Afeganistão invadido, a capital do ópio

Ópio Agricultores colhem ópio no campo da papoila, no distrito de Zhari, no Afeganistão. Foto: Allauddin Khan / AP

Como os Estados Unidos, a pretexto de lutar contra o Talibã, fortaleceram os “senhores da guerra” tribais e os estimularam a multiplicar por trinta a área de cultivo de papoula

Por Paulo Meirelle

A primeira etapa da guerra ao terror conduzida pelos Estados Unidos, na sequência dos atentados de 11 de setembro de 2001, foi a invasão do Afeganistão, cujo objetivo de longo-prazo era a sua transformação em um Estado democrático. Um dos imperativos dessa missão era colocar fim à capacidade de produção e exportação de drogas daquele país, atividade percebida como corrosiva da economia e das instituições democráticas.

Apesar dessa diretriz, os anos que se seguiram à invasão norte-americana foram aqueles que registraram os maiores índices de produção de ópio da história afegã. Essa contradição é resultado da estratégia adotada pelos Estados Unidos para alcançar outros dois imperativos na busca pela democracia: a derrubada do governo Talibã e a destruição da Al Qaeda. Continuar lendo

E se boicotarmos a Folha de S.Paulo?

Em 5 de novembro de 1969, um dos jornais do grupo "Folha" comemora a morte de Marighella. A mesma atitude, nos golpes de 1964 e 2016

Em 5 de novembro de 1969, um dos jornais do grupo “Folha” comemora a morte de Marighella. A mesma atitude, nos golpes de 1964 e 2016

Para manter-se manipulador, sem se queimar por completo, jornal mantém algum contato com inteligência crítica. Talvez seja hora de negar-lhe este trunfo…

Por Reginaldo Nasser

Creio que desde o inicio da década de oitenta, nos estertores do período ditatorial,  estamos debatendo uma série de questões relacionadas à mídia e democracia. O que é mais angustiante é que após anos de muitas lutas parece que sempre voltamos ao ponto inicial. Atingimos a intensidade máxima desse debate com a participação e ou conivência de boa parte da mídia na arquitetura do Golpe em curso.

Creio que a Folha de S.Paulo foi o primeiro jornal a tentar entrar no novo espirito do momento pelas Diretas Já. Sua primeira grande campanha publicitária lançou o slogan “De rabo preso com o leitor”, construindo a narrativa de que era independente em relação a governos, partidos e ideologias.

Passei a me lembrar disso  após a leitura do contundente texto do colunista da Folha Gregorio Duvivier, “Dona Folha, tá difícil te defender” em que faz uma critica duríssima ao editorial do próprio jornal onde escreve. Destaco o trecho “Quando o Reichstag pegou fogo, os jornais pediram medidas de emergência contra os “baderneiros” em editoriais muito parecidos com o seu. Hitler não teria ganhado terreno sem uma profusão de jornais pedindo “mais repressão aos grupelhos”.

Desnecessário ressaltar as qualidades intelectuais e politicas do multitalentoso Duvivier, mas justamente por isso, creio que vale a pena avaliarmos as táticas politicas que se constroem, sempre pensando em prováveis consequências de nossas ações.  Por exemplo, qual será o resultado politico desse belo texto? A Dona Folha ficará abalada com a critica e mudará sua linha editorial? Ou é mais provável outra hipótese? Que justamente essa atitude de Duviver (embora sua intenção seja o oposto) é o alimento que sustenta a Dona Folha desde anos 80. Pois, isso permite que ela diga aos quatro cantos do mundo que ela é plural e democrática, tal como se expressou, recentemente em Londres, o seu Dono. De forma rude “acusou” a jornalista, que fez critica aos meios de comunicação, de “petista” e encheu o peito para dizer que seu jornal publica Reinaldo Azevedo, Demetrio; mas também Boulos, Safatle e outros. O jornal estimula a presença dos opostos se digladiando para depois aparecer como uma espécie de primus inter pares. Será que o Dono da Folha não deu a dica onde podemos atingi-lo? E se não houver mais articulistas críticos? Será que assim a verdadeira face da Folha não se revelaria de forma mais clara?

Será que não devemos pensar em outras formas de ação? O boicote, por exemplo. Boicote de articulistas, especialistas e, claro, de assinantes. Não tenho nenhuma certeza sobre isso, mas será que não valeria a pena tentar? Creio que com o boicote o jornal que já disse, certa vez, que  tem “rabo preso com leitor” ficará , simplesmente, sem rabo!