A normalização de um crime: quando Duvivier, Bolsonaro, Wyllis e Crivella estão no mesmo campo

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Enquanto Israel coloniza a Palestina, cresce o apoio ao país entre personalidades e políticos brasileiros à esquerda e à direita

Por Arturo Hartmann e Bruno Huberman

Na semana passada, o parlamento israelense votou pela legalização do confisco de propriedades privadas palestinas por parte do Estado de Israel. Essa medida acarretou a regularização de 53 assentamentos judeus que haviam sido construídos em terras particulares na Cisjordânia sem autorização prévia do governo, o que era considerado irregular pela legislação israelense até a madrugada da quarta-feira, 8.

A medida poderia ser vista como mais um passo para o isolamento de Israel na comunidade internacional. Praticamente toda a comunidade internacional condena a colonização israelense dos Territórios Palestinos Ocupados (TPO) desde 1967 — ilegal pela lei internacional, com base na Resolução 242 do Conselho de Segurança e na IV Convenção de Genebra. Israel, entretanto, tem historicamente empreendido um bem-sucedido processo de propaganda institucional e limpeza da sua imagem entre importantes setores de diferentes países e instituições internacionais, forjando um apoio às suas políticas apesar das críticas que pipocam de todos os lados. O humorista brasileiro Gregório Duvivier é um importante exemplo do sucesso deste lobby internacional.

No início de janeiro, o ator viajou a Israel à convite da Universidade Hebraica de Jerusalém, uma instituição que tem em seus pilares violações contra os palestinos. A universidade fica a pouco metros do bairro de Silwan, principal local de judaização em andamento na cidade, onde assentamentos judeus são erguidos ao redor de casas palestinas: já são 2.800 colonos ilegais vivendo entre cerca de 100 mil palestinos, segundo a ONG israelense Btselem. O crescimento desses colonos, entre 2009 e 2016, foi de 70%. Nesse período, 68 famílias palestinas foram expulsas de Silwan, Sheik Jarrah e do quarteirão muçulmano da Cidade Velha. Algo que pode passar batido diante do olhar de um turista de primeira viagem.

O convite a Duvivier foi para o seminário “Brasil, Israel e Palestina: política, religião e a busca pela paz”, organizado pelo professor James Green, brasilianista da Brown University, e Michel Gherman, docente da Hebraica e coordenador do Centro de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A viagem do humorista se insere em uma agenda específica, quea acadêmica Berenice Bento chamou em um recente artigo de “redwashing”: um tipo de discurso de “esquerda” que serve para limpar a imagem de Israel, posicionando o país como a única democracia liberal do Oriente Médio, respeitadora dos direitos humanos, como a igualdade para mulheres e homossexuais. Tal como Bento descreve, aqueles que praticam o “redwashing” terminam não apenas sendo cúmplices da expulsão e segregação dos palestinos, como são parte estruturante do projeto sionista, que busca estabelecer uma ampla maioria judaica sobre a terra.

Duvivier não é o primeiro garoto propaganda do campo progressista israelense no Brasil. Um ano antes, em janeiro de 2016, o deputado federal Jean Wyllis (Psol), defensor dos direitos da comunidade LGBT, da descriminalização da maconha e de outras pautas ligadas ao campo progressista, provocou barulho nas redes sociais e entre a esquerda brasileira — inclusive dentro do seu partido — por fazer o mesmo trajeto.Estes são apenas dois exemplos de um antigo e bem sucedido esforço de propaganda e lobby israelense, conhecida como hasbará (“explicação”, em hebraico).

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UM HUMORISTA NA PALESTINA

Duvivier é famoso por vídeos de humor no canal do Youtube “Porta dos Fundos” que colocam o dedo na ferida, além de colunas no jornal Folha de S. Paulo em que defende pautas progressistas e ataca políticos — muitas vezes sendo acusado de extremismo por seus detratores. O humorista, entretanto, adotou uma abordagem mais low profile durante visita ao Oriente Médio, relativizando crimes e consensos internacionais em torno da questão palestina.

Segundo Guilherme Cohen, candidato a vereador do Rio de Janeiro pelo Psol em 2016 e cicerone de Wyllis e Duvivier na Terra Santa, o humorista teria rapidamente compreendido a complexidade da questão Palestina/Israel e fugido de binarismo em seu discurso na Universidade Hebraica. “O grande problema pra mim é quando você não vê pessoas e passa a ver somente bandeiras ou religiões. Quando você começa a enxergar pessoas, você entende que não é apenas um país, são 7 milhões de países, pois cada cidadão têm sua própria narrativa”, disse Duvivier na palestra.

As postagens de Duvivier em sua conta no Instagram são ainda mais reveladoras da sua adesão à agenda da nova esquerda sionista.

Um post de 13 de janeiro mostra que o humorista esteve em Bethlehem, cidade palestina nos TPO, diante do Muro (que separa e anexa terras palestinas, construído a partir de 2002), um monumento às práticas políticas mais recentes de colonização. Diante da estrutura de concreto armado de oito metros de altura, ele escreve na legenda da foto: “Israel-Palestine border” (fronteira Israel-Palestina). Alguém da comitiva deve ter esquecido de avisar a Duvivier que atrás daquele Muro não havia Israel, mas os vilarejos palestinos de Al Walaja e Husan, que repousam “presos” entre a Israel reconhecida pela comunidade internacional e o Muro. Em outro post, em que se lia pichado no Muro “Make hummus not walls” (faça húmus, não muros), ele escreveu “Coexist” (coexista). Talvez fosse uma piada.

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Ainda em Bethlehem, Duvivier foi apresentado ao palestino Jamil. Cohen traz um relato do encontro: “Ele nos contou sua história de vida, que é marcada por muita violência, tragédias e luta pela paz. Jamil nos disse que participou da primeira intifada, sendo um dos que mais jogava pedras nos soldados israelenses. Viu seu irmão de apenas 14 anos ser morto por um soldado. Viu muitos amigos morrerem nesse conflito tão terrível. Ele tinha tudo para ter raiva, ódio e todo o sentimento de vingança em relação aos Israelenses. Mas não! Um acontecimento mudou toda a sua visão de mundo. Viu pela televisão uma notícia sobre um atentado terrorista de um grupo palestino em Jerusalém, que matou muitas crianças israelenses. Quando sua mãe começou a chorar, ele perguntou:

– Por que você chora, mãe? Isso foi do lado de lá… Os mortos não são palestinos, mas judeus – ele questionou.

– Choro porque outras mães perderam seus filhos pela violência, como eu. A dor é a mesma – respondeu ela.

E arrematou: “Jamil transformou tudo isso na luta pela paz! Hoje participa de diversos movimentos com Israelenses e Palestinos que lutam contra a ocupação e pela criação de 2 estados para 2 povos. Nosso encontro terminou com Jamil dizendo: ‘Não há outro caminho senão a paz’”.

Duvivier concordou. “Esse cara é meu herói. Conheci Belém com o militante palestino Jamil Qassas, que tem buscado alternativas para a paz. Procurem saber.” Em outro post, poucos dias depois, o humorista complementa: “O pior conflito, o mais difícil de resolver, não parece ser entre judeus e palestinos, mas entre seculares e fundamentalistas. A paz não interessa a quem vive de disseminar o medo. Qualquer semelhança com o Brasil não será mera coincidência.”

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Como recomendado, fomos procurar saber mais. A atitude de Jamil pode ser vista como nobre, como uma saída para existir alienado de tanto sofrimento, da dor que transforma alguém em um monstro. O tema da resistência na sociedade palestina, no entanto, é um debate delicado e gira em torno da legitimidade do uso da violência. Qual a forma que pode fazer mudar as relações de poder para que o conjunto de Palestina/Israel possa ser menos autoritário e desigual diante do projeto do Estado judeu? Como os crimes de Israel – que trazem debates como o direito de retorno e a restituição de terra – podem ser expiados? Isso depende de como a pessoa de fora olha para os muros, os postos de controle e uma pesada presença militar, seja o cenário os morros do Rio de Janeiro ou as montanhas da Palestina.

A comitiva de Duvivier poderia ter recorrido à lei internacional para prover uma melhor explicação para a resistência palestina. Diz a resolução da ONU, de 29 de novembro de 1978, com o título “Importância da realização universal dos direitos dos povos à autodeterminação e da garantia urgente de independência para países coloniais e povos de garantia efetiva e observância de direitos humanos”. No seu item 2, “reafirma a legitimidade da luta dos povos por independência, integridade territorial, unidade nacional e liberação de dominação colonial e estrangeira e de ocupação estrangeira por todos os meios disponíveis, particularmente a luta armada”.

Há uma diferença entre luta armada e terrorismo, entre resistência e crimes de guerra contra civis, mas ao aceitar as molduras (físicas e ideológicas) traçadas pelo establishment de esquerda israelense, Duvivier termina por condenar a resistência palestina, colocando-a na mesma balança que os crimes coloniais israelenses. E mais: coaduna com a coexistência sem responsabilização que silencia os últimos cem anos de gradual desaparecimento da Palestina.

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QUANDO ESQUERDA E DIREITA SE ENCONTRAM

As viagens de Duvivier e Wyllis são parte de um esforço coordenado de propaganda de militantes sionistas ligados ao campo da esquerda no Brasil e em Israel, como o professor Michel Gherman e o militante do Psol Guilherme Cohen, e que conta com o apoio do establishment sionista no Brasil, como a Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj), movimentos sionistas juvenis, partidos políticos e instituições univesitárias. Já embarcaram neste avião o secretário-executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e ex-presidente da Comissão da Anistia do Brasil, Paulo Abrão (que defendeu Wyllis publicamente durante o entrevero público de sua viagem) e o professor de Relações Internacionais da UFRJ e comentarista da Globo News, Fernando Brancoli.

O discurso da esquerda sionista mistura em uma mesma narrativa a defesa de medidas como o Muro da Cisjordânia, a colonização dos TPO e o interminável processo de paz com elogios às liberdades políticas e econômicas que gozam os judeus israelenses e críticas ao governo Netanyahu, numa espécie de mea culpa. Vale dizer que, embora divergentes entre si em questões econômicas e sociais, a esquerda e a direita sionista não são muitos diferentes aos olhos de um palestino. Desde o início da colonização sionista da Palestina, no final do século XIX, ambos os campos direcionaram as suas políticas para a realização da visão hegemônica sionista sobre o território palestino: a constituição de um estado-nação majoritariamente judaico do qual os nativos palestinos não fariam parte.

A força do lobby israelense é motivo de controversa global, sendo alvo de estudos acadêmicos (o livro The Israel Lobby, dos americanos John Mearsheimer e Stephen Walt, aborda a influência israelense nos EUA — link para o prefácio em inglês) e de reportagens investigativas (uma recente série da Al Jazeera mostra a agressiva atuação de diplomatas israelenses no Reino Unido). Este instrumento de propaganda, entretanto, não é um expediente exclusivo dos liberais, sendo extensamente utilizado pelos conservadores israelenses.

No Brasil, os esforços de propaganda da direita sionista tem encontrado apoio principalmente entre os setores evangélicos, como o pastor Marcelo Crivella (PRB-RJ), prefeito do Rio de Janeiro, e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ). As igrejas pentecostais ao redor do mundo tradicionalmente veem os judeus como os legítimos habitantes da bíblica Terra de Israel e são importantes apoiadores das políticas do moderno Estado de Israel.

Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, é talvez o maior defensor dos interesses de Israel entre os políticos brasileiros. É de sua autoria o projeto de lei que levou à criação do Acordo de Livre Comércio Mercosul-Israel, em 2009, e também o que criou o “Dia da Amizade Brasil-Israel”. O bispo ainda empresta a sua voz para a música “Sou Israel”, que tem mais de 300 mil visualizações no canal do Templo de Salomão no Youtube.

O mandatário carioca já esteve em Israel algumas dúzias de vezes, chegando a morar em um kibutz em uma delas. “Brasil e Israel tem tudo a ver”, afirmou durante visita à Fierj na campanha para a prefeitura do ano passado. Ele defende uma maior aproximação comercial e política entre os países, principalmente na importação de técnicas e tecnologias israelenses em agricultura e segurança. Logo após ser eleito prefeito do Rio de Janeiro,Crivella viajou à Israel. De lá, voltou com a opinião de que o Rio “deveria ser murado como Jerusalém” para resolver seus episódios de violência.

Outro candidato à prefeitura do Rio de Janeiro que esteve em Israel recentemente foi Flavio Bolsonaro, que em maio deste ano foi acompanhar o batismo do pai nas águas do rio Jordão, o deputado federal Jair Bolsonaro, no rio Jordão, pelo pastor Everaldo, presidente do PSC. A família Bolsonaro recentemente aderiu em peso ao partido evangélico. Durante a viagem a Israel — que ocorreu nos dias da votação do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff na Câmara dos Deputadosos Bolsonaro reuniram-se com políticos e representantes comerciais israelenses das áreas da segurança e da agricultura e prometeu fortalecer os laços entre os dois países.

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Assim, dentro de um campo que, pouco a pouco, ignora os pontos que poderiam levar a uma resolução da questão palestina, consolida-se um discurso que se afasta de qualquer processo de paz, fazendo marchar a colonização que gradualmente quer apagar, ou limpar, como diria o historiador Illan Pappé, a Palestina.

Trump e as raízes do populismo conservador

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Três expressões do populismo de direita: Donald Trump, Marine Le Pen (França) e Viktor Orbán (Hungria)

Atacar as elites, sem ameaçar as lógicas centrais do sistema, é algo presente na política norte-americana há mais de um século. Como esta tradição foi gestada. Por que a globalização multiplica sua força. Quais são seus limites

Por Reginaldo NasserWillian Moraes Roberto

O resultado das eleições presidenciais nos EUA trouxe espanto para o establishment do país, confiante na vitória de Hillary Clinton. A apreensão diante da vitória de Donald Trump também percorreu a rede global de aliados do país, da Europa ao Japão. Especulou-se sobre a possibilidade de que o sistema de segurança estadunidense poderá ser repactuado devido ao questionamento feito por Trump em relação ao papel da OTAN e de outras alianças militares.

Mas, o que de fato podem representar os votos dados a Donald Trump? Aparecendo, retoricamente, como o candidato anti-establishment, uma contraposição à elite política tradicional de Washington, o bilionário e apresentador de reality shows capitalizou sobre o amplo descrédito na política e na representatividade dos partidos, sobre percepções de perdas socioeconômicas advindas do processo de globalização, e sobre a impopularidade de Hillary Clinton. De acordo com a autora Naomi Klein, a candidata democrata representa a personificação da “classe de Davos”, em menção à cidade suíça onde ocorre o Fórum Econômico Mundial – uma rede hiper-conectada de banqueiros, bilionários dos setores tecnológicos e industriais, e líderes eleitos que estão amplamente integrados com tais interesses. Enquanto essa elite transnacional e globalizada enriqueceu-se enormemente, nos últimos vinte anos, com a expansão do neoliberalismo, a população estadunidense viu seu padrão de vida despencar em meio a uma estagnação real da renda familiar e dos salários.

O regime neoliberal e o advento da globalização, junto dos acordos de livre-comércio assinados pelos EUA, beneficiaram diversas empresas multinacionais que passaram a mover seus processos de produção para outros países em busca de menores salários e maiores incentivos tarifários. Wall Street e seus bancos aliaram-se ao processo, usufruindo de lucros extraordinários e de intensa desregulamentação financeira, enquanto, por outro lado, a manufatura doméstica entrava em declínio, impactando no nível de empregos e salários.

Apesar de construir uma polêmica candidatura conflagrada por escândalos de caráter misógino, racista e homofóbico, e mesmo sendo ele mesmo um bilionário, Trump conseguiu dialogar com essa parcela da população. Seu discurso serviu a uma classe trabalhadora branca, principalmente masculina, afetada pelos efeitos da globalização e que percebe o crescente aumento da desigualdade no país. Estados que compõem o chamado “Cinturão da Ferrugem” (Rust Belt) abraçaram o discurso de Trump contrário ao NAFTA, ao TPP e aos efeitos da globalização. Iowa, Ohio, Wisconsin e Pennsylvania há anos davam vitória aos democratas. Mas sua economia baseia-se na indústria pesada e na manufatura. Por isso, são declinantes e empobrcidos. 

Ao mesmo tempo, a campanha de Trump mobilizou setores conservadores da população branca, sobretudo aquela rural ou de pequenas cidades, que acreditam numa suposta ameaça do multiculturalismo, principalmente de muçulmanos, e veem a imigração como uma fonte de roubo de seus empregos, principalmente latinos e mexicanos. Donald Trump soube, assim, explorar o medo, a insegurança e o sentimento de exploração e descrença política em um momento de incertezas globais.

Entretanto, apesar da mídia tradicional desenhar Donald Trump como um fenômeno meteórico e desconectado da história dos EUA, sua fala de campanha, embora na maioria das vezes expressar agressividade e propostas desconexas, é possível identificar elementos que dialogam com uma vertente populista existente desde o século XIX no país. John Judis, autor do novo livro “The Populist Explosion” (2016), clarifica questões acerca do termo populismo e sua aplicação na história dos EUA. Para o autor, é difícil conceitualizar tal termo devido ao fato de que não há um conjunto universal de características comum a todos os grupos e partidos colocados sob esse signo. Nos contextos específicos dos EUA e da Europa, entretanto, sob matizes à esquerda e à direita, o populismo seria uma espécie de lógica política, uma forma de pensar a ação dentro das regras do jogo em que se diferencia, de maneira geral, “o povo”, “nós”, de um “outro”, “eles”.

As variações à esquerda definiriam “o povo” contra a elite ou o establishment, em um tipo de política vertical das classes baixas e médias contra o topo. Já as variações à direita definiriam “o povo” contra uma elite que acusam de beneficiar a si mesma e um terceiro grupo, em geral minorias – no caso dos EUA, imigrantes, islâmicos e afro-americanos. Assim, o populismo à direita mobilizaria uma fatia populacional — o “povo”, nessa concepção — que se levantaria contra uma elite, ligada às grandes corporações e ao capital que os fazem enriquecer, mas também contra um grupo com mais dificuldades socioeconômicas, de classes mais baixas ou de culturas diferentes, que seriam sustentados, nessa visão, pelos impostos e pelo trabalho dessa classe média branca.

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Essa tradição populista conservadora iniciou-se nos EUA ainda no final do século XIX, com a fundação do Partido do Povo, em 1891, que postulava maior regulação por parte do Estado nas companhias ferroviárias, controle de preços, bem como limites na imigração e taxação de renda. De acordo com Judis, o Partido do Povo teria sido, nos EUA, o primeiro grande movimento contra a visão de mundo laissez-faire do capitalismo. Seu candidato à presidência, James B. Weaver, de Iowa, pleiteava a plataforma de “restaurar o governo da República de volta para as mãos do povo”. Segundo o autor, na medida em que suas ideias se expandiram, tendo influenciado o próprio New Deal de Franklin Roosevelt, o partido se extinguiu. No século XX, a vertente populista conservadora reemergiu nos partidos tradicionais, sobretudo na figura de George Wallace pelos Democratas ao longo dos anos 1960 e 1970. Tendo chegado a defender a segregação racial, afirmava que “nós estamos cansados do cidadão comum ser taxado até a morte enquanto multibilionários como os Rockefellers, os Mellons e os Carnegies não pagam impostos”.

Nos anos 1970, o sociólogo Donald Warren realizou um importante trabalho que identificou a existência de uma parte da sociedade norte-americana que denominou “Americanos Médios Radicais” (Middle American Radicals, MRA). Essa fração social, que representaria, à época, mais de 25% do eleitorado, se sentia alienada tanto dos Democratas quanto dos Republicanos, desprezando questões como direitos sociais e de minorias e controle de armas, mas reverenciando o antigo partido Democrata, sob Franklin Roosevelt, com sua ênfase na economia, empregos e segurança social. Eles também se sentiam espoliados tanto pela “elite plutocrática”, quanto pelas classes sociais mais baixas, que viam como sustentadas pela classe média e pelo Estado de bem-estar social.

Percebe-se, assim, que o discurso de Donald Trump não tem nada de inusitado e pode ser compreendido como algo que faz parte de uma tradição política nos EUA, com um diálogo claro com experiências passadas. O atual momento tem como diferença, de um lado, o fato de um candidato dessa plataforma ter conseguido chegar à Presidência da República e, de outro, o sucesso deste ter conseguido expandir sua base de apoio – o que está intimamente ligado aos efeitos do neoliberalismo, do crescimento da desigualdade, dos efeitos da globalização e da interligação do establishment político tradicional com a “classe transnacional de Davos”.

Entretanto, ainda que se possa identificar sua filiação política, agora que chegou à presidência, Trump ainda permanece como uma incógnita em termos do que realmente implementará como política. Não só suas propostas são confusas em diversas áreas, como também se faz necessário questionar até que ponto o novo líder eleito pode, segundo suas vontades, redefinir os rumos da maior potência mundial.

Vejamos o caso de Barack Obama. Ao ser eleito em 2008, prometeu uma mudança substancial na política externa estadunidense, mas se essa foi sua vontade, não foi capaz de controlar a estrutura do establishment político-industrial-militar do país. Os EUA venderam, entre 2009 e 2014, 190 bilhões de dólares em armas, mais do que sob qualquer governo desde a Segunda Guerra Mundial. Em relação a Israel, hoje os EUA oferecem o maior compromisso de assistência militar em termos absolutos de toda sua história: mais de 40 bilhões de dólares em um período de 10 anos, iniciando em 2018. Internamente, a militarização da polícia dos EUA também vem se aprofundado, a despeito das promessas em sentido contrário de Obama. Os anos de 2014 e 2015, por exemplo, testemunharam picos nas transferências de equipamentos militares para a polícia do país, em meio a uma escalada de tensões envolvendo questões raciais, como em Ferguson, em 2014. Aprofundou-se, assim, uma crescente militarização das cidades, que securitiza cada vez mais protestos e manifestações civis.

De qualquer forma, a postura de Trump, apesar de vaga, marca o discurso de que haverá mudanças – de que agora é “América primeiro”. Suas propostas aventadas para a área de política externa são igualmente polêmicas. Prometeu a construção de um muro na fronteira com o México para conter a imigração ilegal e a ser pago por esse país; sugeriu banir temporariamente a imigração de pessoas da religião islâmica que viessem de países subjetivamente considerados “problemáticos”; defendeu o uso de certas técnicas de tortura para interrogatório de suspeitos de terrorismo; prometeu rasgar o NAFTA, o TPP e o Acordo Climático de Paris e também retirar as tropas do país estacionadas em território de aliados, como em Estados da Europa e da Ásia, tendo inclusive sugerido que Japão e Coreia do Sul poderiam desenvolver armas nucleares para sua própria defesa.

Sobretudo, o mote de Trump parece ser uma rejeição ao intervencionismo liberal que marcou as presidências de Bill Clinton e Barack Obama, ou mesmo o intervencionismo de ocupação de George W. Bush no Oriente Médio. Taxado por ter uma visão “isolacionista”, é possível que a política externa de Trump tente não manter o tipo de engajamento internacional atual, mas sim remodelar a forma do internacionalismo do país – sem necessariamente se isolar. Cabe relembrar o período (1919-1933) na história dos EUA durante o entre-guerras, em que sua política externa foi chamada de “isolacionista” por ter se recusado a participar da Liga das Nações, mas que, na verdade, foi um momento em que o país expandiu suas ligações internacionais e esteve presente em diversas negociações na Ásia-Pacífico e em outras regiões do globo – apenas fora do circuito multilateral, dominado principalmente pela diplomacia europeia.

A questão, entretanto, é em que medida suas promessas poderão se tornar realidade diante das pressões dos grupos sociais organizados bem como dos poderosos lobbies do país. É preciso compreender que é um momento de divisão e disputa renhida entre elites políticas e econômicas nos EUA. Sua equipe de transição é composta por políticos conhecidos por suas funções lobistas em Washington – apesar de Trump ter denunciado tais práticas durante sua campanha. O bilionário conta com nomes como Michael Catanzaro, lobista para as empresas Koch, e Eric Ueland, anteriormente lobista republicano pela Goldman Sachs.

Por trás de sua retórica “antielitista” a eleição de Trump e a orientação de seu futuro governo podem estar revelando um ponto de inflexão na politica norte-americana. Se, desde os anos 1930, sociólogos e analistas têm chamado a atenção para o poder dos círculos corporativos na realização de seus próprios interesses sobre a maioria da sociedade, atualmente há uma complexa rede de conexões que impede com que haja uma proposta unificada dessa elite. As eventuais medidas protecionistas podem prejudicar alguns, mas deverão promover outros, resultando em composições politicas e econômicas bastante heterodoxas.

Assim, muito provavelmente, teremos mais um presidente dos EUA a cumprir a máxima do príncipe de Lampedusa: tudo deve mudar para que tudo fique como está.

Reginaldo Nasser é professor de Relações Internacionais da PUC(SP) e do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP). Coordenador do GECI – Grupo de pesquisa em Conflitos Internacionais

Willian Moraes Roberto é mestrando do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP) e pesquisador do GECI

Bem-vindo à era “guerra ao terror”

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Uma vasta operação governamental tenta tirar proveito dos Jogos Olímpicos para vender a ideia de que vivemos ameaçados – e a única saída é “mais segurança”

Por Reginaldo Nasser

No final do mês de julho teve inicio, no Rio Grande do Norte, uma serie de ataques que durou mais de uma semana. Mais de cinquenta veículos foram incendiados em cerca de 37 cidades (inclusive o acesso ao aeroporto de Natal foi bloqueado), prédios públicos depredados e alvejados por armas de fogo e artefatos explosivos. Mais de 100 pessoas foram detidas acusadas de participarem dos atos. O governador solicitou – e foi prontamente atendimento pelo presidente golpista – o envio de 1200 militares das forças armadas para ajudar as forças de segurança do Estado. De acordo com a nota do Exercito, que comandou as operações, “todos esses órgãos e instituições vão trabalhar de maneira integrada e em cooperação, utilizando as boas práticas empregadas nas operações interagências nos grandes eventos e em outras situações” (grifos meus). Como você qualificaria esses atos? Vandalismo, crimes contra o patrimônio publico ou terrorismo?

Enquanto isso, em outro lugar do Brasil, todos estavam muito atentos nos preparativos para o inicio do megaevento das Olimpíadas, pois pairava uma grande ameaça no ar que já havia sendo alerta da Agencia Brasileira de Inteligência. A cada atentado ocorrido na Europa (no Oriente Médio, Africa e Asia não vale), a pergunta que se fazia já induzia a uma resposta: Pode acontecer no Brasil? Depois de anunciar que havia pistas de “simpatizantes do radicalismo islâmico” no Brasil, aconteceu o que muitos esperavam. Foi anunciada a prisão de suspeitos (Veja aqui o perfil dos suspeitos de “preparar” atos terroristas, ou de dar “suporte” ao terrorismo ou ainda de jurar “lealdade” ao Estado Islâmico). Até o momento ninguém sabe ao certo do que se trata, pois os detidos estão incomunicáveis.

O fato é que, com esse ato, o governo brasileiro conseguiu o que queria. Em primeiro lugar, fez com que a mídia internacional olhasse para o Brasil com uma estranha sensação de que agora, nós (Brasil) estamos no mesmo nível dos grandes. Isso mesmo, “o terrorismo islâmico” ameaça as grandes potencias e… nós também! O site da rede de TV americana “CNN” inseriu a noticia alerta em vermelho (“breaking news”) em seu site. BBC, New York Times e outros fizeram o mesmo.

Ao mesmo tempo em que a narrativa da ameaça se difundia, também era construída a narrativa da segurança. Esse era o objetivo maior. Ministros da Defesa e da Justiça anunciavam, com pompa e circunstância, a detenção de pessoas vinculadas ao terrorismo internacional. Nas palavras do ministro da Justiça, é preciso “readequar os procedimentos e protocolos de defesa, segurança e inteligência. Nós vamos intensificar o sistema do controle de segurança. Teremos que aumentar o número de ‘checkpoints’, os pontos controles, além de outras medidas”. Pronto, a narrativa e a linguagem utilizada pelos sistemas de segurança dos EUA, França, Inglaterra e Israel no Iraque, Afeganistão e Palestina já estão entre nós e poderão fazer parte de nosso cotidiano. Claro, que já faz parte há muito tempo nas periferias, mas os “megaeventos” são uma oportunidade para novos experimentos de vigilância, controle e repressão. Com a prisão dos “suspeitos” (reitero que é fundamental ler o perfil), o Brasil demonstrava que era capaz de lidar com a maior ameaça nos tempos atuais de forma preventiva e competente.

Essas narrativas que reproduzi acima utilizando as palavras chave da aérea de segurança internacional, associadas a uma serie de imagens bombardeadas pelas emissoras de TV, cumprem a função primordial de nos dizer o que é ameaça, o que é insegurança e como devemos hierarquizar as ameaças. Sim, a sensação de insegurança é, em grande medida, uma percepção que depende em grande parte da quantidade e qualidade do constante fluxo de informações que as pessoas recebem diariamente. Algumas regras são cumpridas à risca. Claro, a primeira dela é: não pense. Os problemas do mundo são muito simples – portanto, esqueça as sutilezas e o contexto. Experimente fazer alguns exercícios intelectuais como associar ideias, lembrar certos fatos, confrontar informações etc. Você verá que isso tem efeito devastador. Vamos lá!

1. Faça o seguinte. Volte ao primeiro paragrafo, que contém a descrição do que aconteceu em Natal, e qualifique os atos como vandalismo. Foi o que fizeram o governo e a mídia. Agora, compare com outro acontecimento e o nível de “ameaça” levando em consideração os atos e não a qualificação. Num caso, bombas, incêndios etc; no outro mensagem na internet de “lealdade” a terroristas. Agora pense se há algum caso no mundo em que o ato terrorista é anunciado previamente na internet. Leia o perfil dos detidos. Tente qualificá-los como “extremistas”, “agitadores”, “pessoas com problemas psicológicos”. Qual a sensação de ameaça? Agora, qualifique como terrorista”. Qual a sensação de temor? Percebeu o que as palavras podem fazer?

2. As forças de segurança demonstraram em simulação como poderiam abater um avião “suspeito”. Pergunte quais os critérios de suspeição? Algum avião com o símbolo do Estado Islamico? Há algum episódio recente de ataque aéreo em ações terroristas? Informo ainda que numa dessas simulações os aviões se chocaram! Afinal de contas há alguma ameaça real?

3. Três mil e quinhentos agentes da Força Nacional que foram para o Rio realizar a segurança das instalações olímpicas, foram proibidos por “milicianos” de instalar internet no condomínio onde estão alojados. Isso porque, como é sabido, as milícias exercem o controle de território naquele local. Ah, mais um dado interessante. A grande mídia passou a dar noticias sobre “segurança” na parte de esportes. Será que não deveríamos perguntar sobre a sensação de segurança dos habitantes desse bairro? Experimente retirar a palavra “miliciano” e coloque terrorista. Percebeu?

4. O contingente que cuida da segurança no Rio de Janeiro é estimado em torno de 90 mil agentes (policia e forças armadas). De acordo com o ministério da Justiça, os Jogos Olímpicos terão uma segurança compartilhada: 41% pública e 59% privada. Pois bem, mesmo assim houve furto de maquinas fotográficas de jornalistas na área de segurança nacional e ocorrência de “balas perdidas” em cabines de transmissão. Além disso, um membro da força de segurança foi morto por tiro de fuzil na favela da Maré. Tendo essas informações, creio que podemos fazer duas perguntinhas que podem desmontar a arquitetura de segurança das olimpíadas: Quem esta sendo protegido? E do que esta sendo protegido?

5. Vi essa foto com a explicação de que o militar estava treinando para dar proteção às pessoas nas Olimpiadas. Parece que é uma bazuca. em que circunstancias ele a usaria? E se aparecer um terrorista? já pensou o que pode acontecer com um duelo de bazucas em frente ao Maracanã? Como vamos qualificar os que morrerem devido a ação dos agentes do Estado: efeito colateral (incidente). Já os que foram mortos pelo “outro” seriam vítimas de “terrorismo”.

Falamos de Palavras e de Coisas. Como não lembrar de Foucault: “Aquilo que, numa dada época, recorta na experiência um campo de saber possível, define o modo de ser dos objetos que aí aparecem, arma o olhar cotidiano de poderes teóricos e define as condições em que se pode sustentar sobre as coisas um discurso reconhecido como verdadeiro”.

Tropa chegando em Natal.

Tropa chegando em Natal.

EUA: o ódio que o FBI não enxerga

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Estado vigia obsessivamente os muçulmanos. Mas faz vistas grossas a centenas de grupos que pregam ou praticam violência contra minorias. Por isso, Mateen, que matou 49, pôde agir com liberdade

Por Reginaldo Nasser

Dias após a tragédia em Orlando, continuam as investigações policiais na esperança de que possa surgir algum detalhe esclarecedor sobre os motivos que levaram Omar Mateen a cometer massacre na boate LGBT. Sabe-se que Mateen esteve sob vigilância do FBI, em 2013, por ter feito comentários “suspeitos”, após ser “ridicularizado” por sua origem muçulmana. De acordo com as autoridades do FBI, Mateen manifestou simpatia em relação a grupos terroristas, mas a suspeita foi descartada depois que o FBI concluiu que não representava uma ameaça, já que não havia nenhum laço concreto com grupos islâmicos.

Creio que essa ação do FBI é muito significativa. Colocou alguém na lista de suspeitos de ligação com o terrorismo, por ser um islâmico que se manifestou de “forma radical”, mas concluiu que não era ameaça por não ter relação com grupos terroristas islâmicos no exterior. Provavelmente o FBI nem registrou o caso de Mateen que, como milhares de pessoas, manifestam de alguma forma o ódio contra grupos LGBT, nem muito menos seu histórico de violência contra sua ex-mulher. Para o FBI, isso não se constituiu uma ameaça à sociedade!

Nos últimos anos, o governo dos EUA destinou milhões de dólares para programas de combate ao que considera “extremismo violento”, cujo objetivo é identificar e/ou impedir indivíduos que são propensos a cometer violência. Estes programas têm sido severamente criticados por especialistas, na medida em que enfatizam ideologias e crenças, e não incorporam outros indicadores como o comportamento em relação a parceiros íntimos e familiares (ver artigo do The Intercept Was Orlando shooters domestic violence history a missed warning sign?).

Pesquisa realizada pela organização Everytown for Gun Safety, em 2015, constatou que mais de 25% de todos os massacres ocorridos nos últimos seis anos, foram perpetrados por indivíduos com algum histórico de violência doméstica.

Essas questões obrigam-nos a olhar com mais atenção para o conceito de violência. Para o pensador norueguês Joan Galtung, a violência visível (física) é apenas a ponta do iceberg, pois esta intimamente relacionada a situações de violência estrutural e/ou justificadas pela violência cultural. A violência estrutural se refere àquelas situações em que se produz algum tipo de restrição na satisfação das necessidades humanas básicas (bem estar social e econômico, identidade ou liberdade) como resultado de processos de estratificação social. Ocorre sempre que há conflito entre dois ou mais grupos sociais (gênero, etnia, classe, nacionalidade) em que o acesso ou possibilidade de uso dos recursos resulta favoravelmente a alguma das partes em detrimentos dos demais. Já a violência cultural se expressa por meios simbólicos (religião, ideologia, linguagem, arte, ciência, mídia, educação, etc.), e tem como função legitimar a violência direta e/ou estrutural, e oferece justificativas para que os seres humanos, além de se destruírem mutuamente, ainda sejam recompensados por isso (racismo, sexismo, xenofobia etc).

Members of the Westboro Baptist Church hold anti-gay signs at Arlington National Cemetery in Virginia on Veterans Day, November 11, 2010. The Supreme Court ruled on Wednesday that a church has the legal right to stage anti-gay protests at military funerals to promote its claim that God is angry at America for its tolerance of homosexuality. REUTERS/Kevin Lamarque

Vejamos, por exemplo, como tem se manifestado a violência cultural nos EUA. A organização Southern Poverty Law Center (SPLC) monitora, desde 1981, o que considera como grupos de ódio nos EUA — isso é, aqueles que “… têm crenças ou práticas que atacam ou difamam um grupo de pessoas, devido às suas características. Suas atividades incluem marchas, comícios, discursos, reuniões, panfletagem ou publicação”. Ou seja, agem estritamente dentro da lei, pois exercem direitos protegidos pela primeira Emenda da Constituição dos EUA (“o Congresso não fará nenhuma lei a respeito do estabelecimento de uma religião, ou proibindo o livre exercício dela; ou cerceando a liberdade de expressão ou de imprensa; ou o direito do povo se reunir pacificamente e dirigir petições ao governo para a reparação de injustiças”).

De acordo com pesquisa realizada pelo SPLC, em 2015, são 982 os grupos de ódio ativos nos EUA, não incluindo aqueles que estão apenas no ciberespaço. Trata-se de grupos extremamente diversificados como Ku Klux Klan, White Nationalist, Racist Skinhead, Christian Identity, Neo-Confederate, Black Separatist end General Hate. Para além de suas particularidades, todos esses grupos manifestam, de alguma forma, ideologias de ódio, incluindo as subcategorias anti-LGBT, anti-imigrantes, islamofobicos, negação do Holocausto e outros. Trata-se, sem duvida nenhuma, de um ambiente social com níveis exacerbados de violência cultural.

É provável que ainda sejam adicionadas novas informações sobre as possíveis motivações do massacre, mas um fato é incontestável e não precisa esperar pelos resultados de uma investigação completa: trata-se do maior massacre na história dos EUA que teve como alvo a comunidade LGBT.

Apesar disso, políticos do Partido Republicano, em sua grande maioria, têm se recusado a mencionar a comunidade LGBT pelo nome. Trata-se de um ensurdecedor silencio de cumplicidade com o ódio que viceja nessa sociedade e que conta com a proteção de uma constituição que é alardeada no mundo inteiro como a mais democrática do mundo. Se é isso então devemos concluir que há algo de podre no reino da democracia.