Trump, o bufão isolado

trump iran

Em novo sinal do declínio dos EUA, presidente ameaça romper acordo nuclear com Irã e é rechaçado por seus próprios aliados europeus. Gesto alimenta linha dura de Teerã

Por Vinícius Gomes Melo

Nesse final de semana, Donald Trump oficializou aquilo vinha ensaiando nas últimas semanas: ele sabotou o acordo nuclear com o Irã. Ao decidir unilateralmente por sua não-certificação, o presidente norte-americano conseguiu, numa só tacada, antagonizar aliados, fortalecer a ala linha-dura dentro do Irã e destruir a credibilidade dos EUA perante o mundo – e de quebra, envolver o planeta em mais uma complexa crise nuclear, afinal, só a Coreia do Norte não bastava.

O acordo negociado com o Irã impôs rígidos limites ao programa nuclear do país, em troca, a comunidade internacional cessou uma série de sanções econômicas. Desde então, a cada 90 dias, os EUA têm que confirmar que Teerã tem se mantido dentro do acordo para as sanções continuarem suspensas.

Apesar do que prometera não fazer durante toda sua campanha presidencial, Trump certificou o acordo duas vezes desde que assumira a Casa Branca. Mas como lê-se num texto publicado no Haaretz, “tentar entender as maquinações labirínticas e as razões por trás de qualquer ação de Trump é uma causa perdida”.

A sugestão que fica, no entanto, é que a não-certificação funcione como uma espécie de meio-termo. Conforme o prazo para a decisão de Trump se aproximava, a imprensa estrangeira divulgou que havia uma quase unanimidade entre seus conselheiros diplomáticos e militares para que Trump não destruísse o acordo – até mesmo o belicoso ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak o fez em nota para o New York Times.

Com a decisão presidencial, o Congresso norte-americano tem até 60 dias para decidir se os EUA resumirão suas sanções contra o Irã ou não. Todavia, em termos práticos, a não-certificação não invalida o acordo, exatamente por este não ser um tratado formal, apenas um compromisso político não-obrigatório.

No entanto, ao posicionar-se contra dessa maneira, bem não faz.

Além dos EUA, o acordo nuclear compreende Rússia, Reino Unido, China, Alemanha, França, a União Europeia e, claro, o Irã. Todos estes signatários já reafirmaram sua posição de defesa do compromisso. Numa declaração conjunta, a primeira-ministra britânica Theresa May, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês Emmanuel Macron pediram que Trump e o Congresso considerassem as possíveis consequências para a segurança do Ocidente. E, conforme Federica Mogherini, a Alta Representante para política externa da União Europeia, lembrou ao presidente-magnata que este “não é um acordo bilateral. Ele não pertence a único país e não cabe a um único país terminá-lo ou não”.

Ou seja, se por fim, o Congresso decidir por reinstaurar sanções econômicas ao Irã, as outras partes poderão manter-se no acordo, ainda que o Irã peça por renegociações para compensar o prejuízo financeiro imposto pelos EUA.

Ao que tudo indica, entre os únicos que comemoraram a decisão de Trump estão o governo israelenese de Benjamin Netanyahu e os linhas-dura dentro do Irã.

O outro lado

À época em que Trump mantinha o suspense sobre a certificação ou não do acordo nuclear com o Irã – como se a prevenção de uma complexa crise nuclear e um novo foco de instabilidade no Oriente Médio fosse parte de um programa de reality-show – o presidente iraniano Hassan Rouhani afirmava, sem entrar em detalhes, que os Estados Unidos pagariam um alto preço se abandonarem o acordo. Em outras oportunidades, ele já dissera que o Irã poderia retomar suas atividades nucleares em questão de horas.

Poucas horas depois de Trump anunciar a não-certificação, Rouhani seguiu por uma linha menos exagerada, fazendo eco às palavras de Federica Mogherini, o presidente iraniano disse que este não é um acordo bilateral firmado apenas entre o Irã e os EUA. “Ele não estudou o direito internacional?”, perguntou Rouhani, certamente sem esperar uma resposta séria para isso.

À parte de ironias e exercícios de extremo otimismo, a realidade é que a decisão de Trump pode ter consequências imprevistas (ou não) do que acontece dentro do Irã. Poucos dias antes do fato se consumar, o presidente do National Iranian American Council, Trita Parsi, escreveu no New York Review of Books, que a não-certificação fortaleceria as vozes dentro do Irã que sempre se opuseram ao acordo nuclear. “Essa ajuda para os linhas-dura no Irã não poderia ter vindo em hora melhor”, afirmou.

Para Parsi, tais elementos sempre acreditaram que o acordo nuclear se tornaria um trampolim que os EUA voltassem a restabelecer sua presença na economia iraniana. “Eventualmente, eles temiam que a presença norte-ameriana dentro do Irã mudasse a balança de poder contra os conservadores e a favor das facções mais moderadas”.

Para Muhammad Sahimi, professor na University of Southern California e comentarista para assuntos de seu país natal e do Oriente Médio, estes linhas-dura fariam parte do “Estado profundo iraniano”.

O professor afirma que no Irã, tal qual em muitos outros países, existem forças que agem no bastidores, fora do alcance de visão da opinião pública e que possuem um enorme poder nos rumos dos países. No caso iraniano, não é de hoje que tais forças ocultas estejam descontentes com o governo de Rouhani, especialmente com o acordo nuclear, por acreditarem que o Irã abriu mão de muito, recebendo pouco em troca.

“Ao mesmo tempo, tais indivíduos ganhavam muito com a sanção à economia iraniana imposta pels EUA e seus aliados, pois dessa maneira eles podiam controlar os mercados paralelos da importação/extportação do país”. Segundo Sahimi, estima-se tal controle podia chegar até 90%. Ironicamente, para os elementos mais radicais no Irã, o presidente norte-americano parece ser um valoroso aliado. Ao decidir pela não-certificação – indo na direção contrária do que o mundo deseja – tudo que Trump consegue é isolar os EUA e dar força justamente àqueles que podem trazer mais instabilidade à região.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *