem interesse na manutenção da ocupação dos territórios palestinos.

Referências Bibliográficas

FARKSAH, Leila. From Domination to Destruction: The Palestinian Economy under the Israeli Occupation. In: OPHIR, Adi; GIVONI, Michal; HANAFI, Sari (Orgs.). The power of inclusive exclusion: anatomy of Israeli rule in the occupied Palestinian territories. New York: Zone Books, 2009. p. 379-404.

GORDON, Neve. Israel’s Occupation. Berkeley: University of California Press, 2008.

       . Israel’ emergence as homeland security capital. In: ZUREIK, Elia; LYON, David; ABU-LABAN, YASMEEN. Surveillance and Control in Israel/Palestine: population, territory, and power. London and New York: Routledge, 2011. p. 153-170

GRAHAM, Stephen. Laboratories of war: surveillance and US-Israeli collaboration in war and security. In: ZUREIK, Elia; LYON, David; ABU-LABAN, YASMEEN. Surveillance and Control in Israel/Palestine: population, territory, and power. London and New York: Routledge, 2011. p. 133-152

HALPER, Jeff. War Against the People: Israel, the Palestinians and Global Pacification. Pluto Press, 2015.

HEVER, Shir. The Political Economy of Israel’s Occupation: Repression Beyond Exploitation. New York: Pluto Press, 2010

ROY, Sara. De-development revisited: Palestinian economy and society since Oslo. Journal of Palestine studies, v. 28, n. 3, p. 64-82, 1999.

TURNER, Mandy. The Political Economy of Western Aid in the Occupied Palestinian Territory Since 1993. In: TURNER, Mandy; SHWEIKI, Omar. Decolonizing Palestinian Political Economy: De-development and Beyond. Springer, 2014.

WORLD BANK. World Bank national accounts data, and OECD National Accounts data files, 2015. Disponível em: < http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.KD.ZG?end=2015&locations=PS&start=1961&view=chart&gt;. Acesso em: 6 de outubro de 2016.

EUA: o ódio que o FBI não enxerga

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Estado vigia obsessivamente os muçulmanos. Mas faz vistas grossas a centenas de grupos que pregam ou praticam violência contra minorias. Por isso, Mateen, que matou 49, pôde agir com liberdade

Por Reginaldo Nasser

Dias após a tragédia em Orlando, continuam as investigações policiais na esperança de que possa surgir algum detalhe esclarecedor sobre os motivos que levaram Omar Mateen a cometer massacre na boate LGBT. Sabe-se que Mateen esteve sob vigilância do FBI, em 2013, por ter feito comentários “suspeitos”, após ser “ridicularizado” por sua origem muçulmana. De acordo com as autoridades do FBI, Mateen manifestou simpatia em relação a grupos terroristas, mas a suspeita foi descartada depois que o FBI concluiu que não representava uma ameaça, já que não havia nenhum laço concreto com grupos islâmicos.

Creio que essa ação do FBI é muito significativa. Colocou alguém na lista de suspeitos de ligação com o terrorismo, por ser um islâmico que se manifestou de “forma radical”, mas concluiu que não era ameaça por não ter relação com grupos terroristas islâmicos no exterior. Provavelmente o FBI nem registrou o caso de Mateen que, como milhares de pessoas, manifestam de alguma forma o ódio contra grupos LGBT, nem muito menos seu histórico de violência contra sua ex-mulher. Para o FBI, isso não se constituiu uma ameaça à sociedade!

Nos últimos anos, o governo dos EUA destinou milhões de dólares para programas de combate ao que considera “extremismo violento”, cujo objetivo é identificar e/ou impedir indivíduos que são propensos a cometer violência. Estes programas têm sido severamente criticados por especialistas, na medida em que enfatizam ideologias e crenças, e não incorporam outros indicadores como o comportamento em relação a parceiros íntimos e familiares (ver artigo do The Intercept Was Orlando shooters domestic violence history a missed warning sign?).

Pesquisa realizada pela organização Everytown for Gun Safety, em 2015, constatou que mais de 25% de todos os massacres ocorridos nos últimos seis anos, foram perpetrados por indivíduos com algum histórico de violência doméstica.

Essas questões obrigam-nos a olhar com mais atenção para o conceito de violência. Para o pensador norueguês Joan Galtung, a violência visível (física) é apenas a ponta do iceberg, pois esta intimamente relacionada a situações de violência estrutural e/ou justificadas pela violência cultural. A violência estrutural se refere àquelas situações em que se produz algum tipo de restrição na satisfação das necessidades humanas básicas (bem estar social e econômico, identidade ou liberdade) como resultado de processos de estratificação social. Ocorre sempre que há conflito entre dois ou mais grupos sociais (gênero, etnia, classe, nacionalidade) em que o acesso ou possibilidade de uso dos recursos resulta favoravelmente a alguma das partes em detrimentos dos demais. Já a violência cultural se expressa por meios simbólicos (religião, ideologia, linguagem, arte, ciência, mídia, educação, etc.), e tem como função legitimar a violência direta e/ou estrutural, e oferece justificativas para que os seres humanos, além de se destruírem mutuamente, ainda sejam recompensados por isso (racismo, sexismo, xenofobia etc).

Members of the Westboro Baptist Church hold anti-gay signs at Arlington National Cemetery in Virginia on Veterans Day, November 11, 2010. The Supreme Court ruled on Wednesday that a church has the legal right to stage anti-gay protests at military funerals to promote its claim that God is angry at America for its tolerance of homosexuality. REUTERS/Kevin Lamarque

Vejamos, por exemplo, como tem se manifestado a violência cultural nos EUA. A organização Southern Poverty Law Center (SPLC) monitora, desde 1981, o que considera como grupos de ódio nos EUA — isso é, aqueles que “… têm crenças ou práticas que atacam ou difamam um grupo de pessoas, devido às suas características. Suas atividades incluem marchas, comícios, discursos, reuniões, panfletagem ou publicação”. Ou seja, agem estritamente dentro da lei, pois exercem direitos protegidos pela primeira Emenda da Constituição dos EUA (“o Congresso não fará nenhuma lei a respeito do estabelecimento de uma religião, ou proibindo o livre exercício dela; ou cerceando a liberdade de expressão ou de imprensa; ou o direito do povo se reunir pacificamente e dirigir petições ao governo para a reparação de injustiças”).

De acordo com pesquisa realizada pelo SPLC, em 2015, são 982 os grupos de ódio ativos nos EUA, não incluindo aqueles que estão apenas no ciberespaço. Trata-se de grupos extremamente diversificados como Ku Klux Klan, White Nationalist, Racist Skinhead, Christian Identity, Neo-Confederate, Black Separatist end General Hate. Para além de suas particularidades, todos esses grupos manifestam, de alguma forma, ideologias de ódio, incluindo as subcategorias anti-LGBT, anti-imigrantes, islamofobicos, negação do Holocausto e outros. Trata-se, sem duvida nenhuma, de um ambiente social com níveis exacerbados de violência cultural.

É provável que ainda sejam adicionadas novas informações sobre as possíveis motivações do massacre, mas um fato é incontestável e não precisa esperar pelos resultados de uma investigação completa: trata-se do maior massacre na história dos EUA que teve como alvo a comunidade LGBT.

Apesar disso, políticos do Partido Republicano, em sua grande maioria, têm se recusado a mencionar a comunidade LGBT pelo nome. Trata-se de um ensurdecedor silencio de cumplicidade com o ódio que viceja nessa sociedade e que conta com a proteção de uma constituição que é alardeada no mundo inteiro como a mais democrática do mundo. Se é isso então devemos concluir que há algo de podre no reino da democracia.