Por que Israel ama a violência

1280x720-s-qAo examinar projeto de ocupação da Palestina, de 1948 até nossos dias, músico conclui: não há nada melhor que levar os oprimidos a ações desesperadas e atacá-los quando reagem

Por Jonathan Ofir | Tradução Shajar Goldwaser

Você não deve ter pensado nisso. Nós estamos sempre tão decepcionados com essas erupções de violência, nossos líderes pedindo por mais calma e nós sempre dizendo que a maioria de nós quer paz… Na verdade, nós amamos essa violência.

Deixa eu te explicar por que.

A ideologia que representa nossa supremacia judaica em Israel é o sionismo. Desde o começo, nós sabíamos que estávamos nos assentando em um território já povoado. E sabíamos, desde o começo, que iríamos querer toda a Palestina histórica – alguns de nós queriam até mais – do Nilo até o Eufrates, alguns ainda querem. E nós sabíamos que tudo visava criar um Estado-Nação que tivesse uma supremacia étnica dominante, no caso a nossa, judaica. Sabíamos que os nativos teriam que ser expulsos, ou convencidos a fugir, para termos uma maioria esmagadora. Nós poderíamos tolerar talvez 15%, certamente 20% no máximo deles. Continuar lendo

Haiti: as catástrofes naturais e as ONGs

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Crédito da foto: Chip Somodevilla

Tragédia provocada pelo furacão Metthew chama atenção para outro fenômeno: num país cujo Estado soçobrou, ONGs e doadores estrangeiros comandam assistência à população. Isso produz democracia?

Por Diego Araujo Góis e João Fernando Finazzi

O Haiti volta a ser manchete nos maiores jornais do mundo por conta de um novo desastre natural que assola o país. Em 2010, o catastrófico terremoto deixou mais de 200.000 mortos, desalojou em torno de 2 milhões de pessoas (segundo os dados mais recentes, 80.000 continuam em abrigos provisórios) e destruiu boa parte da infraestrutura urbana. Dessa vez, embora seja cedo para dizer ao certo quais serão os resultados da maior tempestade tropical a atingir o Haiti em 50 anos, algumas estimativas já indicam que em torno de 1 milhão de pessoas foram afetadas, incluindo aproximadamente 1000 mortos, feridos, grandes alagamentos, deslizamentos de terra, desmoronamento de casas e assolamento de plantações.

A destruição, no entanto, coloca a possibilidade de outros desdobramentos em evidência: as prováveis respostas da “comunidade internacional” e a já anunciada postergação das eleições presidenciais. A semelhança com o episódio de 2010 permite estimar que o acontecimento poderá servir, de um lado, para o fortalecimento do sistema de ajuda internacional por meio de ONGs em detrimento do Estado haitiano e, de outro, permitir a continuidade da (Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti) Minustah. Continuar lendo

E se boicotarmos a Folha de S.Paulo?

Em 5 de novembro de 1969, um dos jornais do grupo "Folha" comemora a morte de Marighella. A mesma atitude, nos golpes de 1964 e 2016

Em 5 de novembro de 1969, um dos jornais do grupo “Folha” comemora a morte de Marighella. A mesma atitude, nos golpes de 1964 e 2016

Para manter-se manipulador, sem se queimar por completo, jornal mantém algum contato com inteligência crítica. Talvez seja hora de negar-lhe este trunfo…

Por Reginaldo Nasser

Creio que desde o inicio da década de oitenta, nos estertores do período ditatorial,  estamos debatendo uma série de questões relacionadas à mídia e democracia. O que é mais angustiante é que após anos de muitas lutas parece que sempre voltamos ao ponto inicial. Atingimos a intensidade máxima desse debate com a participação e ou conivência de boa parte da mídia na arquitetura do Golpe em curso.

Creio que a Folha de S.Paulo foi o primeiro jornal a tentar entrar no novo espirito do momento pelas Diretas Já. Sua primeira grande campanha publicitária lançou o slogan “De rabo preso com o leitor”, construindo a narrativa de que era independente em relação a governos, partidos e ideologias.

Passei a me lembrar disso  após a leitura do contundente texto do colunista da Folha Gregorio Duvivier, “Dona Folha, tá difícil te defender” em que faz uma critica duríssima ao editorial do próprio jornal onde escreve. Destaco o trecho “Quando o Reichstag pegou fogo, os jornais pediram medidas de emergência contra os “baderneiros” em editoriais muito parecidos com o seu. Hitler não teria ganhado terreno sem uma profusão de jornais pedindo “mais repressão aos grupelhos”.

Desnecessário ressaltar as qualidades intelectuais e politicas do multitalentoso Duvivier, mas justamente por isso, creio que vale a pena avaliarmos as táticas politicas que se constroem, sempre pensando em prováveis consequências de nossas ações.  Por exemplo, qual será o resultado politico desse belo texto? A Dona Folha ficará abalada com a critica e mudará sua linha editorial? Ou é mais provável outra hipótese? Que justamente essa atitude de Duviver (embora sua intenção seja o oposto) é o alimento que sustenta a Dona Folha desde anos 80. Pois, isso permite que ela diga aos quatro cantos do mundo que ela é plural e democrática, tal como se expressou, recentemente em Londres, o seu Dono. De forma rude “acusou” a jornalista, que fez critica aos meios de comunicação, de “petista” e encheu o peito para dizer que seu jornal publica Reinaldo Azevedo, Demetrio; mas também Boulos, Safatle e outros. O jornal estimula a presença dos opostos se digladiando para depois aparecer como uma espécie de primus inter pares. Será que o Dono da Folha não deu a dica onde podemos atingi-lo? E se não houver mais articulistas críticos? Será que assim a verdadeira face da Folha não se revelaria de forma mais clara?

Será que não devemos pensar em outras formas de ação? O boicote, por exemplo. Boicote de articulistas, especialistas e, claro, de assinantes. Não tenho nenhuma certeza sobre isso, mas será que não valeria a pena tentar? Creio que com o boicote o jornal que já disse, certa vez, que  tem “rabo preso com leitor” ficará , simplesmente, sem rabo!

Novas faces da luta social no Brasil

refugiados_encontro2Refugiados e novos imigrantes, agora vindos da África, Ásia e América do Sul, organizam-se em festivais e frentes políticas. Faltava esta cor, nas batalhas para mudar o país

Por Reginaldo Nasser

Os dados são alarmantes. Segundo ACNUR há atualmente por volta de 65 milhões de pessoas deslocadas no mundo. Ou seja, 24 pessoas/minuto, foram forçadas a sair de seus lugares por motivos de conflitos e perseguições, a cifra mais alta desde o final da 2ª Guerra Mundial. Desse total, 41 milhões são de deslocados internos, pessoas que foram expulsas de suas casas, mas que, por algum motivo, não conseguiram cruzar as fronteiras de seus países. É preciso olhar com cuidado para esses números, pois existe uma distância muito grande entre as solicitações e a concessão de estatuto de refugiado. Na União Europeia foram 1,25 milhões de solicitações e 334 mil concessões em 2015. No Brasil, o número de solicitações de refúgio subiu 2.868% nos últimos cinco anos, de 966 em 2010 para 28.670 em 2015. Desse total, foram concedidos 8.863 vistos, o que representa aumento de 127% no acumulado de refugiados reconhecidos. Os sírios são a maior comunidade (2.298), seguidos dos angolanos (1.420), colombianos (1.100), congoleses (968) e palestinos (376).

Os refugiados são pessoas que escaparam de conflitos armados ou perseguições. Sua situação é tão perigosa e intolerável que devem cruzar fronteiras internacionais para buscar segurança nos países mais próximos para que seja reconhecido como ‘refugiado’, com o acesso à assistência dos Estados e organizações internacionais. Já os migrantes “escolhem” se deslocar não por causa de uma ameaça direta de perseguição ou morte, mas principalmente com o objetivo de encontrar melhores condições de vida ou escapar da morte pela fome. No entanto, aqueles que fogem da fome e da pobreza não deveriam ser classificados simplesmente como migrantes econômicos, mas sim refugiados da fome. Isto significa que eles estão fugindo de um estado de necessidade, não por escolha.

Outra questão que precisa ser sempre levada em consideração é que mesmo após adquirir o estatuto de refugiado há um longo desafio a ser superado. De um lado as frequentes reações de xenofobia e outras formas de preconceito, de outro suas demandas raramente são ouvidas neste contexto, exceto para reforçar sua vulnerabilidade como beneficiários de ajuda humanitária em um espaço indefinido entre os Estados-nação. Assim, é muito apropriada a atitude dos refugiados de reivindicar sua condição de cidadão. Segundo, Hasan Zarif, membro do Movimento Popular Palestina Para Todos (Mopat), uma dos movimentos organizadoros do 1º Festival do Dia Internacional do Refugiado (veja reportagem aqui) “queremos que os refugiados tenham voz própria, que não tenham porque ser representados por ninguém”. O que podemos ouvir pela voz de Pitchou Luambo, refugiado da República Democrática do Congo (RDC) e coordenador do Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem Teto: “Nossa ideia é ser protagonista na nossa história. Queremos nos representar, porque ninguém mais do que a gente sabe ou sente aquilo que nós passamos ou necessitamos”.

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A criação da Frente Independente de Refugiados e Imigrantes (FIRI), que busca fortalecer coletivos e movimentos de imigrantes e refugiados em São Paulo, vem em boa hora. Justamente no momento em que o governo golpista já dá sinais de retrocesso na politica de acolhimento adotada no governo da presidenta Dilma, ao suspender negociações que mantinha com a União Europeia para receber famílias desalojados pela guerra civil na Síria.

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Cada vez mais as tensões nesse mundo globalizado se afloram e se intensificam. De um lado, há uma progressiva demanda pela desnacionalização das economias nacionais por parte do neoliberalismo. Por outro, os mesmos que querem abolir os controles nas fronteiras para o fluxo de capital, informação e serviços, querem “renacionalizar” a política do Estado nacional quando se trata do fluxo de pessoas “indesejáveis”, reivindicando o seu direito soberano de controlar suas fronteiras.

Mas o recado no final desse festival, que foi um sucesso, veio na fala do grande Bnegão; “todo mundo esta na mesma, todo mundo unido, todo mundo um só, e é simples…fora os irmãos indígenas que são donos dessa parada…. todo o resto da galera meu irmão…. é um galera que veio para explorar e a maioria é refugiado… sou descendente de africano, descendente de escravo… muita gente que esta aqui de várias paradas… vamos pensar então que não é só separado…todo mundo junto ..todo mundo no mesmo barco…”