Sobre Reginaldo Nasser

Chefe do Departamento de Relações Internacionais da PUC-SP e prof do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e Puc-SP). Endereço para acessar CV: http://lattes.cnpq.br/0717133384261187

“A ideologia serve para desviar a atenção para algumas coisas, enquanto acontecem outras”

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Detalhe de Lenine no trabalho “Man at the Crossroads” (1934) de Diego Rivera. Mural em exposição permanente no Palácio das Belas Artes da Cidade do México. Imagem: Jaontiveros / Wikimedia Commons. Alguns direitos reservados.

A hegemonia das corporações de média no Brasil é um fenômeno que não tem precedentes na história do país. Não existem notícias equilibradas, livres de manipulação

Reginaldo Nasser é entrevistado por Manuel Serrano, no openDemocracy

Esta entrevista foi realizada no dia 19 de Maio, em Lisboa, na conferência “Mais além das fronteiras: pessoas, lugares, ideias“, organizado pela Universidade Autônoma de Lisboa.

Manuel Serrano: durante a conferência, o professor falou do confronto entre as ideologias internacionalistas da Nova Ordem Mundial posterior à Primeira Guerra Mundial. Porque é isto relevante hoje em dia?

Reginaldo Nasser: no principio, a Primeira Guerra Mundial foi entendida como se fosse mais uma, uma guerra igual às anteriores. Mas após o início do conflito ficou clara uma nova realidade, que tem mais a ver com a sociedade que com a própria guerra: uma sociedade de massas, que se lança para as ruas, que se revolta, que faz greves. Podemos perguntar-nos o que tem isto a ver com a guerra. Mas tem tudo, porque a guerra é uma narrativa, é uma questão que diz respeito à sociedade – é uma produção da mesma. E o tema da guerra passou a ser uma variável importante dentro dos partidos. Isto nunca tinha acontecido. Os partidos começaram a perguntar-se: devemos ir à guerra ou não? E se sim, porquê? Estas questões que num primeiro momento parecem simples foram demolidoras, porque naquele então era impensável alguém dizer que não ia à guerra pelo seu país. Isto tudo devido a quê? Num primeiro momento, ao internacionalismo de esquerda. Se a guerra é entre imperialistas, nós não temos nada a ver com isso, diziam. Portanto, estavam a tentar sobrepor a ideia de identidade internacionalista à identidade nacional.

Esta questão torna-se crucial com a guerra. E no meio surgem duas questões: na Alemanha há uma divisão dentro do partido social-democrata alemão – naquele então de perfil marxista- entre os revisionistas, como Bernstein, que defendiam que se tinha que reler Marx e que não eram contrários à guerra, e aqueles como Rosa Luxemburgo,que afirmavam não ter sentido um trabalhador entrar na mesma. Na Rússia, deu-se a primeira revolução de Fevereiro, chegando o governo democrata de Kerensky ao poder. É só neste momento que os Estados Unidos – que não tinham interesse em entrar na guerra, mas que torciam para que a Rússia continuasse na mesma – entram, enquanto que os Bolcheviques que chegavam ao poder em Novembro de 2017, queriam abandoná-la – Lenine chegou a apelidá-la como uma guerra “predatória imperialista”.

Wilson e Lenine partilhavam algumas ideias, pese a que os seus pontos de vista, ideias e propostas sobre muitos temas fossem sumamente diferentes. Os 14 pontos de Wilson propunham sobretudo ideias para melhorar a situação exterior, enquanto que as Teses de Abril de Lenine propunham sobretudo ideias para melhorar as coisas na Rússia. Mas ambos estavam de acordo – pelo menos nominalmente – sobre o direito de autodeterminação dos povos que foi – pese à confusão que se produziu depois da guerra – defendido primeiro por Lenine, e não por Wilson.

Seja como for, as suas propostas foram certamente revolucionárias nos tempos em que se viviam e tiveram um papel importante no que aconteceu depois. A diplomacia de gabinete perdeu importância a favor duma diplomacia que tinha que ter em conta as massas e os protestos nas ruas, tendo muitas das suas ideias sido transportadas para o mundo extra-europeu, sobretudo para as colónias. Ali, ironicamente, e pese a defesa do direito à autodeterminação e a desintegração do modelo colonialista por parte de Wilson, imperou um modelo de mandatos: uma ocupação segundo ele, temporária, do território para dotar as pessoas de capacidade de governar, que apresenta diversos paralelismos com a noção actual de Estado Falhado e dos espaços não governados.

MS: John Lewis Gaddis diz, que depois da Guerra Fria Lenine e Wilson trocaram de lugar. Que hoje “Wilson é lembrado como um realista profético, enquanto as estátuas de Lenine estão nas lixeiras do antigo mundo comunista”.

RN: na década de 60, de facto, acontecia o contrário. Quem estava no auge era o Lenine. Temos que ter cuidado com esta leitura, porque é muito pós-guerra fria. A ideia do Wilson funciona quando vivemos num mundo em que não existe competição com grandes potências. Com uma grande potência como a União Soviética o jogo é outro. Com a União Soviética suspende-se Wilson. Quando ela cai, recupera-se o Wilson. Estamos a discutir teoria. Uma coisa diferente é como as pessoas aderem às teorias. O Fourier dizia que as pessoas não se tornam marxistas por ler Marx, mas sim por ter um sentimento de injustiça. Eu, por exemplo, deixei de ser marxista quando li Marx.

MS: acredita que hoje vivemos entre dois mundos, entre duas ideologias? Ou que se trata apenas duma luta entre os defensores duma sociedade aberta e os defensores duma sociedade fechada?

RN: veja, tem duas grandes variantes quando falamos de ideologia. Uma, é um conjunto de crenças, ideias, valores: todos nós temos isso. Há sempre diferenças: posso dizer que são de classe – marxismo – ou individuais – liberal. Mas existem. Contudo, a palavra ficou carregada e cada vez que se quer acabar com um debate, dá-se uma solução técnica e diz-que o tempo da ideologia acabou. Neste momento no Brasil há um debate intenso sobre a economia: dizem que a economia não tem discussão, não comporta valores, não comporta ideologia, que são aspectos técnicos. Mas, ironicamente, vivemos num momento em que a ideologia está no seu auge.

Na tradição marxista pegaram muito nisso, que a ideologia inverte, esconde o real. Então, este também é um factor importante. Você desvia a atenção para algumas coisas, enquanto outras estão a acontecer. O Marxismo trouxe essa coisa de não acreditar no discurso, nas narrativas oficiais, porque escondem mais do que revelam. Então por exemplo, eu posso dizer o seguinte: os papéis federalistas são lindos, mas os que os escreveram eram escravistas. Onde aparece isso? Discutem o o modelo o presidencialismo, o republicanismo. Mas não falam sobre o anterior. Qual o modelo económico? Desigual. Racista. Onde está a discussão disto? É uma ideologia que você escamoteia. Sociedade aberta ou fechada? Eu sei do debate, mas é uma construção. Aberta para quem? Para os negros? Para os latinos?

Manifestação contra o presidente do Brasil, Michel Temer, em São Paulo. 6 de Junho de 2017. NurPhoto / SIPA EUA / PA Images. Todos os direitos reservados.

MS: como avalia a crise no Brasil? Que espera do futuro? Pode o Brasil ultrapassar esta crise económica e política que parece permear todos os âmbitos da sociedade?

RN: o Brasil atravessou uma fase na qual se produziu uma ascensão social das classes menos favorecidas – uma ascensão socioeconómica – que foi inédita da época da Lula, dos seus dois governos e do inicio do governo da Dilma Rousseff. Isto é um facto. Teve emprego, teve proteção social e muito em termos históricos. Mas nós sentíamos que havia uma reação contra esta ascensão, sobretudo porque há uma competição. Contra toda mobilização social – como se aprende em sociologia – surge sempre uma reação.

O sucesso desse momento deve-se a diversos fatores, mas, também, a um momento favorável internacional que o Lula soube aproveitar habilmente. Mas o Lula também fez concessões. Os bancos nesse momento ganharam como nunca, muito mais que as classes baixas. As corporações brasileiras apareceram entre 2007 e 2008 no radar internacional. Cresceram muito – já o tinham vindo a fazer desde a ditadura – sobretudo a nível internacional: foram para Angola, para a Moçambique. Eram elas a Petrobrás, a Vale do Rio Doce…. Isto foi estrutural. Cresceram de braço dado com o poder. Quando o esquema começou a falir, foi o salve-se quem puder. Um professor meu dava um exemplo particularmente ilustrativo: se você encontrar um jabuti em cima duma árvore, que pergunta se deve fazer? Não deve discutir em que tipo de árvore está, ou que tipo de animal é, mas sim porque está na árvore. Como consegue um juiz de Curitiba – o Sérgio Morodestruir cinco das maiores empresas do mundo? Porque há uma guerra de corporações no Brasil. Corrupção sempre houve. A questão é porquê a trouxeram a debate agora…. Se essas cinco corporações pagam à Globo, e depois são atacadas pela mesma, então é porque alguém lhes está a pagar mais. Com o Temer estamos a assistir a mais do mesmo, a um problema estrutural. As corporações no Brasil financiam muitos partidos: o PT, os PSDB, o PMDB. As corporações, essas sim, não tem ideologia!

MS: o senhor recusou dar uma entrevista à Globo. Acredita que os meios de comunicação no Brasil não passam de meras máquinas de manipulação e propaganda?

RN: eu no Brasil não os classifico como meios de comunicação, mas sim como corporações de média. O Glenn Grenwald, do The Intercept mora no Rio. E a sua presença tem tido uma repercussão imensa. Começou a inteirar-se das noticias e provocou uma reacção em cadeia. No Twitter, criticava os jornalistas porque faziam as coisas mal…. Agora abriu uma secção no Brasil. No outro dia dizia aos americanos que não fazem ideia de como as coisas estão no Brasil. Que nos Estados Unidos se queixam do estado dos meios de comunicação. Mas que lá, pelo menos, a CNN, o Washington Post ou o New York Times ainda conseguem ser isentos, ou, pelo menos, equilibrados. No Brasil isto não acontece. Nunca se viu uma hegemonia como a das corporações de média no Brasil. Não há noticias equilibradas ou isentas. Há uma iniciativa no Brasil que se chama Manchetômetro: é uma página web de acompanhamento da cobertura dos grandes meios de comunicação, sobre temas políticos e económicos, que não tem qualquer tipo de ligação com partidos políticos ou grupos económicos. O advogado do Lula usou-o no processo dele. Sabe quantas manchetes/capas do Estadão foram favoráveis ao Lula, ou pelo menos equilibradas? 1%. É um negócio…

Então o que aconteceu comigo? Eu ia muito à Globo, mas num determinado momento dei-me conta que estavam a editar várias das minhas falas num programa internacional onde falavam três pessoas. E eram falas, para mim, significantes. Aí eu comecei a afastar-me. E quando começou tudo isto decidi resgatar um principio de desobediência, de boicote. Como eu sou muito da questão Palestina, sou favorável ao BDS (boicotes, desinvestimento e sanções): é um método pacifico, sou contra o uso da violência….Por isso boicoto-os. Porque eles estão 23 horas por dia num tom, concedem-lhe uma hora para falar e depois dizem-lhe que são liberais. Mas é isto, estes são os meios no Brasil, e cada vez estão piores

Nakba: Quando Israel promoveu sua “limpeza étnica”

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Sai, no Brasil, livro que relata realidade sempre ocultada: a expulsão de centenas de milhares de palestinos, em 1948, para criar Estado judeu no Oriente Médio

Por Reginaldo Nasser


RESENHA DE:
A Limpeza étnica da Palestina – Editora Sundermann
De
Ilan Pappe, com tradução de Luiz Gustavo Soares
Lançamentos com presença do autor:
> PUC-SP: 24/4, às 19h15, no Auditório 234
> USP: 25/4, às 12h, no Auditório da História
> Livraria Martins Fontes: 25/4, às 17h30 – Av. Paulista, 509 – S.Paulo
> Restaurante Al Jania: 25/4, às 21h – R. Rui Barbosa, 269
> Unicamp: 26/4, às 12h, na Adunicamp
> Unifesp: 26/4, às 17h – R. Botucatu, 720

Tente se inteirar a respeito da chamada questão Palestina fazendo uma busca nas redes e inserindo a palavra: Ocupação. As informações que você encontrará referem-se, quase que exclusivamente, ao que aconteceu há 50 anos, como consequência da vitória militar de Israel na Guerra dos Seis Dias (1967): a Ocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordania. Assim, sob a ótica do Direito Internacional há consenso de que se trata de uma Ocupação Beligerante: territorio ocupado em decorrência do uso da força. A dimensão deste acontecimento fez com que se criasse um falso entendimento que foi nesse momento que se iniciou o conflito entre Israel e palestinos.

Mas, se a partir de 1967, o problema palestino ganhou maior relevância e visibilidade no mundo, por outro lado, permitiu que cada vez mais a Nakba (Catástrofe em árabe) fosse progressivamente relegada ao esquecimento, apesar do testemunho de milhões de palestinos. Na narrativa sionista, o Estado de Israel foi criado, em 1948, em decorrência de uma Guerra de Independência contra os Estados árabes; e o êxodo de milhares de palestinos, uma consequência natural do conflito.

Há aqueles que cingem sua atenção apenas nos episodios agudos dos conflitos bélicos como nas chamadas guerras entre “árabes” e israelenses ou nas “ações armadas dos palestinos sempre qualificadas como terrorismo. Tal percepção esconde mais do que revela a realidade politica economica do colonialismo sionista. Seja porque foram apenas os governos do Egito e Siria que se envolveram mais efetivamente nas ações armadas, e não a comunidade arabe como um todo; seja porque é justamente nesses intervalos de “paz” é que pode consolidar progressivamente uma estrutura socio-economica de dominação.

Por exemplo, em 1950, o Knesset (parlamento de Israel) aprovou a lei do Proprietário Ausente, que concedeu ao Departamento de Assentamento do Fundo Nacional Judaico (FNJ) um estatuto independente de proprietária de terras em nome do estado judeu. Outras regulamentaçoes como Lei de Terras de Israel e a Lei de Autoridade de Terras de Israel aprimoram a medida proibindo o FNJ de vender ou arrendar terras para não judeus. O resultado da aplicação dessas leis durante decadas (até 1967) passou a vigorar para todas as terras estatais (cerca de 90% das terras de Israel). Após o processo de ocupação das terras, a minoria palestina (17% da população total) teve que se contentar com apenas 3% das terras. Eles tinham a permissão para construir e morar em apenas 2% e ter produção agricola em 1%. Ou seja, atualmente 1,5 milhao de palestinos continuam habitando esses mesmos 2%

É fato que o primeiro historiador a ter acesso às fontes militares israelenses, Benny Morris, teve o mérito de mostrar que a “fuga voluntária” dos palestinos era um mito; mas o problema é que tomou esses documentos como verdades absolutas. Isso fez com que, de acordo com Pappe, Morris ignorasse inúmeras atrocidades cometidas pelos judeus. Ilan Pappe também se utiliza dos próprios arquivos militares israelenses. Porém, eles são confrontados com a narrativa palestina marginalizada, o que torna possível demonstrar que houve uma verdadeira operação de limpeza étnica, como resultado de um plano (Dalet), previamente elaborado, com descrição detalhada dos métodos a serem empregados para expulsar o povo palestino de suas terras. A execução do plano teve inicio no dia 10 de Março de 1948. Antes, portanto, do inicio da ação militar dos governos árabes em 15 de maio, o que torna dificil de sustentar a tese de que houve uma guerra de libertação nacional por parte de Israel.

Após a leitura dessa obra, você compreenderá porque há um profundo temor por parte dos sionistas (de direita ou de esquerda) em relação a qualquer debate sobre 1948, pois se trata de criação de um Estado construido a partir de uma limpeza etnica.

As transnacionais contra os Direitos Humanos

Enterrados na lama, bombeiros procuram corpos após rompimento da barragem da Vale, em Mariana-MG

Enterrados na lama, bombeiros procuram corpos após rompimento da barragem da Vale, em Mariana-MG

Nova edição do relatório Direitos Humanos no Brasil será lançada hoje. Nele, um tema crucial: como corporações como a Vale montam “arquitetura de impunidade” para atacar sociedade e devastar a natureza sem correr riscos

Por Reginaldo Nasser e Terra Bundini


LANÇAMENTO:
Direitos Humanos no Brasil 2016
Publicação da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos

Terça-feira, 21/2, a partir das 19h, no Al Janiah
Rua Rui Barbosa, 269 – Bixiga – São Paulo (mapa) — Metrô S. Joaquim (1,2 km)
(detalhes aqui)

Em 5 de novembro de 2015, a cidade histórica de Mariana, em Minas Gerais, foi palco de um dos maiores desastres ambientais da história do Brasil, que resultou na morte de 19 moradores, desalojou centenas de famílias e enterrou o distrito de Bento Rodrigues e outras localidades vizinhas. Para além do impacto imediato, estima-se que o dano possa chegar a 1 milhão de pessoas, se considerada toda a extensão do Rio Doce, bem como ao ecossistema e à biodiversidade. A tragédia tem ainda impacto na economia local, no emprego e na renda de milhares de pessoas.

As barragens pertencem à Mineradora Samarco que é controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton. A BHP Billinton, por sua vez, é uma fusão da australiana Broken Hill Proprietary Company com a inglesa Billiton, que atua em diversos países no mundo e já foi responsabilizada pela contaminação do meio ambiente no Peru e em Papua Nova Guiné. A Vale é controlada pela Valepar (com 53,9% do capital votante e um terço do capital total), além de ter capital aberto em bolsas de valores, com participação de investidores brasileiros e estrangeiros. O governo federal e o BNDESpar também possuem pequena participação na empresa. A Valepar por sua vez é controlada por fundos de investimentos administrados pela Previ, pela Bradespar (Bradesco), pela multinacional japonesa Mitsui e pelo BNDESpar. Continuar lendo

A lógica da tragédia síria segundo Reginaldo Nasser

Guerras patrocinadas no Oriente Médio estão ligadas a expansão imperialista. Quem mais precisa de ajuda na Síria é quem está desarmado entre o fogo cruzado russo e americano, afirma professor

Jornalistas Livres entrevista Reginaldo Nasser

Nesta entrevista, o professor Reginaldo Nasser, um dos maiores conhecedores dos conflitos no Oriente Médio, fala sobre a guerra civil na Síria. Nasser não poupa o presidente Bashar al-Assad, secretário geral do Partido Baath e herdeiro de seu pai, Hafez al-Assad, que governou a Síria por 30 anos até sua morte. Segundo Nasser, trata-se de um governo ditatorial, que vem oprimindo de maneira cruel a população mais pobre da Síria. Com tal posicionamento, o professor não isenta de críticas o Estado Islâmico, organização fundamentalista que se opõe a Assad. “São terríveis”, diz. Nasser acredita que a auto-determinação do povo sírio e o resgate da política sejam a única forma de fazer cessar a carnificina e a violência vigentes no país.

Trump e as raízes do populismo conservador

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Três expressões do populismo de direita: Donald Trump, Marine Le Pen (França) e Viktor Orbán (Hungria)

Atacar as elites, sem ameaçar as lógicas centrais do sistema, é algo presente na política norte-americana há mais de um século. Como esta tradição foi gestada. Por que a globalização multiplica sua força. Quais são seus limites

Por Reginaldo NasserWillian Moraes Roberto

O resultado das eleições presidenciais nos EUA trouxe espanto para o establishment do país, confiante na vitória de Hillary Clinton. A apreensão diante da vitória de Donald Trump também percorreu a rede global de aliados do país, da Europa ao Japão. Especulou-se sobre a possibilidade de que o sistema de segurança estadunidense poderá ser repactuado devido ao questionamento feito por Trump em relação ao papel da OTAN e de outras alianças militares.

Mas, o que de fato podem representar os votos dados a Donald Trump? Aparecendo, retoricamente, como o candidato anti-establishment, uma contraposição à elite política tradicional de Washington, o bilionário e apresentador de reality shows capitalizou sobre o amplo descrédito na política e na representatividade dos partidos, sobre percepções de perdas socioeconômicas advindas do processo de globalização, e sobre a impopularidade de Hillary Clinton. De acordo com a autora Naomi Klein, a candidata democrata representa a personificação da “classe de Davos”, em menção à cidade suíça onde ocorre o Fórum Econômico Mundial – uma rede hiper-conectada de banqueiros, bilionários dos setores tecnológicos e industriais, e líderes eleitos que estão amplamente integrados com tais interesses. Enquanto essa elite transnacional e globalizada enriqueceu-se enormemente, nos últimos vinte anos, com a expansão do neoliberalismo, a população estadunidense viu seu padrão de vida despencar em meio a uma estagnação real da renda familiar e dos salários.

O regime neoliberal e o advento da globalização, junto dos acordos de livre-comércio assinados pelos EUA, beneficiaram diversas empresas multinacionais que passaram a mover seus processos de produção para outros países em busca de menores salários e maiores incentivos tarifários. Wall Street e seus bancos aliaram-se ao processo, usufruindo de lucros extraordinários e de intensa desregulamentação financeira, enquanto, por outro lado, a manufatura doméstica entrava em declínio, impactando no nível de empregos e salários.

Apesar de construir uma polêmica candidatura conflagrada por escândalos de caráter misógino, racista e homofóbico, e mesmo sendo ele mesmo um bilionário, Trump conseguiu dialogar com essa parcela da população. Seu discurso serviu a uma classe trabalhadora branca, principalmente masculina, afetada pelos efeitos da globalização e que percebe o crescente aumento da desigualdade no país. Estados que compõem o chamado “Cinturão da Ferrugem” (Rust Belt) abraçaram o discurso de Trump contrário ao NAFTA, ao TPP e aos efeitos da globalização. Iowa, Ohio, Wisconsin e Pennsylvania há anos davam vitória aos democratas. Mas sua economia baseia-se na indústria pesada e na manufatura. Por isso, são declinantes e empobrcidos. 

Ao mesmo tempo, a campanha de Trump mobilizou setores conservadores da população branca, sobretudo aquela rural ou de pequenas cidades, que acreditam numa suposta ameaça do multiculturalismo, principalmente de muçulmanos, e veem a imigração como uma fonte de roubo de seus empregos, principalmente latinos e mexicanos. Donald Trump soube, assim, explorar o medo, a insegurança e o sentimento de exploração e descrença política em um momento de incertezas globais.

Entretanto, apesar da mídia tradicional desenhar Donald Trump como um fenômeno meteórico e desconectado da história dos EUA, sua fala de campanha, embora na maioria das vezes expressar agressividade e propostas desconexas, é possível identificar elementos que dialogam com uma vertente populista existente desde o século XIX no país. John Judis, autor do novo livro “The Populist Explosion” (2016), clarifica questões acerca do termo populismo e sua aplicação na história dos EUA. Para o autor, é difícil conceitualizar tal termo devido ao fato de que não há um conjunto universal de características comum a todos os grupos e partidos colocados sob esse signo. Nos contextos específicos dos EUA e da Europa, entretanto, sob matizes à esquerda e à direita, o populismo seria uma espécie de lógica política, uma forma de pensar a ação dentro das regras do jogo em que se diferencia, de maneira geral, “o povo”, “nós”, de um “outro”, “eles”.

As variações à esquerda definiriam “o povo” contra a elite ou o establishment, em um tipo de política vertical das classes baixas e médias contra o topo. Já as variações à direita definiriam “o povo” contra uma elite que acusam de beneficiar a si mesma e um terceiro grupo, em geral minorias – no caso dos EUA, imigrantes, islâmicos e afro-americanos. Assim, o populismo à direita mobilizaria uma fatia populacional — o “povo”, nessa concepção — que se levantaria contra uma elite, ligada às grandes corporações e ao capital que os fazem enriquecer, mas também contra um grupo com mais dificuldades socioeconômicas, de classes mais baixas ou de culturas diferentes, que seriam sustentados, nessa visão, pelos impostos e pelo trabalho dessa classe média branca.

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Essa tradição populista conservadora iniciou-se nos EUA ainda no final do século XIX, com a fundação do Partido do Povo, em 1891, que postulava maior regulação por parte do Estado nas companhias ferroviárias, controle de preços, bem como limites na imigração e taxação de renda. De acordo com Judis, o Partido do Povo teria sido, nos EUA, o primeiro grande movimento contra a visão de mundo laissez-faire do capitalismo. Seu candidato à presidência, James B. Weaver, de Iowa, pleiteava a plataforma de “restaurar o governo da República de volta para as mãos do povo”. Segundo o autor, na medida em que suas ideias se expandiram, tendo influenciado o próprio New Deal de Franklin Roosevelt, o partido se extinguiu. No século XX, a vertente populista conservadora reemergiu nos partidos tradicionais, sobretudo na figura de George Wallace pelos Democratas ao longo dos anos 1960 e 1970. Tendo chegado a defender a segregação racial, afirmava que “nós estamos cansados do cidadão comum ser taxado até a morte enquanto multibilionários como os Rockefellers, os Mellons e os Carnegies não pagam impostos”.

Nos anos 1970, o sociólogo Donald Warren realizou um importante trabalho que identificou a existência de uma parte da sociedade norte-americana que denominou “Americanos Médios Radicais” (Middle American Radicals, MRA). Essa fração social, que representaria, à época, mais de 25% do eleitorado, se sentia alienada tanto dos Democratas quanto dos Republicanos, desprezando questões como direitos sociais e de minorias e controle de armas, mas reverenciando o antigo partido Democrata, sob Franklin Roosevelt, com sua ênfase na economia, empregos e segurança social. Eles também se sentiam espoliados tanto pela “elite plutocrática”, quanto pelas classes sociais mais baixas, que viam como sustentadas pela classe média e pelo Estado de bem-estar social.

Percebe-se, assim, que o discurso de Donald Trump não tem nada de inusitado e pode ser compreendido como algo que faz parte de uma tradição política nos EUA, com um diálogo claro com experiências passadas. O atual momento tem como diferença, de um lado, o fato de um candidato dessa plataforma ter conseguido chegar à Presidência da República e, de outro, o sucesso deste ter conseguido expandir sua base de apoio – o que está intimamente ligado aos efeitos do neoliberalismo, do crescimento da desigualdade, dos efeitos da globalização e da interligação do establishment político tradicional com a “classe transnacional de Davos”.

Entretanto, ainda que se possa identificar sua filiação política, agora que chegou à presidência, Trump ainda permanece como uma incógnita em termos do que realmente implementará como política. Não só suas propostas são confusas em diversas áreas, como também se faz necessário questionar até que ponto o novo líder eleito pode, segundo suas vontades, redefinir os rumos da maior potência mundial.

Vejamos o caso de Barack Obama. Ao ser eleito em 2008, prometeu uma mudança substancial na política externa estadunidense, mas se essa foi sua vontade, não foi capaz de controlar a estrutura do establishment político-industrial-militar do país. Os EUA venderam, entre 2009 e 2014, 190 bilhões de dólares em armas, mais do que sob qualquer governo desde a Segunda Guerra Mundial. Em relação a Israel, hoje os EUA oferecem o maior compromisso de assistência militar em termos absolutos de toda sua história: mais de 40 bilhões de dólares em um período de 10 anos, iniciando em 2018. Internamente, a militarização da polícia dos EUA também vem se aprofundado, a despeito das promessas em sentido contrário de Obama. Os anos de 2014 e 2015, por exemplo, testemunharam picos nas transferências de equipamentos militares para a polícia do país, em meio a uma escalada de tensões envolvendo questões raciais, como em Ferguson, em 2014. Aprofundou-se, assim, uma crescente militarização das cidades, que securitiza cada vez mais protestos e manifestações civis.

De qualquer forma, a postura de Trump, apesar de vaga, marca o discurso de que haverá mudanças – de que agora é “América primeiro”. Suas propostas aventadas para a área de política externa são igualmente polêmicas. Prometeu a construção de um muro na fronteira com o México para conter a imigração ilegal e a ser pago por esse país; sugeriu banir temporariamente a imigração de pessoas da religião islâmica que viessem de países subjetivamente considerados “problemáticos”; defendeu o uso de certas técnicas de tortura para interrogatório de suspeitos de terrorismo; prometeu rasgar o NAFTA, o TPP e o Acordo Climático de Paris e também retirar as tropas do país estacionadas em território de aliados, como em Estados da Europa e da Ásia, tendo inclusive sugerido que Japão e Coreia do Sul poderiam desenvolver armas nucleares para sua própria defesa.

Sobretudo, o mote de Trump parece ser uma rejeição ao intervencionismo liberal que marcou as presidências de Bill Clinton e Barack Obama, ou mesmo o intervencionismo de ocupação de George W. Bush no Oriente Médio. Taxado por ter uma visão “isolacionista”, é possível que a política externa de Trump tente não manter o tipo de engajamento internacional atual, mas sim remodelar a forma do internacionalismo do país – sem necessariamente se isolar. Cabe relembrar o período (1919-1933) na história dos EUA durante o entre-guerras, em que sua política externa foi chamada de “isolacionista” por ter se recusado a participar da Liga das Nações, mas que, na verdade, foi um momento em que o país expandiu suas ligações internacionais e esteve presente em diversas negociações na Ásia-Pacífico e em outras regiões do globo – apenas fora do circuito multilateral, dominado principalmente pela diplomacia europeia.

A questão, entretanto, é em que medida suas promessas poderão se tornar realidade diante das pressões dos grupos sociais organizados bem como dos poderosos lobbies do país. É preciso compreender que é um momento de divisão e disputa renhida entre elites políticas e econômicas nos EUA. Sua equipe de transição é composta por políticos conhecidos por suas funções lobistas em Washington – apesar de Trump ter denunciado tais práticas durante sua campanha. O bilionário conta com nomes como Michael Catanzaro, lobista para as empresas Koch, e Eric Ueland, anteriormente lobista republicano pela Goldman Sachs.

Por trás de sua retórica “antielitista” a eleição de Trump e a orientação de seu futuro governo podem estar revelando um ponto de inflexão na politica norte-americana. Se, desde os anos 1930, sociólogos e analistas têm chamado a atenção para o poder dos círculos corporativos na realização de seus próprios interesses sobre a maioria da sociedade, atualmente há uma complexa rede de conexões que impede com que haja uma proposta unificada dessa elite. As eventuais medidas protecionistas podem prejudicar alguns, mas deverão promover outros, resultando em composições politicas e econômicas bastante heterodoxas.

Assim, muito provavelmente, teremos mais um presidente dos EUA a cumprir a máxima do príncipe de Lampedusa: tudo deve mudar para que tudo fique como está.

Reginaldo Nasser é professor de Relações Internacionais da PUC(SP) e do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP). Coordenador do GECI – Grupo de pesquisa em Conflitos Internacionais

Willian Moraes Roberto é mestrando do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP) e pesquisador do GECI

Por que Israel ama a violência

1280x720-s-qAo examinar projeto de ocupação da Palestina, de 1948 até nossos dias, músico conclui: não há nada melhor que levar os oprimidos a ações desesperadas e atacá-los quando reagem

Por Jonathan Ofir | Tradução Shajar Goldwaser

Você não deve ter pensado nisso. Nós estamos sempre tão decepcionados com essas erupções de violência, nossos líderes pedindo por mais calma e nós sempre dizendo que a maioria de nós quer paz… Na verdade, nós amamos essa violência.

Deixa eu te explicar por que.

A ideologia que representa nossa supremacia judaica em Israel é o sionismo. Desde o começo, nós sabíamos que estávamos nos assentando em um território já povoado. E sabíamos, desde o começo, que iríamos querer toda a Palestina histórica – alguns de nós queriam até mais – do Nilo até o Eufrates, alguns ainda querem. E nós sabíamos que tudo visava criar um Estado-Nação que tivesse uma supremacia étnica dominante, no caso a nossa, judaica. Sabíamos que os nativos teriam que ser expulsos, ou convencidos a fugir, para termos uma maioria esmagadora. Nós poderíamos tolerar talvez 15%, certamente 20% no máximo deles. Continuar lendo

Haiti: as catástrofes naturais e as ONGs

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Crédito da foto: Chip Somodevilla

Tragédia provocada pelo furacão Metthew chama atenção para outro fenômeno: num país cujo Estado soçobrou, ONGs e doadores estrangeiros comandam assistência à população. Isso produz democracia?

Por Diego Araujo Góis e João Fernando Finazzi

O Haiti volta a ser manchete nos maiores jornais do mundo por conta de um novo desastre natural que assola o país. Em 2010, o catastrófico terremoto deixou mais de 200.000 mortos, desalojou em torno de 2 milhões de pessoas (segundo os dados mais recentes, 80.000 continuam em abrigos provisórios) e destruiu boa parte da infraestrutura urbana. Dessa vez, embora seja cedo para dizer ao certo quais serão os resultados da maior tempestade tropical a atingir o Haiti em 50 anos, algumas estimativas já indicam que em torno de 1 milhão de pessoas foram afetadas, incluindo aproximadamente 1000 mortos, feridos, grandes alagamentos, deslizamentos de terra, desmoronamento de casas e assolamento de plantações.

A destruição, no entanto, coloca a possibilidade de outros desdobramentos em evidência: as prováveis respostas da “comunidade internacional” e a já anunciada postergação das eleições presidenciais. A semelhança com o episódio de 2010 permite estimar que o acontecimento poderá servir, de um lado, para o fortalecimento do sistema de ajuda internacional por meio de ONGs em detrimento do Estado haitiano e, de outro, permitir a continuidade da (Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti) Minustah. Continuar lendo

Israel ensina o mundo a reprimir

a127Como a Palestina ocupada foi convertida num laboratório onde se experimentam — em seres humanos — técnicas e dispositivos exportados para dezenas de países

Por Arturo Hartmann e Bruno Huberman

O discurso do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, no último 22 de setembro, como parte da 71ª Assembleia Geral da ONU, expôs a responsabilidade internacional para a manutenção do impasse político à respeito da questão Palestina/Israel. Segundo o líder israelense, está em curso uma mudança profunda na forma das nações ao redor do mundo relacionarem-se com Israel. “Nada menos do que uma grande revolução”, afirmou. “Abaixem suas armas. A guerra contra Israel na ONU acabou. Talvez vocês ainda não saibam, mas eu estou confiante que um dia, em um futuro não tão distante, vocês recebam a mensagem de seus presidentes ou de seus primeiros-ministros informando que a guerra contra Israel nas Nações Unidas tenha acabado”, declarou Netanyahu, possivelmente referindo-se à votação na Assembleia Geral, em 2012, que por 138 votos a favor e 9 contrários reconheceu a Palestina como Estado observador, além das dezenas de resoluções condenatórias das políticas de colonização de Israel nos Territórios Palestinos Ocupados (TPO) desde 1967.

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Nas últimas décadas, as principais nações do mundo assumiram uma posição contraditória perante à questão Palestina/Israel: enquanto declaram-se a favor do processo de paz e da solução de dois Estados, na prática contribuem para o aprofundamento e normalização da colonização israelense dos TPO. Neste processo de construção do Estado palestino, a comunidade internacional tornou-se parceira de Israel na continuada exploração da população e dos territórios palestinos, partilhando os lucros e produtos da indústria israelense de ocupação, assim como provendo os meios para manter a resistência palestina sob controle. Ao nosso ver, a cumplicidade internacional com os crimes em curso nos TPO e a mudança de posição prevista por Netanyahu em seu discurso na ONU são resultado do sucesso de duas políticas israelenses: a reestruturação de poder contida no processo de paz de Oslo e a “diplomacia das armas” que emergiu após o 11 de setembro de 2001.

O processo de paz entre israelenses e palestinos teve início em 1991, quando, por pressão das principais potências internacionais foi realizada a Conferência de Madrid. O mundo estava escandalizado com a violência vista nos TPO durante a Primeira Intifada, que havia começado quatro anos antes, em 1987, e exigia uma solução para o impasse político que já durava décadas.

Havia, aparentemente, um consenso de que a criação de um Estado palestino soberano nos territórios ocupados por Israel na guerra de 1967 seria a melhor solução para a questão palestina. O  processo de paz, definido em seu espírito final em um canal secreto em Oslo, ganhou sua efetividade prática nas negociações mediadas pelos EUA, quando decidiu-se que o Estado palestino seria estabelecido gradualmente. Foi então criada a Autoridade Palestina (AP), que seria responsável por administrar a vida da população palestina — como educação, saúde e segurança pública — em algumas zonas autônomas e desconexas entre si, nos territórios ocupados, denominadas Área A, permeadas por uma área contínua sob o controle direto civil e militar israelense — a Área C. A movimentação da população palestina dentro do território e entre este e Israel seria monitorada por checkpoints (postos militares) — localizados em Área B —, compostos pelas burocracias israelense e da AP. Israel, desta forma, manteve o controle sobre todas as fronteiras dos territórios palestinos, assim como o espaço aéreo e os aquíferos subterrâneos.

Blindados comprados pela PM de São Paulo para reprimir periferias e protestos. Vendidos por Israel, cada um custou R$ 5 milhões, o equivalente a cem casas populares

Blindados comprados pela PM de São Paulo para reprimir periferias e protestos. Vendidos por Israel, cada um custou R$ 5 milhões, o equivalente a cem casas populares

As questões econômicas do acordo foram definidas no Protocolo de Paris, assinado em 1995. O orçamento da Autoridade Palestina seria formado pelo repasse israelense de impostos coletados nestas zonas autônomas palestinas e pela ajuda financeira internacional. A gestão da economia dos TPO seria partilhada com as instituições financeiras internacionais, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Seguindo o receituário neoliberal vigente e impulsionado pelas milionárias doações externas, os TPO experimentaram uma falsa sensação de desenvolvimento econômico. Entre 1995 e 1999, os TPO tiveram um crescimento acumulado do PIB de 82% (Banco Mundial, 2015).

Durante as negociações políticas, entretanto, Israel manteve a colonização dos territórios palestinos. Nos sete anos de Oslo, a população de colonos judeus na Cisjordânia cresceu 91%, chegando a um total de 195 mil nos TPO, excluindo Jerusalém Oriental (GORDON, 2008, p. 193). Após o fracasso das negociações de status final de Camp David, em 2000, seguido pela erupção de uma nova revolta popular palestina, a Segunda Intifada (2000-06), os TPO mergulharam em uma crise política, econômica e social. A insatisfação da população palestina, assim como a responsabilidade para o fracasso do processo de paz, voltaram-se desta vez para a incapaz AP e, por extensão, para a comunidade internacional.

O cientista político israelense Neve Gordon (2008, p. 169-196) observa que o processo de Oslo não foi concebido como uma retirada do poder soberano israelense, mas como uma reorganização deste poder, possibilitando a manutenção da colonização dos territórios palestinos, enquanto que a administração da vida da população ocupada foi terceirizada para a AP. Dentro deste raciocínio, o aumento do número de colonos judeus nos TPO faz todo o sentido. Essa reorganização promovida pelo processo de paz quebrou o contato direto entre a população ocupada e a força ocupante. Durante todas as negociações, o Estado e as corporações israelenses mantiveram o controle militar sobre todo o território palestino, assim como a exploração dos seus recursos naturais, enquanto que a comunidade internacional teve e continua a ter um papel central na sustentação e administração da ocupação israelense mesmo após o fracasso dos acordos de paz.

Desde Oslo, 40 países e 20 agências multilaterais, incluindo agências da ONU, deram a sua contribuição para governança, desenvolvimento e atividades humanitárias nos TPO. A assistência internacional cresceu de 178,74 milhões de dólares, em 1993, para 2,011 bilhões de dólares, em 2009 (TURNER, 2014). Desta forma, os palestinos viram a sua dependência econômica transferida de mãos, passando para a da comunidade doadora internacional (HEVER, 2010). Estes recursos internacionais aumentaram a desigualdade social e a percepção de corrupção na sociedade palestina, além de influenciar na democracia e em instituições políticas e na resistência palestina, ao financiar ONGs que adotam as agendas políticas de seus investidores (FARSAKH, 2009). Como resultado, a economia palestina passou por um processo de deterioração estrutural, inviabilizando qualquer possibilidade de desenvolvimento econômico sustentável no médio e longo prazo. Desde a Segunda Intifada, a economia palestina demonstra uma incapacidade estrutural de desenvolvimento (ROY, 1999). Segundo Hever (2010), a economia israelense também só não entrou em colapso e o governo pode manter as suas intervenções militares nos territórios ocupados durante a revolta palestina dos anos 2000 graças às maciças doações militares dos EUA.

Simultaneamente, os territórios palestinos tornaram-se um importante espaço para o desenvolvimento de mecanismos e tecnologias de segurança, vigilância e controle social, principalmente a partir da explosão da Segunda Intifada, nos TPO, e da Guerra Global ao Terror, após o 11 de setembro de 2001. A capacidade israelense de capitalizar a sua “experiência de laboratório” ao demonstrar estas tecnologias em uso nos conflitos com os palestinos e seus vizinhos árabes se tornou um importante fator de marketing dos produtos israelenses. A aliança próxima entre Israel e os Estados Unidos abriu portas para o mercado global, como os próprios Estados Unidos, o Canadá, a União Europeia, a China, o Brasil, a Índia e até mesmo antigos inimigos, como a Rússia. No centro desta cooperação estavam os novos imperativos da vigilância e controle social: como preventivamente identificar, seguir e destruir guerrilheiros e terroristas que se escondem no meio da multidão. Segundo Graham (2011), estes conhecimentos seriam utilizados tanto em Gaza e Bagdá, como nas ações de contraterrorismo, segurança de fronteira e segurança nacional nos EUA, em Israel e em todo Ocidente. O autor avalia que essa exportação da experiência israelense estaria “palestinizando” diversas regiões do mundo como, por exemplo, o Iraque ocupado pelos EUA. Não é de espantar que os EUA aumentaram a sua ajuda militar a Israel para 3,8 bilhões de dólares neste ano.

Além de impedir que a economia palestina entre em total colapso através das continuadas doações, as principais nações do mundo passaram a se beneficiar das tecnologias de segurança desenvolvidas nos territórios palestinos, partilhando os seus lucros. O ativista e antropólogo israelense Jeff Halper (2015) argumenta que o emprego dos mecanismos e tecnologias israelenses pelas elites nacionais para o controle social e vigilância das suas próprias populações tornou interessante a perpetuação da ocupação israelense dos territórios palestinos. Desta forma, nas últimas décadas, a exportação de armas e outros dispositivos de guerra passou a ocupar uma centralidade cada vez maior na diplomacia israelense. Quando Netanyahu afirma do palanque da ONU que uma nova era para Israel está chegando, é porque sabe que há uma rede que internacional que sustenta e tem interesse na manutenção da ocupação dos territórios palestinos.

Referências Bibliográficas

FARKSAH, Leila. From Domination to Destruction: The Palestinian Economy under the Israeli Occupation. In: OPHIR, Adi; GIVONI, Michal; HANAFI, Sari (Orgs.). The power of inclusive exclusion: anatomy of Israeli rule in the occupied Palestinian territories. New York: Zone Books, 2009. p. 379-404.

GORDON, Neve. Israel’s Occupation. Berkeley: University of California Press, 2008.

       . Israel’ emergence as homeland security capital. In: ZUREIK, Elia; LYON, David; ABU-LABAN, YASMEEN. Surveillance and Control in Israel/Palestine: population, territory, and power. London and New York: Routledge, 2011. p. 153-170

GRAHAM, Stephen. Laboratories of war: surveillance and US-Israeli collaboration in war and security. In: ZUREIK, Elia; LYON, David; ABU-LABAN, YASMEEN. Surveillance and Control in Israel/Palestine: population, territory, and power. London and New York: Routledge, 2011. p. 133-152

HALPER, Jeff. War Against the People: Israel, the Palestinians and Global Pacification. Pluto Press, 2015.

HEVER, Shir. The Political Economy of Israel’s Occupation: Repression Beyond Exploitation. New York: Pluto Press, 2010

ROY, Sara. De-development revisited: Palestinian economy and society since Oslo. Journal of Palestine studies, v. 28, n. 3, p. 64-82, 1999.

TURNER, Mandy. The Political Economy of Western Aid in the Occupied Palestinian Territory Since 1993. In: TURNER, Mandy; SHWEIKI, Omar. Decolonizing Palestinian Political Economy: De-development and Beyond. Springer, 2014.

WORLD BANK. World Bank national accounts data, and OECD National Accounts data files, 2015. Disponível em: < http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.KD.ZG?end=2015&locations=PS&start=1961&view=chart&gt;. Acesso em: 6 de outubro de 2016.

Afeganistão invadido, a capital do ópio

Ópio Agricultores colhem ópio no campo da papoila, no distrito de Zhari, no Afeganistão. Foto: Allauddin Khan / AP

Como os Estados Unidos, a pretexto de lutar contra o Talibã, fortaleceram os “senhores da guerra” tribais e os estimularam a multiplicar por trinta a área de cultivo de papoula

Por Paulo Meirelle

A primeira etapa da guerra ao terror conduzida pelos Estados Unidos, na sequência dos atentados de 11 de setembro de 2001, foi a invasão do Afeganistão, cujo objetivo de longo-prazo era a sua transformação em um Estado democrático. Um dos imperativos dessa missão era colocar fim à capacidade de produção e exportação de drogas daquele país, atividade percebida como corrosiva da economia e das instituições democráticas.

Apesar dessa diretriz, os anos que se seguiram à invasão norte-americana foram aqueles que registraram os maiores índices de produção de ópio da história afegã. Essa contradição é resultado da estratégia adotada pelos Estados Unidos para alcançar outros dois imperativos na busca pela democracia: a derrubada do governo Talibã e a destruição da Al Qaeda. Continuar lendo