Terrorismo: as realidades incômodas — e ocultadas

Mulheres árabes lamentam explosões desta semana em Bagdá. Nunca houve tantos atentados após início das política global "antiterror" deflagrada por Washington. Mas mídia pouco "enxerga" ataques que não atingem capitais ocidentais

Mulheres árabes lamentam explosões desta semana em Bagdá. Nunca houve tantos atentados quanto na era da “guerra ao terror”. Mas ataques que não atingem capitais ocidentais não têm destaque na mídia

Após “Guerra ao Terror”, atentados cresceram 1.000%. Das vítimas, 80% são muçulmanos. No Ocidente, quem mais mata é a direita fundamentalista. Terroristas avançam onde também há violência de Estado

Por Reginaldo Nasser

É frequente haver grandes divergências entre a percepção que se tem da realidade e a realidade mesma, e essa discrepância afeta significativamente todos os aspectos das relações sociais. Desse modo, por vezes, os homens são induzidos a reagir não às coisas reais, mas às ficções que se criou em torno dessas coisas. Se essa asserção é válida para várias questões atinentes às relações internacionais, mostra-se particularmente evidente no caso do Terrorismo. Nas últimas semanas, três ataques de grandes proporções chamaram a atenção da mídia internacional. Mas, para além da comoção que nos causam, é preciso ver o terrorismo como fato social, assim, como no final século XIX o celebre pensador Émile Durkheim, um dos fundadores das ciências sociais, definiu o crime.

Por isso, é preciso estar atento às regularidades do fenômeno do terrorismo, bem como sua incidência, levando em consideração suas variações no tempo e no espaço.
De acordo com Global Terrorism Index, o número total de mortes por terrorismo em 2014 aumentou em 80% quando comparado com o ano anterior. Este é o maior aumento anual nos últimos 15 anos. Desde o início do século 21, o número de mortes por terrorismo passou de 3.329 em 2000 para 32.685 em 2014. Excluindo-se os atentados no dia 11 de setembro, apenas 0,5% de mortes por terrorismo ocorreram no Ocidente desde 2000. Se incluirmos o 11 de setembro, o percentual chega a 2,6. Ou seja, depois que os EUA e aliados declararam “Guerra ao Terror”, o número de pessoas mortas por terrorismo aumentou vertiginosamente. Além do que, os atentados, que apareceram como algo catastrófico, representam um pequeno percentual se olhado de forma mais ampla, tais quais:

  1. 80% das vitimas de ataques terroristas no mundo estão em 5 países (Iraque, Nigéria, Afeganistão, Paquistão, Síria e Somália) ou seja a grande maioria das vitimas são muçulmanos.
  2.  80% das mortes por terroristas no Ocidente são resultado de ações de grupos de direita. Ou seja, o “fundamentalismo islâmico” (não entendo porque não é classificado como de direita), não é a principal causa de terrorismo no Ocidente.
  3. Pelo menos 437 mil pessoas são vítimas de homicídio a cada ano (no Brasil 56 mil), ou seja 13 vezes mais do que o número de vítimas do terrorismo.
  4. 92% de todos os ataques terroristas, entre 1989 e 2014, ocorreram em países onde a violência política por parte do governo foi generalizada.
Gráfico do Global Terrorism Index evidencia o que não se lê nos jornais: atentados dispararam após guerras dos EUA contra Afeganistão e Iraque

Gráfico do Global Terrorism Index evidencia o que não se lê nos jornais: atentados e mortes dispararam após guerras dos EUA contra Afeganistão e Iraque

É preciso antes de tudo ter claro que, por mais detestável que seja, o terrorismo tem um proposito politico e para isso sua ação também é pautada por táticas e estratégias.
Por que, “depois de quase dois anos do surgimento do Estado Islâmico (ISIS), a Turquia se tornou alvo tão intenso de ataques deste grupo?” é a pergunta a que se propõe a responder o e artigo de Willian Moraes Roberto. É preciso lembrar, alerta Willian Moraes Roberto, que Turquia, Arábia Saudita, Catar e potências ocidentais articularam uma rede de apoio financeiro e de distribuição de armamentos às oposições sírias, além de facilitar a entrada de combatentes estrangeiros no país. Além disso, o ISIS estava combatendo os curdos, considerados como ameaça à Turquia. Mas devido às questões internas e internacionais, sobretudo a pressão norte-americana, em julho de 2015, o governo turco se reposicionou no conflito na Síria, passando a combater o ISIS. Ou seja, os ataques terroristas contra a população turca não são aleatórios. Infelizmente, a morte dos inocentes, na logica do terrorismo, funciona como uma mensagem aos antigos aliados.

Outro tema relacionado ao terrorismo, que é pouco discutido, refere-se ao seu financiamento. Fala-se bastante sobre as supostas motivações religiosas e quase não se abordam as suas bases materiais. Leonardo Machado aborda esse aspecto em seu artigo.

Estima-se que o ISIS lucre até US$ 1,5 milhão por dia por meio da exploração de campos de petróleo da Síria e Iraque. De outro lado, embora seja difícil de se saber com precisão o destino da venda, há fortes indícios de que Turquia, Israel e mesmo o governo de Bashar Assad sejam os principais compradores.

Por fim, cabe lembrar que há um recrudescimento dos ataques terroristas no mundo devido às derrotas que o grupo vem sofrendo em seus redutos, como Falujah, por exemplo. Como eu já havia escrito, ano passado, na apresentação do mais aclamado livro sobre o Estado Islâmico, escrito pelo veterano irlandês Patrick Cockburn. Ainda que seja improvável cumprir a promessa de garantir a viabilidade de seu Califado no Iraque e na Síria contra o poderio militar das grandes potencias(EUA e Russia) e das potencias regionais ( Irã e Turquia), a ideologia propagada pelo ISIS, provavelmente, continuará a inspirar seguidores e será capaz de lançar ataques esporádicos nas cidades, através do uso de carros-bomba e ataques suicidas. A capacidade de ISIS para apelar a um imaginário islâmico através de fronteiras e sua restauração do Califado representa a cristalização de uma ideologia jihadista que se desenvolveu ao longo dos últimos trinta anos e que, infelizmente não se dissipará tão cedo.

Novas faces da luta social no Brasil

refugiados_encontro2Refugiados e novos imigrantes, agora vindos da África, Ásia e América do Sul, organizam-se em festivais e frentes políticas. Faltava esta cor, nas batalhas para mudar o país

Por Reginaldo Nasser

Os dados são alarmantes. Segundo ACNUR há atualmente por volta de 65 milhões de pessoas deslocadas no mundo. Ou seja, 24 pessoas/minuto, foram forçadas a sair de seus lugares por motivos de conflitos e perseguições, a cifra mais alta desde o final da 2ª Guerra Mundial. Desse total, 41 milhões são de deslocados internos, pessoas que foram expulsas de suas casas, mas que, por algum motivo, não conseguiram cruzar as fronteiras de seus países. É preciso olhar com cuidado para esses números, pois existe uma distância muito grande entre as solicitações e a concessão de estatuto de refugiado. Na União Europeia foram 1,25 milhões de solicitações e 334 mil concessões em 2015. No Brasil, o número de solicitações de refúgio subiu 2.868% nos últimos cinco anos, de 966 em 2010 para 28.670 em 2015. Desse total, foram concedidos 8.863 vistos, o que representa aumento de 127% no acumulado de refugiados reconhecidos. Os sírios são a maior comunidade (2.298), seguidos dos angolanos (1.420), colombianos (1.100), congoleses (968) e palestinos (376).

Os refugiados são pessoas que escaparam de conflitos armados ou perseguições. Sua situação é tão perigosa e intolerável que devem cruzar fronteiras internacionais para buscar segurança nos países mais próximos para que seja reconhecido como ‘refugiado’, com o acesso à assistência dos Estados e organizações internacionais. Já os migrantes “escolhem” se deslocar não por causa de uma ameaça direta de perseguição ou morte, mas principalmente com o objetivo de encontrar melhores condições de vida ou escapar da morte pela fome. No entanto, aqueles que fogem da fome e da pobreza não deveriam ser classificados simplesmente como migrantes econômicos, mas sim refugiados da fome. Isto significa que eles estão fugindo de um estado de necessidade, não por escolha.

Outra questão que precisa ser sempre levada em consideração é que mesmo após adquirir o estatuto de refugiado há um longo desafio a ser superado. De um lado as frequentes reações de xenofobia e outras formas de preconceito, de outro suas demandas raramente são ouvidas neste contexto, exceto para reforçar sua vulnerabilidade como beneficiários de ajuda humanitária em um espaço indefinido entre os Estados-nação. Assim, é muito apropriada a atitude dos refugiados de reivindicar sua condição de cidadão. Segundo, Hasan Zarif, membro do Movimento Popular Palestina Para Todos (Mopat), uma dos movimentos organizadoros do 1º Festival do Dia Internacional do Refugiado (veja reportagem aqui) “queremos que os refugiados tenham voz própria, que não tenham porque ser representados por ninguém”. O que podemos ouvir pela voz de Pitchou Luambo, refugiado da República Democrática do Congo (RDC) e coordenador do Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem Teto: “Nossa ideia é ser protagonista na nossa história. Queremos nos representar, porque ninguém mais do que a gente sabe ou sente aquilo que nós passamos ou necessitamos”.

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A criação da Frente Independente de Refugiados e Imigrantes (FIRI), que busca fortalecer coletivos e movimentos de imigrantes e refugiados em São Paulo, vem em boa hora. Justamente no momento em que o governo golpista já dá sinais de retrocesso na politica de acolhimento adotada no governo da presidenta Dilma, ao suspender negociações que mantinha com a União Europeia para receber famílias desalojados pela guerra civil na Síria.

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Cada vez mais as tensões nesse mundo globalizado se afloram e se intensificam. De um lado, há uma progressiva demanda pela desnacionalização das economias nacionais por parte do neoliberalismo. Por outro, os mesmos que querem abolir os controles nas fronteiras para o fluxo de capital, informação e serviços, querem “renacionalizar” a política do Estado nacional quando se trata do fluxo de pessoas “indesejáveis”, reivindicando o seu direito soberano de controlar suas fronteiras.

Mas o recado no final desse festival, que foi um sucesso, veio na fala do grande Bnegão; “todo mundo esta na mesma, todo mundo unido, todo mundo um só, e é simples…fora os irmãos indígenas que são donos dessa parada…. todo o resto da galera meu irmão…. é um galera que veio para explorar e a maioria é refugiado… sou descendente de africano, descendente de escravo… muita gente que esta aqui de várias paradas… vamos pensar então que não é só separado…todo mundo junto ..todo mundo no mesmo barco…”

EUA: o ódio que o FBI não enxerga

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Estado vigia obsessivamente os muçulmanos. Mas faz vistas grossas a centenas de grupos que pregam ou praticam violência contra minorias. Por isso, Mateen, que matou 49, pôde agir com liberdade

Por Reginaldo Nasser

Dias após a tragédia em Orlando, continuam as investigações policiais na esperança de que possa surgir algum detalhe esclarecedor sobre os motivos que levaram Omar Mateen a cometer massacre na boate LGBT. Sabe-se que Mateen esteve sob vigilância do FBI, em 2013, por ter feito comentários “suspeitos”, após ser “ridicularizado” por sua origem muçulmana. De acordo com as autoridades do FBI, Mateen manifestou simpatia em relação a grupos terroristas, mas a suspeita foi descartada depois que o FBI concluiu que não representava uma ameaça, já que não havia nenhum laço concreto com grupos islâmicos.

Creio que essa ação do FBI é muito significativa. Colocou alguém na lista de suspeitos de ligação com o terrorismo, por ser um islâmico que se manifestou de “forma radical”, mas concluiu que não era ameaça por não ter relação com grupos terroristas islâmicos no exterior. Provavelmente o FBI nem registrou o caso de Mateen que, como milhares de pessoas, manifestam de alguma forma o ódio contra grupos LGBT, nem muito menos seu histórico de violência contra sua ex-mulher. Para o FBI, isso não se constituiu uma ameaça à sociedade!

Nos últimos anos, o governo dos EUA destinou milhões de dólares para programas de combate ao que considera “extremismo violento”, cujo objetivo é identificar e/ou impedir indivíduos que são propensos a cometer violência. Estes programas têm sido severamente criticados por especialistas, na medida em que enfatizam ideologias e crenças, e não incorporam outros indicadores como o comportamento em relação a parceiros íntimos e familiares (ver artigo do The Intercept Was Orlando shooters domestic violence history a missed warning sign?).

Pesquisa realizada pela organização Everytown for Gun Safety, em 2015, constatou que mais de 25% de todos os massacres ocorridos nos últimos seis anos, foram perpetrados por indivíduos com algum histórico de violência doméstica.

Essas questões obrigam-nos a olhar com mais atenção para o conceito de violência. Para o pensador norueguês Joan Galtung, a violência visível (física) é apenas a ponta do iceberg, pois esta intimamente relacionada a situações de violência estrutural e/ou justificadas pela violência cultural. A violência estrutural se refere àquelas situações em que se produz algum tipo de restrição na satisfação das necessidades humanas básicas (bem estar social e econômico, identidade ou liberdade) como resultado de processos de estratificação social. Ocorre sempre que há conflito entre dois ou mais grupos sociais (gênero, etnia, classe, nacionalidade) em que o acesso ou possibilidade de uso dos recursos resulta favoravelmente a alguma das partes em detrimentos dos demais. Já a violência cultural se expressa por meios simbólicos (religião, ideologia, linguagem, arte, ciência, mídia, educação, etc.), e tem como função legitimar a violência direta e/ou estrutural, e oferece justificativas para que os seres humanos, além de se destruírem mutuamente, ainda sejam recompensados por isso (racismo, sexismo, xenofobia etc).

Members of the Westboro Baptist Church hold anti-gay signs at Arlington National Cemetery in Virginia on Veterans Day, November 11, 2010. The Supreme Court ruled on Wednesday that a church has the legal right to stage anti-gay protests at military funerals to promote its claim that God is angry at America for its tolerance of homosexuality. REUTERS/Kevin Lamarque

Vejamos, por exemplo, como tem se manifestado a violência cultural nos EUA. A organização Southern Poverty Law Center (SPLC) monitora, desde 1981, o que considera como grupos de ódio nos EUA — isso é, aqueles que “… têm crenças ou práticas que atacam ou difamam um grupo de pessoas, devido às suas características. Suas atividades incluem marchas, comícios, discursos, reuniões, panfletagem ou publicação”. Ou seja, agem estritamente dentro da lei, pois exercem direitos protegidos pela primeira Emenda da Constituição dos EUA (“o Congresso não fará nenhuma lei a respeito do estabelecimento de uma religião, ou proibindo o livre exercício dela; ou cerceando a liberdade de expressão ou de imprensa; ou o direito do povo se reunir pacificamente e dirigir petições ao governo para a reparação de injustiças”).

De acordo com pesquisa realizada pelo SPLC, em 2015, são 982 os grupos de ódio ativos nos EUA, não incluindo aqueles que estão apenas no ciberespaço. Trata-se de grupos extremamente diversificados como Ku Klux Klan, White Nationalist, Racist Skinhead, Christian Identity, Neo-Confederate, Black Separatist end General Hate. Para além de suas particularidades, todos esses grupos manifestam, de alguma forma, ideologias de ódio, incluindo as subcategorias anti-LGBT, anti-imigrantes, islamofobicos, negação do Holocausto e outros. Trata-se, sem duvida nenhuma, de um ambiente social com níveis exacerbados de violência cultural.

É provável que ainda sejam adicionadas novas informações sobre as possíveis motivações do massacre, mas um fato é incontestável e não precisa esperar pelos resultados de uma investigação completa: trata-se do maior massacre na história dos EUA que teve como alvo a comunidade LGBT.

Apesar disso, políticos do Partido Republicano, em sua grande maioria, têm se recusado a mencionar a comunidade LGBT pelo nome. Trata-se de um ensurdecedor silencio de cumplicidade com o ódio que viceja nessa sociedade e que conta com a proteção de uma constituição que é alardeada no mundo inteiro como a mais democrática do mundo. Se é isso então devemos concluir que há algo de podre no reino da democracia.