O que será do Curdistão?

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Menos de um mês depois de os curdos expressaram seu desejo de independência em relação ao Iraque, sonho de um país próprio encontra-se muito mais longe. Um erro de cálculo monumental levou ao fracasso

Por Vinicius Gomes Melo

No último domingo de setembro, o roxo na ponta do dedo indicador – ao lado da bandeira de listras verde, branco e vermelho, com o alegre sol amarelo em seu centro – era o maior sinal de orgulho para a população curda dentro Iraque. A marca demonstrava que seu portador tinha acabado de participar do plebiscito para a independência da Região Autônoma Curda, ou Curdistão iraquiano.

Nesse dia, enquanto muito da atenção internacional esteve voltada à Catalunha, que também consultava sua população em um referendo sobre a independência, cerca de 92% das três milhões de pessoas que compareceram aos postos eleitorais votaram a favor da indepedência. Ainda que o plebiscito fosse apenas uma consulta de opinião, sem poder jurídico automático, a quase unanimidade na pleito evidenciou que os curdos, não apenas no Iraque, mas na Síria, na Turquia e no Irã ainda desejam ter seu próprio país. Numa cruel ironia, aquele dia marcou o momento em que a esperança para um Curdistão independente ficou ainda mais longe. Continuar lendo

Trump, o bufão isolado

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Em novo sinal do declínio dos EUA, presidente ameaça romper acordo nuclear com Irã e é rechaçado por seus próprios aliados europeus. Gesto alimenta linha dura de Teerã

Por Vinícius Gomes Melo

Nesse final de semana, Donald Trump oficializou aquilo vinha ensaiando nas últimas semanas: ele sabotou o acordo nuclear com o Irã. Ao decidir unilateralmente por sua não-certificação, o presidente norte-americano conseguiu, numa só tacada, antagonizar aliados, fortalecer a ala linha-dura dentro do Irã e destruir a credibilidade dos EUA perante o mundo – e de quebra, envolver o planeta em mais uma complexa crise nuclear, afinal, só a Coreia do Norte não bastava.

O acordo negociado com o Irã impôs rígidos limites ao programa nuclear do país, em troca, a comunidade internacional cessou uma série de sanções econômicas. Desde então, a cada 90 dias, os EUA têm que confirmar que Teerã tem se mantido dentro do acordo para as sanções continuarem suspensas.
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(P)Ilhas de Lixo: o nascimento de um país

Em novo esforço para despertar consciência ambiental, movimento pleiteia o direito de transformar em país uma pilha de lixo do tamanho da França, que flutua no Oceano Pacífico

Por Vinicius Gomes Melo

Al Gore. Ex-vice-e-ex-futuro-presidente dos Estados Unidos é o primeiro cidadão reconhecido das Trash Isles, ou Ilhas de Lixo, ou (P)ilhas de Lixo (nunca um trocadilho foi tão fácil de fazer numa tradução para português).

No mínimo, ele é o primeiro com passaporte entre as mais de 100 mil pessoas que subscreveram seu desejo de receber a cidadania da pilha de lixo do tamanho da França que boia no Pacífico Norte, próximo ao Havaí. Continuar lendo

Como o Brasil alimenta as guerras globais

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País já é o quarto exportador mundial de armamento leve — o que mais mata. Entre os clientes, Arábia Saudita, que promove agressão brutal contra o Iêmen

Robert Muggah, entrevistado por Vinicius Gomes Melo

No dia de 5 de dezembro de 2016, durante uma reunião na Assembleia-Geral das Nações Unidas, cerca de 180 países aprovaram a implementação da Conveção sobre Munições Cluster (CCM, sigla em inglês), que proíbe a produção, estocagem e venda desse tipo de armamento. As munições cluster carregam dezenas ou centenas de submunições explosivas. Após o lançamento, elas se abrem no ar, espalhando os explosivos sobre uma ampla área de impacto. Dada sua natureza, essa arma não distingue civis de militares. Mais de cem países já assinaram o tratado de 2008; o Brasil não é um deles.

Ao seu lado, estão o governo do Iêmen, a Arábia Saudita, Egito, Bahrein, Sudão, Qatar e Emirados Árabes – países que não são conhecidos por seu respeito aos direitos humanos – além dos tradicionais Estados Unidos, Rússia e China. 

Uma pergunta honesta a ser feita, caso alguém se desse ao trabalho de conectar os pontos, seria: “Por que o Brasil, notório defensor da resolução não-violenta e diplomática de conflitos internacionais, fica na contramão do mundo ao não apoiar um tratado que, em última instância, visa extinguir os danos humanitários e o sofrimento de população em zonas de conflito?”. Numa cruel ironia, a resposta para essa possível pergunta viria menos de 24 horas depois.  Continuar lendo

E se Donald Trump cair?

pencePerfil de Mike Pence, o homem que assumiria a Casa Branca. Ele é tão contrário aos direitos humanos como o presidente — e muito mais ligado ao establishment político e à indústria de armamentos

Por Vinicius Gomes Melo

Pneumonia, ataque cardíaco, hemorragia cerebral, gastroenterite aguda, renúncia e assassinatos (quatro, no total) do governante eleito. Essas foram as causas que levaram nove vice-presidentes dos Estados Unidos ao posto de líder do país. Uma taxa de quase 20%. Em tempos de impeachment, nunca é demais considerar esse cenário.

E se as orações de um significativo número de pessoas nos EUA, e ao redor do mundo, fossem atendidas e Donald Trump se tornasse o décimo norte-americano a não terminar sua presidência? Continuar lendo

Algo estranho na “terra da liberdade”

Amy Goodman, no programa de TV e rádio "Democracy Now"

Amy Goodman, no programa de TV e rádio “Democracy Now”: ameaçada de prisão

EUA mantêm presos dezenas de “protetores” que lutam pacificamente contra oleoduto em terras indígenas. Promotor tenta encarcerar jornalistas por defenderem os que se manifestam

Por Vinicius Gomes Melo

Ainda era uma madrugada fria dessa segunda-feira na Dakota do Norte, estado norte-americano que faz fronteira com o Canadá, quando a jornalista Amy Goodman, principal voz e rosto do Democracy Now!, começou sua reportagem:

“Estamos transmitindo ao vivo de Manda, Dakota do Norte, de frente a corte do condado de Morton, onde várias pessoas aparecerão hoje para enfrentar acusações relacionadas às manifestações de resistência à construção do oleoduto de 3,8 bilhões de dólares da Dakota Access. Dezenas de pessoas que se autodenominam protetoras, e não manifestantes, foram presas nos últimos meses por fazerem oposição à construção do oleoduto […] O condado de Morton também expediu um mandado de prisão para mim, em 8 de setembro, cinco dias depois de o Democracy Now! reportar em vídeo, os guardas da empresa de segurança do oleoduto agredirem fisicamente os protetores pacíficos, em sua maioria nativo-americanos, atacando-os com spray de pimenta e com cachorros. Um deles foi visto com sangue pingando de seu focinho e boca”.

A jornalista encerrou sua transmissão dizendo que compareceria à corte e desafiaria a acusação. O caso Dakota do Norte v.s. Amy Goodman baseia-se na cobertura que o site Democracy Now! fez sobre os protestos contra o oleoduto, em 3 de setembro, e o consequente ataque dos seguranças contratados pela companhia proprietária do oleoduto contra os manifestantes pacíficos. Continuar lendo

Sudão do Sul: mais uma guerra esquecida na África (II)

O único meio de proteção contra o bombardeio sudanês é dentro das cavernas dos Montes Nuba (Do More Canada)

O único abrigo contra o bombardeio sudanês são as cavernas dos Montes Nuba (Do More Canada)

Empobrecido e dizimado, país vive sua terceira guerra civil em quarenta anos. Agora, em fase aguda do conflito, exércitos têm como alvo central a população civil e as colheitas

Por Vinicius Gomes Melo

Em 2011, o mundo ganhou um novo país. Após um referendo aprovar a divisão do Sudão, nascia o Sudão do Sul. O futuro parecia radiante e promissor. A independência finalmente chegava após duas milhões de pessoas mortas e duas guerras civis, que totalizavam 38 anos de conflito. Porém, uma terceira guerra civil espreitava o maior país da África.

Quando a contagem se encerrou contabilizando 99% de votos pela independência e as fronteiras entre Norte e Sul foram desenhadas, duas regiões acabaram ficando do lado “errado” do mapa.

As províncias do Cordofão do Sul e Nilo Azul estão localizadas na região dos Montes Nuba – exatamente no enclave entre Sudão e o Sudão do Sul – e apesar de ambas também terem lutado junto ao Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA, sigla em inglês) contra o regime em Cartum, elas foram deixadas para trás quando o novo país foi formado.

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Sudão do Sul: mais uma guerra esquecida na África (I)

(Albert Gonzalez Farran/Agence France-Press /Getty Images)

(Albert Gonzalez Farran/Agence France-Press /Getty Images)

Cinco anos após “independência”, país está mergulhado num conflito tão selvagem quanto ignorado pelo mundo. Washington, que instigou a secessão, agora cruza os braços

Por Vinicius Gomes Melo

“Às vezes, os Estados Unidos levam caos a outro país
atirando bombas ou invadindo.
No Sudão do Sul, nós fizemos diferente”
Stephen Kinzer, Boston Globe

Na noite de 8 de julho, um dia antes do quinto aniversário de independência do Sudão do Sul, um confronto armado deixou 273 cadáveres estendidos na rua em frente ao parlamento, na capital Juba. A intensa troca de tiros aconteceu entre a guarda presidencial do governante do país, Salva Kiir, e seus oposicionistas comandados pelo ex-vice-presidente Riek Machar.

Ambos estavam dentro do prédio parlamentar negociando mais um cessar-fogo quando irrompeu este novo episódio de violência que já tornou-se rotina na vida do país, desde que a disputa política entre os dois, desde 2013, degenerou numa guera total que, segundo a porta-voz da missão da ONU no país, já tirou a vida de mais 50 mil pessoas, transformou quase 2,5 milhões de habitantes em desabrigados e deixou o já paupérrimo país à beira da fome generalizada. Economicamente, o conflito fez com que a inflação disparasse em quase 300% e a moeda local tivesse uma desvalorização de 90%, em 2016, praticamente colapsando a indústria do petróleo, que representa quase que toda a renda do Sudão do Sul.

A esse cenário caótico, somam-se elementos que tornam o conflito no Sudão do Sul particularmente cruel. De acordo com investigadores da União Africana, a descoberta de inúmeras valas coletivas forneceram as provas de atrocidades cometidas por ambos os lados do conflito. Continuar lendo

O justiceiro do Sul da Ásia

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Rodrigo Duterte, eleito em maio de 2016, ficará no cargo até 2021

Presidente das Filipinas mergulha país em sangue, ao estimular liquidação sumária de supostos criminosos. Washington faz vistas grossas, para cultivar um aliado contra a China

Por Vinicius Gomes Melo

Bandido bom é bandido morto”; “Tá com dó, leva pra casa”, “Direitos Humanos para humanos direitos”. Em 2014, frases de efeito tão perversas como essas tomaram as redes sociais, após a divulgação da foto de um adolescente negro não-identificado, preso pelo pescoço com uma tranca de bicicleta e no Brasil. A situação dividiu opiniões: de um lado, o grupo que entoava os motes acima; de outro, o grupo que entendia que justiçamento está bem longe de ser considerado justiça verdadeira.

A onda de vigilantismo que logo se instaurou no país foi minguando aos poucos – ou pelos menos, essas ações passaram a ser menos compartilhadas na rede. Porém, a chama do olho por olho continua acesa no íntimo de muitas pessoas.

Muitas delas provavelmente não saibam, mas um homem chamado Rodrigo Duterte compartilha da mesma crença delas, em especial no que diz respeito a traficantes de drogas. Em sua visão, a morte é o único destino para quem se envolve com o crime – ou no caso das Filipinas, para quem supostamente se envolve com o crime. Continuar lendo

Uma alternativa nas eleições dos Estados Unidos?

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Diante da xenofobia de Trump e da agressividade imperial de Hillary, parte dos apoiadores de Bernie Sanders vê saída em Jill Stein — candidata da esquerda verde. Mas quem é ela e o que propõe?

Por Vinicius Gomes Melo

No momento em que a Convenção Nacional Democrata anunciou oficialmente que Hillary Clinton seria a representante do partido na corrida presidencial de 2016, é possível imaginar que dezenas de milhões de apoiadores e apoiadoras de Bernie Sanders olhando para os lados e perguntando-se “e agora?”.

Foi quando depararam-se com a escolha que tanto temiam — ter de votar em Hillary Clinton — que uma alternativa mostrou-se mais clara: Jill Stein, do Partido Verde.

No dia seguinte à nomeação da primeira mulher a concorrer pela Casa Branca por um dos dois grandes partidos do país, Stein estava nos metrôs da Filadelfia rodeada por pessoas que faziam fila para conversar e tirar selfies com a candidata.

As comportas se abriram. Eu me sinto quase uma assistente social conversando com os apoiadores de Bernie”, dizia Stein a uma repórter que testemunhava tudo. “Seus corações estão partidos. Todos sentem que foram violados e enganados, em grande parte pelo Partido Democrata”.

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