Sudão do Sul: mais uma guerra esquecida na África (II)

O único meio de proteção contra o bombardeio sudanês é dentro das cavernas dos Montes Nuba (Do More Canada)

O único abrigo contra o bombardeio sudanês são as cavernas dos Montes Nuba (Do More Canada)

Empobrecido e dizimado, país vive sua terceira guerra civil em quarenta anos. Agora, em fase aguda do conflito, exércitos têm como alvo central a população civil e as colheitas

Por Vinicius Gomes Melo

Em 2011, o mundo ganhou um novo país. Após um referendo aprovar a divisão do Sudão, nascia o Sudão do Sul. O futuro parecia radiante e promissor. A independência finalmente chegava após duas milhões de pessoas mortas e duas guerras civis, que totalizavam 38 anos de conflito. Porém, uma terceira guerra civil espreitava o maior país da África.

Quando a contagem se encerrou contabilizando 99% de votos pela independência e as fronteiras entre Norte e Sul foram desenhadas, duas regiões acabaram ficando do lado “errado” do mapa.

As províncias do Cordofão do Sul e Nilo Azul estão localizadas na região dos Montes Nuba – exatamente no enclave entre Sudão e o Sudão do Sul – e apesar de ambas também terem lutado junto ao Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA, sigla em inglês) contra o regime em Cartum, elas foram deixadas para trás quando o novo país foi formado.

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Sudão do Sul: mais uma guerra esquecida na África (I)

(Albert Gonzalez Farran/Agence France-Press /Getty Images)

(Albert Gonzalez Farran/Agence France-Press /Getty Images)

Cinco anos após “independência”, país está mergulhado num conflito tão selvagem quanto ignorado pelo mundo. Washington, que instigou a secessão, agora cruza os braços

Por Vinicius Gomes Melo

“Às vezes, os Estados Unidos levam caos a outro país
atirando bombas ou invadindo.
No Sudão do Sul, nós fizemos diferente”
Stephen Kinzer, Boston Globe

Na noite de 8 de julho, um dia antes do quinto aniversário de independência do Sudão do Sul, um confronto armado deixou 273 cadáveres estendidos na rua em frente ao parlamento, na capital Juba. A intensa troca de tiros aconteceu entre a guarda presidencial do governante do país, Salva Kiir, e seus oposicionistas comandados pelo ex-vice-presidente Riek Machar.

Ambos estavam dentro do prédio parlamentar negociando mais um cessar-fogo quando irrompeu este novo episódio de violência que já tornou-se rotina na vida do país, desde que a disputa política entre os dois, desde 2013, degenerou numa guera total que, segundo a porta-voz da missão da ONU no país, já tirou a vida de mais 50 mil pessoas, transformou quase 2,5 milhões de habitantes em desabrigados e deixou o já paupérrimo país à beira da fome generalizada. Economicamente, o conflito fez com que a inflação disparasse em quase 300% e a moeda local tivesse uma desvalorização de 90%, em 2016, praticamente colapsando a indústria do petróleo, que representa quase que toda a renda do Sudão do Sul.

A esse cenário caótico, somam-se elementos que tornam o conflito no Sudão do Sul particularmente cruel. De acordo com investigadores da União Africana, a descoberta de inúmeras valas coletivas forneceram as provas de atrocidades cometidas por ambos os lados do conflito. Continuar lendo