“A ideologia serve para desviar a atenção para algumas coisas, enquanto acontecem outras”

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Detalhe de Lenine no trabalho “Man at the Crossroads” (1934) de Diego Rivera. Mural em exposição permanente no Palácio das Belas Artes da Cidade do México. Imagem: Jaontiveros / Wikimedia Commons. Alguns direitos reservados.

A hegemonia das corporações de média no Brasil é um fenômeno que não tem precedentes na história do país. Não existem notícias equilibradas, livres de manipulação

Reginaldo Nasser é entrevistado por Manuel Serrano, no openDemocracy

Esta entrevista foi realizada no dia 19 de Maio, em Lisboa, na conferência “Mais além das fronteiras: pessoas, lugares, ideias“, organizado pela Universidade Autônoma de Lisboa.

Manuel Serrano: durante a conferência, o professor falou do confronto entre as ideologias internacionalistas da Nova Ordem Mundial posterior à Primeira Guerra Mundial. Porque é isto relevante hoje em dia?

Reginaldo Nasser: no principio, a Primeira Guerra Mundial foi entendida como se fosse mais uma, uma guerra igual às anteriores. Mas após o início do conflito ficou clara uma nova realidade, que tem mais a ver com a sociedade que com a própria guerra: uma sociedade de massas, que se lança para as ruas, que se revolta, que faz greves. Podemos perguntar-nos o que tem isto a ver com a guerra. Mas tem tudo, porque a guerra é uma narrativa, é uma questão que diz respeito à sociedade – é uma produção da mesma. E o tema da guerra passou a ser uma variável importante dentro dos partidos. Isto nunca tinha acontecido. Os partidos começaram a perguntar-se: devemos ir à guerra ou não? E se sim, porquê? Estas questões que num primeiro momento parecem simples foram demolidoras, porque naquele então era impensável alguém dizer que não ia à guerra pelo seu país. Isto tudo devido a quê? Num primeiro momento, ao internacionalismo de esquerda. Se a guerra é entre imperialistas, nós não temos nada a ver com isso, diziam. Portanto, estavam a tentar sobrepor a ideia de identidade internacionalista à identidade nacional.

Esta questão torna-se crucial com a guerra. E no meio surgem duas questões: na Alemanha há uma divisão dentro do partido social-democrata alemão – naquele então de perfil marxista- entre os revisionistas, como Bernstein, que defendiam que se tinha que reler Marx e que não eram contrários à guerra, e aqueles como Rosa Luxemburgo,que afirmavam não ter sentido um trabalhador entrar na mesma. Na Rússia, deu-se a primeira revolução de Fevereiro, chegando o governo democrata de Kerensky ao poder. É só neste momento que os Estados Unidos – que não tinham interesse em entrar na guerra, mas que torciam para que a Rússia continuasse na mesma – entram, enquanto que os Bolcheviques que chegavam ao poder em Novembro de 2017, queriam abandoná-la – Lenine chegou a apelidá-la como uma guerra “predatória imperialista”.

Wilson e Lenine partilhavam algumas ideias, pese a que os seus pontos de vista, ideias e propostas sobre muitos temas fossem sumamente diferentes. Os 14 pontos de Wilson propunham sobretudo ideias para melhorar a situação exterior, enquanto que as Teses de Abril de Lenine propunham sobretudo ideias para melhorar as coisas na Rússia. Mas ambos estavam de acordo – pelo menos nominalmente – sobre o direito de autodeterminação dos povos que foi – pese à confusão que se produziu depois da guerra – defendido primeiro por Lenine, e não por Wilson.

Seja como for, as suas propostas foram certamente revolucionárias nos tempos em que se viviam e tiveram um papel importante no que aconteceu depois. A diplomacia de gabinete perdeu importância a favor duma diplomacia que tinha que ter em conta as massas e os protestos nas ruas, tendo muitas das suas ideias sido transportadas para o mundo extra-europeu, sobretudo para as colónias. Ali, ironicamente, e pese a defesa do direito à autodeterminação e a desintegração do modelo colonialista por parte de Wilson, imperou um modelo de mandatos: uma ocupação segundo ele, temporária, do território para dotar as pessoas de capacidade de governar, que apresenta diversos paralelismos com a noção actual de Estado Falhado e dos espaços não governados.

MS: John Lewis Gaddis diz, que depois da Guerra Fria Lenine e Wilson trocaram de lugar. Que hoje “Wilson é lembrado como um realista profético, enquanto as estátuas de Lenine estão nas lixeiras do antigo mundo comunista”.

RN: na década de 60, de facto, acontecia o contrário. Quem estava no auge era o Lenine. Temos que ter cuidado com esta leitura, porque é muito pós-guerra fria. A ideia do Wilson funciona quando vivemos num mundo em que não existe competição com grandes potências. Com uma grande potência como a União Soviética o jogo é outro. Com a União Soviética suspende-se Wilson. Quando ela cai, recupera-se o Wilson. Estamos a discutir teoria. Uma coisa diferente é como as pessoas aderem às teorias. O Fourier dizia que as pessoas não se tornam marxistas por ler Marx, mas sim por ter um sentimento de injustiça. Eu, por exemplo, deixei de ser marxista quando li Marx.

MS: acredita que hoje vivemos entre dois mundos, entre duas ideologias? Ou que se trata apenas duma luta entre os defensores duma sociedade aberta e os defensores duma sociedade fechada?

RN: veja, tem duas grandes variantes quando falamos de ideologia. Uma, é um conjunto de crenças, ideias, valores: todos nós temos isso. Há sempre diferenças: posso dizer que são de classe – marxismo – ou individuais – liberal. Mas existem. Contudo, a palavra ficou carregada e cada vez que se quer acabar com um debate, dá-se uma solução técnica e diz-que o tempo da ideologia acabou. Neste momento no Brasil há um debate intenso sobre a economia: dizem que a economia não tem discussão, não comporta valores, não comporta ideologia, que são aspectos técnicos. Mas, ironicamente, vivemos num momento em que a ideologia está no seu auge.

Na tradição marxista pegaram muito nisso, que a ideologia inverte, esconde o real. Então, este também é um factor importante. Você desvia a atenção para algumas coisas, enquanto outras estão a acontecer. O Marxismo trouxe essa coisa de não acreditar no discurso, nas narrativas oficiais, porque escondem mais do que revelam. Então por exemplo, eu posso dizer o seguinte: os papéis federalistas são lindos, mas os que os escreveram eram escravistas. Onde aparece isso? Discutem o o modelo o presidencialismo, o republicanismo. Mas não falam sobre o anterior. Qual o modelo económico? Desigual. Racista. Onde está a discussão disto? É uma ideologia que você escamoteia. Sociedade aberta ou fechada? Eu sei do debate, mas é uma construção. Aberta para quem? Para os negros? Para os latinos?

Manifestação contra o presidente do Brasil, Michel Temer, em São Paulo. 6 de Junho de 2017. NurPhoto / SIPA EUA / PA Images. Todos os direitos reservados.

MS: como avalia a crise no Brasil? Que espera do futuro? Pode o Brasil ultrapassar esta crise económica e política que parece permear todos os âmbitos da sociedade?

RN: o Brasil atravessou uma fase na qual se produziu uma ascensão social das classes menos favorecidas – uma ascensão socioeconómica – que foi inédita da época da Lula, dos seus dois governos e do inicio do governo da Dilma Rousseff. Isto é um facto. Teve emprego, teve proteção social e muito em termos históricos. Mas nós sentíamos que havia uma reação contra esta ascensão, sobretudo porque há uma competição. Contra toda mobilização social – como se aprende em sociologia – surge sempre uma reação.

O sucesso desse momento deve-se a diversos fatores, mas, também, a um momento favorável internacional que o Lula soube aproveitar habilmente. Mas o Lula também fez concessões. Os bancos nesse momento ganharam como nunca, muito mais que as classes baixas. As corporações brasileiras apareceram entre 2007 e 2008 no radar internacional. Cresceram muito – já o tinham vindo a fazer desde a ditadura – sobretudo a nível internacional: foram para Angola, para a Moçambique. Eram elas a Petrobrás, a Vale do Rio Doce…. Isto foi estrutural. Cresceram de braço dado com o poder. Quando o esquema começou a falir, foi o salve-se quem puder. Um professor meu dava um exemplo particularmente ilustrativo: se você encontrar um jabuti em cima duma árvore, que pergunta se deve fazer? Não deve discutir em que tipo de árvore está, ou que tipo de animal é, mas sim porque está na árvore. Como consegue um juiz de Curitiba – o Sérgio Morodestruir cinco das maiores empresas do mundo? Porque há uma guerra de corporações no Brasil. Corrupção sempre houve. A questão é porquê a trouxeram a debate agora…. Se essas cinco corporações pagam à Globo, e depois são atacadas pela mesma, então é porque alguém lhes está a pagar mais. Com o Temer estamos a assistir a mais do mesmo, a um problema estrutural. As corporações no Brasil financiam muitos partidos: o PT, os PSDB, o PMDB. As corporações, essas sim, não tem ideologia!

MS: o senhor recusou dar uma entrevista à Globo. Acredita que os meios de comunicação no Brasil não passam de meras máquinas de manipulação e propaganda?

RN: eu no Brasil não os classifico como meios de comunicação, mas sim como corporações de média. O Glenn Grenwald, do The Intercept mora no Rio. E a sua presença tem tido uma repercussão imensa. Começou a inteirar-se das noticias e provocou uma reacção em cadeia. No Twitter, criticava os jornalistas porque faziam as coisas mal…. Agora abriu uma secção no Brasil. No outro dia dizia aos americanos que não fazem ideia de como as coisas estão no Brasil. Que nos Estados Unidos se queixam do estado dos meios de comunicação. Mas que lá, pelo menos, a CNN, o Washington Post ou o New York Times ainda conseguem ser isentos, ou, pelo menos, equilibrados. No Brasil isto não acontece. Nunca se viu uma hegemonia como a das corporações de média no Brasil. Não há noticias equilibradas ou isentas. Há uma iniciativa no Brasil que se chama Manchetômetro: é uma página web de acompanhamento da cobertura dos grandes meios de comunicação, sobre temas políticos e económicos, que não tem qualquer tipo de ligação com partidos políticos ou grupos económicos. O advogado do Lula usou-o no processo dele. Sabe quantas manchetes/capas do Estadão foram favoráveis ao Lula, ou pelo menos equilibradas? 1%. É um negócio…

Então o que aconteceu comigo? Eu ia muito à Globo, mas num determinado momento dei-me conta que estavam a editar várias das minhas falas num programa internacional onde falavam três pessoas. E eram falas, para mim, significantes. Aí eu comecei a afastar-me. E quando começou tudo isto decidi resgatar um principio de desobediência, de boicote. Como eu sou muito da questão Palestina, sou favorável ao BDS (boicotes, desinvestimento e sanções): é um método pacifico, sou contra o uso da violência….Por isso boicoto-os. Porque eles estão 23 horas por dia num tom, concedem-lhe uma hora para falar e depois dizem-lhe que são liberais. Mas é isto, estes são os meios no Brasil, e cada vez estão piores

Nakba: Quando Israel promoveu sua “limpeza étnica”

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Sai, no Brasil, livro que relata realidade sempre ocultada: a expulsão de centenas de milhares de palestinos, em 1948, para criar Estado judeu no Oriente Médio

Por Reginaldo Nasser


RESENHA DE:
A Limpeza étnica da Palestina – Editora Sundermann
De
Ilan Pappe, com tradução de Luiz Gustavo Soares
Lançamentos com presença do autor:
> PUC-SP: 24/4, às 19h15, no Auditório 234
> USP: 25/4, às 12h, no Auditório da História
> Livraria Martins Fontes: 25/4, às 17h30 – Av. Paulista, 509 – S.Paulo
> Restaurante Al Jania: 25/4, às 21h – R. Rui Barbosa, 269
> Unicamp: 26/4, às 12h, na Adunicamp
> Unifesp: 26/4, às 17h – R. Botucatu, 720

Tente se inteirar a respeito da chamada questão Palestina fazendo uma busca nas redes e inserindo a palavra: Ocupação. As informações que você encontrará referem-se, quase que exclusivamente, ao que aconteceu há 50 anos, como consequência da vitória militar de Israel na Guerra dos Seis Dias (1967): a Ocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordania. Assim, sob a ótica do Direito Internacional há consenso de que se trata de uma Ocupação Beligerante: territorio ocupado em decorrência do uso da força. A dimensão deste acontecimento fez com que se criasse um falso entendimento que foi nesse momento que se iniciou o conflito entre Israel e palestinos.

Mas, se a partir de 1967, o problema palestino ganhou maior relevância e visibilidade no mundo, por outro lado, permitiu que cada vez mais a Nakba (Catástrofe em árabe) fosse progressivamente relegada ao esquecimento, apesar do testemunho de milhões de palestinos. Na narrativa sionista, o Estado de Israel foi criado, em 1948, em decorrência de uma Guerra de Independência contra os Estados árabes; e o êxodo de milhares de palestinos, uma consequência natural do conflito.

Há aqueles que cingem sua atenção apenas nos episodios agudos dos conflitos bélicos como nas chamadas guerras entre “árabes” e israelenses ou nas “ações armadas dos palestinos sempre qualificadas como terrorismo. Tal percepção esconde mais do que revela a realidade politica economica do colonialismo sionista. Seja porque foram apenas os governos do Egito e Siria que se envolveram mais efetivamente nas ações armadas, e não a comunidade arabe como um todo; seja porque é justamente nesses intervalos de “paz” é que pode consolidar progressivamente uma estrutura socio-economica de dominação.

Por exemplo, em 1950, o Knesset (parlamento de Israel) aprovou a lei do Proprietário Ausente, que concedeu ao Departamento de Assentamento do Fundo Nacional Judaico (FNJ) um estatuto independente de proprietária de terras em nome do estado judeu. Outras regulamentaçoes como Lei de Terras de Israel e a Lei de Autoridade de Terras de Israel aprimoram a medida proibindo o FNJ de vender ou arrendar terras para não judeus. O resultado da aplicação dessas leis durante decadas (até 1967) passou a vigorar para todas as terras estatais (cerca de 90% das terras de Israel). Após o processo de ocupação das terras, a minoria palestina (17% da população total) teve que se contentar com apenas 3% das terras. Eles tinham a permissão para construir e morar em apenas 2% e ter produção agricola em 1%. Ou seja, atualmente 1,5 milhao de palestinos continuam habitando esses mesmos 2%

É fato que o primeiro historiador a ter acesso às fontes militares israelenses, Benny Morris, teve o mérito de mostrar que a “fuga voluntária” dos palestinos era um mito; mas o problema é que tomou esses documentos como verdades absolutas. Isso fez com que, de acordo com Pappe, Morris ignorasse inúmeras atrocidades cometidas pelos judeus. Ilan Pappe também se utiliza dos próprios arquivos militares israelenses. Porém, eles são confrontados com a narrativa palestina marginalizada, o que torna possível demonstrar que houve uma verdadeira operação de limpeza étnica, como resultado de um plano (Dalet), previamente elaborado, com descrição detalhada dos métodos a serem empregados para expulsar o povo palestino de suas terras. A execução do plano teve inicio no dia 10 de Março de 1948. Antes, portanto, do inicio da ação militar dos governos árabes em 15 de maio, o que torna dificil de sustentar a tese de que houve uma guerra de libertação nacional por parte de Israel.

Após a leitura dessa obra, você compreenderá porque há um profundo temor por parte dos sionistas (de direita ou de esquerda) em relação a qualquer debate sobre 1948, pois se trata de criação de um Estado construido a partir de uma limpeza etnica.

As transnacionais contra os Direitos Humanos

Enterrados na lama, bombeiros procuram corpos após rompimento da barragem da Vale, em Mariana-MG

Enterrados na lama, bombeiros procuram corpos após rompimento da barragem da Vale, em Mariana-MG

Nova edição do relatório Direitos Humanos no Brasil será lançada hoje. Nele, um tema crucial: como corporações como a Vale montam “arquitetura de impunidade” para atacar sociedade e devastar a natureza sem correr riscos

Por Reginaldo Nasser e Terra Bundini


LANÇAMENTO:
Direitos Humanos no Brasil 2016
Publicação da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos

Terça-feira, 21/2, a partir das 19h, no Al Janiah
Rua Rui Barbosa, 269 – Bixiga – São Paulo (mapa) — Metrô S. Joaquim (1,2 km)
(detalhes aqui)

Em 5 de novembro de 2015, a cidade histórica de Mariana, em Minas Gerais, foi palco de um dos maiores desastres ambientais da história do Brasil, que resultou na morte de 19 moradores, desalojou centenas de famílias e enterrou o distrito de Bento Rodrigues e outras localidades vizinhas. Para além do impacto imediato, estima-se que o dano possa chegar a 1 milhão de pessoas, se considerada toda a extensão do Rio Doce, bem como ao ecossistema e à biodiversidade. A tragédia tem ainda impacto na economia local, no emprego e na renda de milhares de pessoas.

As barragens pertencem à Mineradora Samarco que é controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton. A BHP Billinton, por sua vez, é uma fusão da australiana Broken Hill Proprietary Company com a inglesa Billiton, que atua em diversos países no mundo e já foi responsabilizada pela contaminação do meio ambiente no Peru e em Papua Nova Guiné. A Vale é controlada pela Valepar (com 53,9% do capital votante e um terço do capital total), além de ter capital aberto em bolsas de valores, com participação de investidores brasileiros e estrangeiros. O governo federal e o BNDESpar também possuem pequena participação na empresa. A Valepar por sua vez é controlada por fundos de investimentos administrados pela Previ, pela Bradespar (Bradesco), pela multinacional japonesa Mitsui e pelo BNDESpar. Continuar lendo

Afeganistão invadido, a capital do ópio

Ópio Agricultores colhem ópio no campo da papoila, no distrito de Zhari, no Afeganistão. Foto: Allauddin Khan / AP

Como os Estados Unidos, a pretexto de lutar contra o Talibã, fortaleceram os “senhores da guerra” tribais e os estimularam a multiplicar por trinta a área de cultivo de papoula

Por Paulo Meirelle

A primeira etapa da guerra ao terror conduzida pelos Estados Unidos, na sequência dos atentados de 11 de setembro de 2001, foi a invasão do Afeganistão, cujo objetivo de longo-prazo era a sua transformação em um Estado democrático. Um dos imperativos dessa missão era colocar fim à capacidade de produção e exportação de drogas daquele país, atividade percebida como corrosiva da economia e das instituições democráticas.

Apesar dessa diretriz, os anos que se seguiram à invasão norte-americana foram aqueles que registraram os maiores índices de produção de ópio da história afegã. Essa contradição é resultado da estratégia adotada pelos Estados Unidos para alcançar outros dois imperativos na busca pela democracia: a derrubada do governo Talibã e a destruição da Al Qaeda. Continuar lendo

Terrorismo: as realidades incômodas — e ocultadas

Mulheres árabes lamentam explosões desta semana em Bagdá. Nunca houve tantos atentados após início das política global "antiterror" deflagrada por Washington. Mas mídia pouco "enxerga" ataques que não atingem capitais ocidentais

Mulheres árabes lamentam explosões desta semana em Bagdá. Nunca houve tantos atentados quanto na era da “guerra ao terror”. Mas ataques que não atingem capitais ocidentais não têm destaque na mídia

Após “Guerra ao Terror”, atentados cresceram 1.000%. Das vítimas, 80% são muçulmanos. No Ocidente, quem mais mata é a direita fundamentalista. Terroristas avançam onde também há violência de Estado

Por Reginaldo Nasser

É frequente haver grandes divergências entre a percepção que se tem da realidade e a realidade mesma, e essa discrepância afeta significativamente todos os aspectos das relações sociais. Desse modo, por vezes, os homens são induzidos a reagir não às coisas reais, mas às ficções que se criou em torno dessas coisas. Se essa asserção é válida para várias questões atinentes às relações internacionais, mostra-se particularmente evidente no caso do Terrorismo. Nas últimas semanas, três ataques de grandes proporções chamaram a atenção da mídia internacional. Mas, para além da comoção que nos causam, é preciso ver o terrorismo como fato social, assim, como no final século XIX o celebre pensador Émile Durkheim, um dos fundadores das ciências sociais, definiu o crime.

Por isso, é preciso estar atento às regularidades do fenômeno do terrorismo, bem como sua incidência, levando em consideração suas variações no tempo e no espaço.
De acordo com Global Terrorism Index, o número total de mortes por terrorismo em 2014 aumentou em 80% quando comparado com o ano anterior. Este é o maior aumento anual nos últimos 15 anos. Desde o início do século 21, o número de mortes por terrorismo passou de 3.329 em 2000 para 32.685 em 2014. Excluindo-se os atentados no dia 11 de setembro, apenas 0,5% de mortes por terrorismo ocorreram no Ocidente desde 2000. Se incluirmos o 11 de setembro, o percentual chega a 2,6. Ou seja, depois que os EUA e aliados declararam “Guerra ao Terror”, o número de pessoas mortas por terrorismo aumentou vertiginosamente. Além do que, os atentados, que apareceram como algo catastrófico, representam um pequeno percentual se olhado de forma mais ampla, tais quais:

  1. 80% das vitimas de ataques terroristas no mundo estão em 5 países (Iraque, Nigéria, Afeganistão, Paquistão, Síria e Somália) ou seja a grande maioria das vitimas são muçulmanos.
  2.  80% das mortes por terroristas no Ocidente são resultado de ações de grupos de direita. Ou seja, o “fundamentalismo islâmico” (não entendo porque não é classificado como de direita), não é a principal causa de terrorismo no Ocidente.
  3. Pelo menos 437 mil pessoas são vítimas de homicídio a cada ano (no Brasil 56 mil), ou seja 13 vezes mais do que o número de vítimas do terrorismo.
  4. 92% de todos os ataques terroristas, entre 1989 e 2014, ocorreram em países onde a violência política por parte do governo foi generalizada.
Gráfico do Global Terrorism Index evidencia o que não se lê nos jornais: atentados dispararam após guerras dos EUA contra Afeganistão e Iraque

Gráfico do Global Terrorism Index evidencia o que não se lê nos jornais: atentados e mortes dispararam após guerras dos EUA contra Afeganistão e Iraque

É preciso antes de tudo ter claro que, por mais detestável que seja, o terrorismo tem um proposito politico e para isso sua ação também é pautada por táticas e estratégias.
Por que, “depois de quase dois anos do surgimento do Estado Islâmico (ISIS), a Turquia se tornou alvo tão intenso de ataques deste grupo?” é a pergunta a que se propõe a responder o e artigo de Willian Moraes Roberto. É preciso lembrar, alerta Willian Moraes Roberto, que Turquia, Arábia Saudita, Catar e potências ocidentais articularam uma rede de apoio financeiro e de distribuição de armamentos às oposições sírias, além de facilitar a entrada de combatentes estrangeiros no país. Além disso, o ISIS estava combatendo os curdos, considerados como ameaça à Turquia. Mas devido às questões internas e internacionais, sobretudo a pressão norte-americana, em julho de 2015, o governo turco se reposicionou no conflito na Síria, passando a combater o ISIS. Ou seja, os ataques terroristas contra a população turca não são aleatórios. Infelizmente, a morte dos inocentes, na logica do terrorismo, funciona como uma mensagem aos antigos aliados.

Outro tema relacionado ao terrorismo, que é pouco discutido, refere-se ao seu financiamento. Fala-se bastante sobre as supostas motivações religiosas e quase não se abordam as suas bases materiais. Leonardo Machado aborda esse aspecto em seu artigo.

Estima-se que o ISIS lucre até US$ 1,5 milhão por dia por meio da exploração de campos de petróleo da Síria e Iraque. De outro lado, embora seja difícil de se saber com precisão o destino da venda, há fortes indícios de que Turquia, Israel e mesmo o governo de Bashar Assad sejam os principais compradores.

Por fim, cabe lembrar que há um recrudescimento dos ataques terroristas no mundo devido às derrotas que o grupo vem sofrendo em seus redutos, como Falujah, por exemplo. Como eu já havia escrito, ano passado, na apresentação do mais aclamado livro sobre o Estado Islâmico, escrito pelo veterano irlandês Patrick Cockburn. Ainda que seja improvável cumprir a promessa de garantir a viabilidade de seu Califado no Iraque e na Síria contra o poderio militar das grandes potencias(EUA e Russia) e das potencias regionais ( Irã e Turquia), a ideologia propagada pelo ISIS, provavelmente, continuará a inspirar seguidores e será capaz de lançar ataques esporádicos nas cidades, através do uso de carros-bomba e ataques suicidas. A capacidade de ISIS para apelar a um imaginário islâmico através de fronteiras e sua restauração do Califado representa a cristalização de uma ideologia jihadista que se desenvolveu ao longo dos últimos trinta anos e que, infelizmente não se dissipará tão cedo.