E se boicotarmos a Folha de S.Paulo?

Em 5 de novembro de 1969, um dos jornais do grupo "Folha" comemora a morte de Marighella. A mesma atitude, nos golpes de 1964 e 2016

Em 5 de novembro de 1969, um dos jornais do grupo “Folha” comemora a morte de Marighella. A mesma atitude, nos golpes de 1964 e 2016

Para manter-se manipulador, sem se queimar por completo, jornal mantém algum contato com inteligência crítica. Talvez seja hora de negar-lhe este trunfo…

Por Reginaldo Nasser

Creio que desde o inicio da década de oitenta, nos estertores do período ditatorial,  estamos debatendo uma série de questões relacionadas à mídia e democracia. O que é mais angustiante é que após anos de muitas lutas parece que sempre voltamos ao ponto inicial. Atingimos a intensidade máxima desse debate com a participação e ou conivência de boa parte da mídia na arquitetura do Golpe em curso.

Creio que a Folha de S.Paulo foi o primeiro jornal a tentar entrar no novo espirito do momento pelas Diretas Já. Sua primeira grande campanha publicitária lançou o slogan “De rabo preso com o leitor”, construindo a narrativa de que era independente em relação a governos, partidos e ideologias.

Passei a me lembrar disso  após a leitura do contundente texto do colunista da Folha Gregorio Duvivier, “Dona Folha, tá difícil te defender” em que faz uma critica duríssima ao editorial do próprio jornal onde escreve. Destaco o trecho “Quando o Reichstag pegou fogo, os jornais pediram medidas de emergência contra os “baderneiros” em editoriais muito parecidos com o seu. Hitler não teria ganhado terreno sem uma profusão de jornais pedindo “mais repressão aos grupelhos”.

Desnecessário ressaltar as qualidades intelectuais e politicas do multitalentoso Duvivier, mas justamente por isso, creio que vale a pena avaliarmos as táticas politicas que se constroem, sempre pensando em prováveis consequências de nossas ações.  Por exemplo, qual será o resultado politico desse belo texto? A Dona Folha ficará abalada com a critica e mudará sua linha editorial? Ou é mais provável outra hipótese? Que justamente essa atitude de Duviver (embora sua intenção seja o oposto) é o alimento que sustenta a Dona Folha desde anos 80. Pois, isso permite que ela diga aos quatro cantos do mundo que ela é plural e democrática, tal como se expressou, recentemente em Londres, o seu Dono. De forma rude “acusou” a jornalista, que fez critica aos meios de comunicação, de “petista” e encheu o peito para dizer que seu jornal publica Reinaldo Azevedo, Demetrio; mas também Boulos, Safatle e outros. O jornal estimula a presença dos opostos se digladiando para depois aparecer como uma espécie de primus inter pares. Será que o Dono da Folha não deu a dica onde podemos atingi-lo? E se não houver mais articulistas críticos? Será que assim a verdadeira face da Folha não se revelaria de forma mais clara?

Será que não devemos pensar em outras formas de ação? O boicote, por exemplo. Boicote de articulistas, especialistas e, claro, de assinantes. Não tenho nenhuma certeza sobre isso, mas será que não valeria a pena tentar? Creio que com o boicote o jornal que já disse, certa vez, que  tem “rabo preso com leitor” ficará , simplesmente, sem rabo!

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Reginaldo Nasser

Chefe do Departamento de Relações Internacionais da PUC-SP e prof do Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e Puc-SP). Endereço para acessar CV: http://lattes.cnpq.br/0717133384261187

15 ideias sobre “E se boicotarmos a Folha de S.Paulo?

  1. Já faz muitos anos, mas fui seu aluno professor. Menciono esse fato, totalmente sem importância para o senhor, porque hoje, ao acompanhar sua postura, fica extremamente decepcionado. Todos sabem que não o nazismo não foi a força que reprimiu as manifestações contrárias, mas aquela que se valeu do espaço que se dava aos manifestantes, para uma vez no poder, aí sim, reprimir os contrários. Logo, antes de representar um argumento à favor, é um tiro pela culatra que deixa vazar inconscientemente uma certa intenção. Assim como não entendo que alguém que se coloca de forma tão veemente na esquerda precise recorrer a um Gregório Duvidier (não é erro não) como fonte argumentativa. O senhor deveria, já que tem um canal de mídia disponível, fazer análises que explicassem por que estamos vivendo um golpe e não reproduzir os “argumentos” mambembes de quem não sabe nem que a ciência política começa quando se sabe diferenciar o conteúdo da argumentação dos agentes político da análise do cientista. Aliás, bastante decepcionado com uma série de cientistas políticos que foram meus professores e que hoje parecem ignorar essa diferenciação e hoje não fazem mais do que dizer que estamos vivendo um golpe.

      • Não precisa ficar na defensiva, professor. Só estou comentando porque seria muito mais interessante que ao invés de exaltar os dotes intelectuais de um palerma como esse Duvivier, que não deve nem saber diferenciar O Príncipe de O Pequeno Príncipe, o senhor usasse autores como o Carl Schmitt e de fato fizesse uma análise sobre o momento. Ficar nessa de reclamar da mídia, essa conversa de marxista chato não traz nenhum ganho para ninguém e não mostra a sua capacidade como analista, só isso.

        • as um dos maiores problemas do mundo não só do Brasil é o controle da mídia e no caso do Brasil diversas pessoas lá fora estão a criticar isso

          • Eu já iniciei esse boicote, e faz tempo e não só a esse “veiculo” como também a Globo e Veja.
            Alencar Araripe

      • “Prezado. creio que voce não entendeu o texto”

        Esse é realmente um argumento “mambembe”, e claramente indica a falta de racionalidade de sua parte, senhor professor. Não responde em nada ao questionamento do ex-aluno, e ainda nem sabe colocar uma letra maiúscula em começo de frase. Patético.

    • É, realmente, recorrer aos santos da casa nunca foi muito confiável para os brasileiros. Mas, o prof. Reginaldo, o G. Duvidier (e eu, humildemente, claro!), temos, como fonte argumentativa, além de grande parte da imprensa internacional, um bom numero de intelectuais (santos de fora) que defendem a tese de “golpe branco”. Segue adiante, relação de alguns que consegui reunir:
      Massimo Canevacci – Università degli Studi di Roma
      Michel Chossudovsky – Universidade de Ottawa
      Noam Chomsky – Instituto de Tecnologia de Massachusetts
      Gleen Greenwald – repórter do The Guardian
      Albena Azmanova – University of Kent, Belgium
      Alessandro Ferrara – University of Rome Tor Vergata, Italy
      Alina Valjent – Witten/Herdecke University – Germany
      Allan Breedlove –Loyola University Chicago, USA
      Alois Blumentritt – University Wien, Austria
      Amy Allen – Pennsylvania State University – USA
      Anahi Wiedenburg – London School of Economics, Argentina/UK
      Andreas Niederberger – Universität Duisburg-Essen, Germany
      Anna Dißmann – Witten/Herdecke University – Germany
      Arthur Oliveira Bueno –University of Erfurt, Germany
      Asger Sorensen – Aarhus University, Denmark
      Axel Honneth – University of Frankfurt/Columbia University, Germany/USA
      Aysen Candas – Bogazici University, Istanbul, Turkey
      Barbara Fultner – Denison University, USA
      Bernat Riutort Serra – University of Illes Ballears –Spain
      Brian Milstein – Goethe University Frankfurt, USA/Germany
      Carlos Henrique Santana – TU Darmstadt, Germany
      Charles Taylor – Mc Gill University, Canada
      Christopher Zurn – University of Massachussetts/Boston, USA
      Cora McKeena – Trinity College, Ireland
      Cristina Sánchez – Autonomous University of Madrid, Spain
      Dan Swain – Czech University of Life Sciences, Czech Republic
      Daniele Santoro – CNR, National Research Council of Italy, Italy
      David Alvarez – University of Minho/Braga, Portugal
      David Rasmussen – Boston College, USA
      Debora Spini – Syracuse University in Florence, Italy
      Dónal O’Farrell – Trinity College Dublin, Ireland
      Elisabeth v. Thadden – University of Jena, Germany
      Felicia Herrschaft – Goethe University Frankfurt, Germany
      Filip Vostal – Czech Academy of Sciences, Czech Republic
      Firica Stefan – University of Bucharest, Romania
      Francisco Naishtat – Universidad de Buenos Aires –Argentina
      François Calori – Université de Rennes 1, France
      Gesche Keding – Jena University, Germany
      Giulia Lasagni – Università de Parma, Italy
      Giuseppe Ballacci – University of Minho, Portugal
      Gorana Ognjenovich – University of Oslo, Norway
      Gustavo Leyva Martínez – Universidad Autónoma Metropolitana, México
      Hans-Herbert Kögler – University of North Florida, USA
      Hartmut Rosa – Jena University, Germany
      Heikki Ikäheimo – University of New South Wales, Australia
      Igor Shoikhedbrod – University of Toronto, Canada
      Isadora Henrichs – Trinity College Dublin, Ireland
      Italo Testa – Parma University, Italy
      Jazna Jozelic – University of Oslo, Norway
      João Honoreto – University of Witten/Herdecke, Germany
      Joaquín Valdivielso-Navarro – Universitat Illes Balears, Spain
      Johan Söderberg – Göteborg University, Sweden
      Johanna Oksala – University of Helsinki, Finland
      Johannes Schulz – Frankfurt University, Germany
      John Lumsden – University of Essex, UK
      Jonathan Bowman – University of Arkansas, USA
      Julian Culp – University of Frankfurt, Germany
      Jürgen Habermas – J.W. Goethe Universität Frankfurt, Germany
      Karoline Rhein – Witten/Herdecke University – Germany
      Kendralyn Webber –University of California Riverside, USA
      Lenny Moss – University of Exeter, UK
      Leonardo da Hora Pereira – Université Paris Ouest Nanterre La Défense, France
      Lorenz Mrones – University of Witten/Herdecke, Germany
      Luiz Gustavo de Cunha de Souza – Institut für Sozialforschung/Frankfurt –Germany
      Marco Solinas – Florence University, Italy
      Marek Hrubec – Czech Academy of Sciences, Czech Republic
      Maria Ines Bergoglio – Universidad nacional de Córdoba, Argentina
      María José Guerra – Universidad de Laguna –Spain
      María Pía Lara – Universidad Autónoma Metropolitana, Mexico
      Marjan Ivkovic – University of Belgrade, Serbia
      Mark Haugaard – University Galway – Ireland
      Marlon Urizar Natareno, Universidad Rafael Landívar, Guatemala
      Martin Javornicky – University of Galway, Ireland
      Martin Sauter – n/a –Ireland
      Martin Seel – J.W.Goethe Universität Frankfurt, Germany
      Masao Higarashi – Ritsumeikan University –Japan
      Matteo Bianchin – University of Milano, Italy
      Matthias Kettner – University of Witten/Herdecke, Germany
      Matthias Lutz-Bachmann – J.W. Goethe Universität Frankfurt, Germany
      Melis Menent – University of Sussex, UK
      Miriam Mesquita Sampaio de Madureira – Universidad Autónoma Metropolitana, México
      Mykhailo Minakov – Kiev-Mohyla Academy, Ukraine
      Nancy Fraser –New School for Social Research, USA
      Nancy Love –Appalachian State University, USA
      Natalia Frozel Barros –University of Paris 1, France
      Nathan Cogné – Trinity College Dublin, Ireland
      Nicola Patruno – Goethe University Frankfurt, Germany
      Niklas Angebauer – University of Essex, UK
      Odin Lysaker – Agder University, Norway
      Ojvind Larsen – Copenhagen Business School, Denmark
      Onni Hirvonen – University of Jyväskylä, Finland
      Pablo Gilabert – Concordia University, Canada
      Patrick O’Mahonny – University College Cork –Ireland
      Philipp Schink – J.W. Goethe Universität Frankfurt, Germany
      Philippe Sonnet – Université Catholique de Louvain, Belgium
      Pierre Schwarzer – Universität Witten/Herdecke, Germany
      Radu Neculau – University of Windsor, Canada
      Rahel Jaeggi – Humboldt University Berlin, Germany
      Rainer Forst – University of Frankfurt, Germany
      Richard Stahel – University of Constantin the Philosopher in Nitra, Slovak Republic
      Robert Fine – Warwick University, UK
      Robin Celikates – University of Amsterdam, The Netherlands
      Rodrigo Cordero – Universidad Diego Portales –Chile
      Ronan Kaczyznski – Goethe University, Germany
      Rosie Worsdale – University of Essex, UK
      Ruy Fausto – USP/Université de Paris 8, Brazil/France
      Steven L. White – Wayne State University, USA
      Susan L. Foster – UCLA, USA
      Thomas Fossen – Leiden University, The Netherlands
      Valerio Fabbrizi – University of Rome, Tor Vergata, Italy
      Wolfgang Heuer – Freie Universität Berlin, Germany
      Zuzana Uhde – Czech Academy of Sciences, Czech Republic

  2. Sou viciado em jornais. Desde adolescente. É uma droga da qual não consigo me livrar facilmente. Tento sempre. E uma das primeiras vitórias foi deixar de assinar a Falha. A razão: faz anos que saquei que a suposta atitude “progressista” da FSP não passava de ação de marketing. E um dos aspectos essenciais disso era a suposta pluralidade dos colunistas do jornal.
    Ora, uma imprensa decente (minimamente), dá notícias e informações que permitam ao leitor formar sua opinião. Pode – e deve – ter sua opinião. E também admitir pluralidade de colunistas. Mas a manipulação está mais embaixo: Manchetes que distorcem – e deixam que, no final da notícia, algo transpire – é a tática preferida. Ou o ocultamento. As duas cumprem o mesmo papel.
    As postagens online e as capas dos jornais são os cartazes que dizem aos néscios o que o jornal quer afirmar. As notícias, no fim de contas, são irrelevantes.
    Os governos petistas caíram na ilusão de que podiam “comprar” a imprensa mantendo o famoso critério de circulação. Faltou a sabedoria de um Getúlio para achar uma maneira de ter um Samuel Weiner e uma Última Hora, e dormiu-se na ilusão de que a internet supriria isso. Doce ilusão.
    Certamente essa não é a única explicação para a criação e venda do golpe, mas tem um papel relevante, com certeza.
    O Franklin Martins ainda vai ter pesadelos com isso.

  3. Pingback: Campanhas de boicote são ineficientes caso não interessem à população | afalaire

  4. Muito bem, Reginaldo. Precisamos discutir seriamente o papel da mídia no golpe. A rede globo claramente apoiou a convocacao de manifestações de rua, ocultou as manifestações desta semana, desde domingo em SP. O Estadão não colocou fotos, não deu espaço e disse terminou em baderna (ou algo assim). A mídia é uma força política. A conferência nacional de comunicação foi uma das mais complicadas. As empresas de comunicação se retiraram do debate democrático. A mídia é força política e nós a temos atado como canal de informação. É hora de pensarmos diferentemente e sua manifestação traz esta colaboração. A psicologia socio-historica na PUCSP tomou como tema de seu evento e vai ouvir Laurindo Leal (o Lalo) e Marcos Ferreira, ambos do movimento pela democratização da comunicação. Vai lá professor, leve seus alunos e convido aí o Marcelo Gabriel. 05/10 próximo às 9h no tucarena na PUC. A psicologia contribuindo com o debate! Entrada Franca. Só precisa estar disposto a crítica.

  5. Venho aqui, humilde e respeitosamente, dar apenas a minha contribuição enquanto leitor, visto que não sou da área.
    Acredito, sim, que esta iniciativa deva ser levada à frente, que seja mesmo fundamental. Mas não só!

    Noam Chomsky, por exemplo, esclarece (em minha opinião) o papelão bem sujo da mídia enquanto construtora de consensos. E propõe com veemência, dentre outras coisas, a ação de veículos de comunicação de menor porte, locais.

    Outra discussão, estratégica também, que veio aqui de dentro deste espaço (esqueci o autor), há algum tempo atrás, trata da fundamental questão sobre quem irá bancar uma mídia independente… lembrem-se: mídia é negócio!!!

    Enfim, eu modestamente acredito que somente quando juntarmos estas ações (e outras), coordenadamente, alinhadas estrategicamente com o objetivo comum é que lograremos mudanças.
    NOTA: eu já boicoto, faz muito, muito tempo mesmo, a leitura de toda a grande mídia tupiniquim! Infelizmente, ou felizmente talvez, já me basta ver apenas a primeira página e/ou capa de todas elas na banca. Já dá, sinceramente, pra fazer uma boa ideia do que está acontecendo. Até porque tem gente que diz que verdades não foram feitas para serem ditas. Elas costumam estar nas entrelinhas, precisam ser descobertas…

  6. Não devo passar de um grande idiota ao encarar tudo isso de um modo bem mas simples: Tudo de errado no mundo, e está tudo errado nele, provém unicamente do modo desumano de administração pública do qual resulta um por cento da população detendo noventa por cento de toda a riqueza, sendo a grande imprensa integrante do grupinho que equivocadamente pensa estar agindo com sabedoria.

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