E se Donald Trump cair?

pencePerfil de Mike Pence, o homem que assumiria a Casa Branca. Ele é tão contrário aos direitos humanos como o presidente — e muito mais ligado ao establishment político e à indústria de armamentos

Por Vinicius Gomes Melo

Pneumonia, ataque cardíaco, hemorragia cerebral, gastroenterite aguda, renúncia e assassinatos (quatro, no total) do governante eleito. Essas foram as causas que levaram nove vice-presidentes dos Estados Unidos ao posto de líder do país. Uma taxa de quase 20%. Em tempos de impeachment, nunca é demais considerar esse cenário.

E se as orações de um significativo número de pessoas nos EUA, e ao redor do mundo, fossem atendidas e Donald Trump se tornasse o décimo norte-americano a não terminar sua presidência?

Bem, o mundo seria formalmente apresentado a Mike Pence, que, em suas palavras, é “um cristão, um conservador e um republicano, nessa ordem”. De fato, Pence segue à risca o manual da ala ultraconservadora do partido. Ele rejeita os direitos reprodutivos das mulheres, rejeita os direitos de homoafetivos, rejeita a mudança climática e rejeita até mesmo os malefícios do cigarro. Apesar da histeria da classe política e da mídia, o cigarro não mata”, afirmou Pence.

De certa maneira, o vice-presidente norte-americano também rejeita suas origens. Tendo herdado o nome de seu avô, um imigrante irlandês, o posicionamento de Pence sobre a questão da imigração segue a do seu chefe. Enquanto governador, ele tentou bloquear a chegada de uma família de refugiados sírios que já estavam à caminho de Indiana.

Pence iniciou sua carreira política aos 29 anos, em 1988, quando concorreu ao Congresso. Chamou a atenção por fazer campanha pedalando uma bicicleta, percorrendo mais de 400km para conversar com eleitores. Perdeu, mas por ter se saído muito melhor do que as expectativas, ninguém duvidada que em dois anos ele iria à revanche.

A eleição para o Congresso de 1990 é, até hoje, considerada uma das sujas na história de Indiana – que incluiu Pence convocando voluntários para ligar à eleitores dizendo que Phil Sharp, o adversário democrata, iria vender suas propriedades para virarem aterros de lixo nuclear e também gravar uma propaganda com um ator vestido como um sheik (reza a lenda que o ator era o próprio Mike Pence) sugerindo que Sharp havia sido comprado pelo petrodólares árabes. Pence perdeu novamente.

Demoraria ainda alguns anos até que voltasse à cena política de Indiana; mas quando retornou, seu tom era ainda mais conservador que o usual. O ano era 2000. Em campanha, Pence era favor de corte de impostos (uma regra para qualquer candidato republicano) ao mesmo tempo em que defendia o aumento dos gastos militares. Segundo um perfil da Rolling Stone, escrito por Stephen Rodrick, Pence, já eleito, “deixou claro que ele era um guerreiro cristão, afirmando que o ‘Congresso deveria se opor a qualquer tentativa de se reconhecer homossexuais como uma minoria que tinha direito à proteção com leis anti-discriminatórias’. Também afirmou que as leis que garantiam recursos a  pessoas com Aids deveriam favorecer apenas as instituições que fornessem assistência para mudança do comportamento sexual – o que muitos grupos ativistas LGBT entenderam como ‘terapia de conversão’. Além disso, em 2006, Pence foi a favor de uma emenda constitucional reconhecendo o casamento apenas quando entre homem e mulher, argumentando que ‘o colapso da sociedade sempre acontece após a deterioração do casamento e da família’”.

A matéria também afirma que Pence lutou contra os direitos reprodutivos da mulher “com um raro vigor, até mesmo para os padrões da direita”. “A morte de uma mulher após ter tomado uma pílula abortiva levou Pence ao plenário da Casa dos Representantes, onde ele discursou a favor da Lex Cornélia, um conjunto de leis da Roma Antiga, que incluía uma lei específica que condenava ao trabalho forçado àqueles que auxiliavam na prática do aborto”.

Seus posicionamentos eram tão radicais que ele não conseguiu transformar em lei absolutamente nenhuma de suas propostas. Entretanto, quando decidiu concorrer ao governo do Estado, Pence afirmou que sua campanha deveria ser sobre emprego e educação, e assim aconteceu. “Pence realizou uma campanha incrivelmente disciplinada”, afirmou um jornal local, após sua vitória por 49% dos votos.

Um tigre nunca perde suas listras

Em 2015, enquanto a legalização do casamento homossexual pela Suprema Corte ficava cada vez mais próxima, seu governo aprovou a Lei de Restauração da Liberdade Religiosa, que permitia a  um comerciante em Indiana agir de maneira discriminatória contra clientes homossexuais. Aos seus detratores, Pence afirmou que “a lei não era anti-gay, apenas pró-liberdade religiosa”.

Ele também voltou sua artilharia contra as mulheres, ao sancionar uma das leis anti-aborto mai rígidas do país. O conteúdo, segundo a matéria de Rodrick, “inclui a proibição de uma mulher abortar um feto que tenha danos cromossômicos que o condenem à morte; exigir um enterro do feto; e uma cláusula que possibilita que médicos que realizem esses procedimentos sejam denunciados por homicídio culposo”.

Após a aprovação da lei, nasceu em Indiana um movimento chamado “Periods for Pence” (Menstruações para Pence), onde as mulheres, através de telefonemas e das redes sociais, avisavam o governador sobre o status de seus ciclos menstruais, demonstrando o quão intrusiva a lei era para elas.

Apesar de muitos terem se surpreendido com a escolha de Donald Trump para seu vice – considerando seu histórico como parlamentar e governador – aquilo fazia sentido: “A escolha de Pence era um movimento explícito de Trump para ter a direita cristã ao seu lado”, sugeriu Rodrick. “Ao que parece, Pence terá enorme influência nas questões sociais do governo Trump, como o corte nos direitos para o aborto e manter a comunidade LGBT em seu devido lugar”. 

Por isso, o jornalista Jeremy Scahill apontou que Trump é vacilante em diversas questões, mas Pence sempre foi um confiável partidário do “jihad cristão”, sugerindo que a veia militarista do América-em-primeiro-lugar não será deixada de lado.

Ele apoiou tornar o Patrioct Act permamente e quer proibir a queima da bandeira dos EUA. Pence acha que as agências federais não devem seguir a lei estabelecida em 1978 para conduzir vigilância doméstica contra estrangeiros e votou contra a necessidade de qualquer mandato judicial para escutas telefônicas […] e também apoiou ceder imunidade retroativa às empresas de telecomunicações envolvidas em vigilância ilegal. Ele não quer supervisão do Congresso nos interrogatórios conduzidos pela CIA e, apesar de concordar com a ilegalidade da tortura, afirmou que o “interrogatório aprimorado” já salvou vidas. Pence também é contra medidas de proteção à whistleblowers que revelem crimes e más condutas”. Entre outras coisas em que Pence acredita estão: manter prisioneiros na Baía de Guantánamo, “isolar economicamente” o Irã e claro, caçar e destruir os inimigos dos EUA onde quer que estejam.

Scahill também aponta outra ligação suspeita do vice-presidente: Erik Prince, fundador da Academi, antiga Blackwater, a principal empresa militar privada norte-americana nas guerras da Era Bush. “Mas essa relação não foi formada apenas na guerras”, afirma Scahill. “Prince e sua mãe Elsa estão entre os maiores financiadores de iniciativas contra o casamento homossexual ao redor dos EUA e tiveram um papel chave no financiamento para os esforços de criminalização do aborto”.

Levando em conta os “quase 20%” na taxa de promoção de emprego – e considerando que o presidente é Donald Trump, o palco central estará sempre aberto ao possível 48º vice-presidente dos Estados Unidos.

Não esperemos pelo melhor.

 

Uma ideia sobre “E se Donald Trump cair?

  1. Depois dessa, o Trump poderia dizer aos seus opositores; “Vocês querem que eu, o Tenor, saia de cena…?”. Então, esperem pelo Barítono – meu vice….”

    Jonas Nunes dos Santos

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