O justiceiro do Sul da Ásia

160819-Duterte

Rodrigo Duterte, eleito em maio de 2016, ficará no cargo até 2021

Presidente das Filipinas mergulha país em sangue, ao estimular liquidação sumária de supostos criminosos. Washington faz vistas grossas, para cultivar um aliado contra a China

Por Vinicius Gomes Melo

Bandido bom é bandido morto”; “Tá com dó, leva pra casa”, “Direitos Humanos para humanos direitos”. Em 2014, frases de efeito tão perversas como essas tomaram as redes sociais, após a divulgação da foto de um adolescente negro não-identificado, preso pelo pescoço com uma tranca de bicicleta e no Brasil. A situação dividiu opiniões: de um lado, o grupo que entoava os motes acima; de outro, o grupo que entendia que justiçamento está bem longe de ser considerado justiça verdadeira.

A onda de vigilantismo que logo se instaurou no país foi minguando aos poucos – ou pelos menos, essas ações passaram a ser menos compartilhadas na rede. Porém, a chama do olho por olho continua acesa no íntimo de muitas pessoas.

Muitas delas provavelmente não saibam, mas um homem chamado Rodrigo Duterte compartilha da mesma crença delas, em especial no que diz respeito a traficantes de drogas. Em sua visão, a morte é o único destino para quem se envolve com o crime – ou no caso das Filipinas, para quem supostamente se envolve com o crime.

Jennelyn Olaires, 26, segura seu marido, Michael Siaron. Segundo a polícia, ele foi morto por um grupo de justiceiros. No papelão ao lado de seu corpo lê-se: “Pusher Ako” - " eu sou um viciado em drogas" (Raffy Lerma/Inquirer)

Jennelyn Olaires, 26, segura seu marido, Michael Siaron. Segundo a polícia, ele foi morto por um grupo de justiceiros. No papelão ao lado de seu corpo lê-se: “Pusher Ako” – ” eu sou um viciado em drogas” (Raffy Lerma/Inquirer)

Duterte é o atual presidente das Filipinas. Desconhecido por boa parte do mundo, ele conseguiu ser eleito (de lavada) fazendo uma campanha de clara e cristalina intolerância ao crime. No dia da posse, afirmou seu “compromisso intransigente” para com o devido processo da lei. Mas deu autorização para que policiais “cumprissem seu dever” sem medo de retaliações (leia-se: matar sem reservas qualquer pessoa que possa estar envolvida com o crime) e convocou de cidadãos e cidadãs a fazer o mesmo — num ato de desprezo aos fundamentos dos direitos humanos, da democracia e das próprias leis de seu país. “Mate-os e eu lhe darei uma medalha”, ele chegou a dizer.

Não deposite esperanças em padres e grupos de direitos humanos. Eles não podem evitar a morte”, afirmou Duterte. Outras frases de efeito também envolveram afirmações de que em seis meses, 100 mil pessoas morreriam durante seu combate ao crime e que os peixes na Baía de Manila ficariam gordos de tanto se alimentar dos corpos que ali seriam despejados.

Com mais de 700 pessoas assassinadas desde então, numa taxa que subiu de 10 a 13 mortes ao dia, é bem possível que até 2021, quando seu mandato de seis anos terminará, Duterte alcance sua meta de assassinatos.

A “Lista da Morte”

Como descreve um artigo da CNN, as fotos que rodam o mundo são de “pessoas assassinadas nas ruas ou barracos, geralmente com pés e mãos amarradas, camisas ensopadas de sangue, rostos cobertos com fita adesiva e placas cruéis dizendo quais foram seus supostos crimes” – além de sempre contar com uma multidão como platéia ao redor do cadáver.

O maior periódico do país, o Philippine Daily Inquirir, mantém desde o dia 7 de julho uma página chamada Kill List, ou a Lista da Morte, onde documenta-se todas as mortes

Lê-se na página uma nota editorial: “Desde 30 de junho de 2016, o surto de assassinatos de suspeitos de envolvimento com o crime é claro e inequívoco. Os mortos, em sua maioria, foram identificados pela polícia como suspeitos de tráfico e consumo de drogas (“tulak”). Essa Lista da Morte é uma tentativa de documentar os nomes e outras particularidades dessas mortes na guerra ao crime da administração Duterte”.

A ABS CBN News é outra rede filipina que vem monitorando as mortes extrajudiciais no país, desde a vitória de Duterte, em sua página é possível encontrar infográficos e mapas dessas mortes em todo o território das Filipinas.

A foto que ilustra o texto mostra uma esposa segurando o corpo sem vida de seu marido que, segundo a polícia local, fora morto por um grupo de justiceiros. Ela afirmou que seu marido não era um traficante de drogas, apesar de consumi-las. Segundo ela, seu marido inclusive votou em Duterte nas eleições de maio.

Vá se foder, ONU”

Obviamente, não demorou muito para que grupos locais e internacionais de direitos humanos se manifestassem junto à Diretoria Internacional de Controle de Narcóticos (INCB, sigla em inglês) e o Escritório de Crimes de Drogas das Nações Unidas (UNODC, sigla em inglês) para que elas tomassem uma atitude e fizessem pressão no governo filipino para que interrompesse a matança desenfreada.

Nós estamos pedindo para que os órgãos responsáveis da ONU condenem publicamente as atrocidades ocorrendo nas Filipinas. Esses assassinatos sem sentido não podem ser justificados como uma medida de controle à drogas”, afirmou Ann Fordham, diretora-executiva do Consórcio Internacional de Política sobre Drogas, que foi responsável pela coordenação de uma carta conjunta desses grupos.

Ainda assim, mesmo que a ONU tome alguma atitude, é provável que nada comova Duterte. Durante uma entrevista coletiva, um mês depois de ser eleito, Duterte descarregou sua raiva contra a organização após alguns jornalistas perguntarem sobre as críticas que estava recebendo da mídia internacional. “Esse é o problema, eles estão sempre aumentando o temor sobre essa ou aquela convenção da ONU. Vá se foder, ONU. Você não consegue nem resolver a carnificina no Oriente Médio, não conseguiu mover um dedo contra o massacre do povo negro na África. Calem a boca todos vocês”.

Todavia, nenhum dos jornalistas presentes relacionaram a crítica internacional a “essa ou aquela” convenção da ONU.

Os Estados Unidos seriam outro que poderiam elevar o tom com o governo em Manila – apesar de já terem “expressado preocupação” com as mortes extrajudiciais ocorrendo no arquipélago. Porém, o que verdadeiramente importa para os EUA nas Filipinas é a manter o país como seu aliado na “guerra contra o terrorismo” e como cão de guarda às pretensões chinesas no Mar do Sul da China.

Uma coisa não se pode dizer contra Duterte: ele é um homem que vive pelo que diz. Como afirmou após a vitória, ele seria um “ditador contra o mal”, além de jurar que abdicaria do poder caso fracassasse em cumprir sua promessa de exterminar a corrupção do país.

Assim como é impossível dizer se ele cumprirá as duas promessas, também não há como saber quantos corpos ficarão pelo caminho até lá.

2 ideias sobre “O justiceiro do Sul da Ásia

  1. Meu comentário vai no sentido de que os diretamente envolvidos no negócio de drogas não são os que estão sendo eliminados. O quartel envolve gente graúda, entre eles pelo que se sabe, governos, bancos, empresários entre outros. O que são todos aqueles satélites lançados no espaço afinal de contas? A que serve? Não seria o olho potente vigiando do espaço nossos paços aqui nesse chão? Não vê esse olho potente onde é que se encontra as plantações? Onde é que são produzidos as mais vaiadas drogas? Como é levado essa produção para o mercado?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *