Uma alternativa nas eleições dos Estados Unidos?

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Diante da xenofobia de Trump e da agressividade imperial de Hillary, parte dos apoiadores de Bernie Sanders vê saída em Jill Stein — candidata da esquerda verde. Mas quem é ela e o que propõe?

Por Vinicius Gomes Melo

No momento em que a Convenção Nacional Democrata anunciou oficialmente que Hillary Clinton seria a representante do partido na corrida presidencial de 2016, é possível imaginar que dezenas de milhões de apoiadores e apoiadoras de Bernie Sanders olhando para os lados e perguntando-se “e agora?”.

Foi quando depararam-se com a escolha que tanto temiam — ter de votar em Hillary Clinton — que uma alternativa mostrou-se mais clara: Jill Stein, do Partido Verde.

No dia seguinte à nomeação da primeira mulher a concorrer pela Casa Branca por um dos dois grandes partidos do país, Stein estava nos metrôs da Filadelfia rodeada por pessoas que faziam fila para conversar e tirar selfies com a candidata.

As comportas se abriram. Eu me sinto quase uma assistente social conversando com os apoiadores de Bernie”, dizia Stein a uma repórter que testemunhava tudo. “Seus corações estão partidos. Todos sentem que foram violados e enganados, em grande parte pelo Partido Democrata”.

Essas pessoas ainda sentem-se traídas pelo partido por conta da revelação que o alto escalão de seu Comitê Nacional claramente favoreceu Hillary durante as primárias – algo não muito digno para quem carrega o nome de Democratas.

Com Trump — um megalomaníaco xenófobo — de um lado, e Hillary — uma democrata que conta com o apoio dos neoconservadores intervencionistas do Partido Republicano — de outro, não é à toa que as eleições de 2016 reúnam as duas candidaturas mais impopulares da história dos Estados Unidos.

Assim como também não é por acaso que uma das frases mais repetidas por Stein é que “nessa eleição, não existe o menor entre dois males, eles são iguais”.

Mas quem é Jill Stein?

Formada em Harvard, Jill Stein, foi médica por 25 anos antes de tornar-se uma ativista política sobre os efeitos do meio ambiente na saúde humana.

Apesar de ter concorrido ao governo do estado de Massachussets, em 2002 e 2010, e à presidência em 2012, Stein não possui qualquer experiênca em cargos eletivos  exceto no conselho municipal da pequena e de classe alta Lexington, em Massachussets.

Um recente artigo do The Atlantic levou o seguinte título: Jill Stein conseguiria lidar uma revolução?

O “revolução” no caso refere-se a uma das principais hashtags da campanha de Bernie Sanders, #NossaRevolução.

No texto, lê-se que o diagnóstico de Stein sobre os problemas que afligem os Estados Unidos não diferem tanto de Sanders. “Assim como o senador, ela vê que o país está dominado pelo poder do dinheiro e o poder corporativo”. Também ela quer tornar a saúde pública um direito, garantir que uma educação de alto nível seja acessível a todas as pessoas e, claro, quebrar o poder dos grandes bancos.

Steins e Sanders se alinham na maioria dos assuntos, especialmente na inaceitável a interferência de Wall Street na vida política. Porém, nessa eleição, a diferença entre os dois não residiu tanto em suas plataformas, mas em como eles escolheram lutar por uma reviravolta política.

Apesar de ser um Independente, Sanders alinhou-se com os Democratas, enquanto Stein quer acabar com o sistema bi-partidário que ata as mãos daqueles que não querem mais escolher entre republicanos e democratas.

É difícil realizar uma campanha revolucionária dentro de um partido político contrarrevolucionário”, afirmou Stein, após a nomeação de Hillary.

Além dos objetivos citados acima, é quase redundante dizer, mas o tema meio-ambiente é de extrema importância para Jill Stein. Em suas propostas, ela quer criar um New Deal Verde emergencial “mudar a maré da mudança climática, reavivar a economia e tornar as guerras por petróleo obsoletas”. O plano seria tornar 100% renovável a matriz energética dos EUA até 2030.

Transformar em lei a contratação de mulheres e minorias; abolir a dívida estudantil universitária – “libertando uma geração de americanos e americanas da escravidão do débito”; acabar com a violência policial contra comunidades e o sistema de encarceramento em massa do complexo industrial-prisional e também acabar com a fracassada guerra às drogas, cortar em 50% os gastos militares e dar um fim ao “apoio financeiro à regimes que violam os direitos humanos como Egito, Israel e Arábia Saudita”.

Esses dois últimos países, inclusive, estariam na mira de Stein caso eleita presidenta, uma vez que ela considera (corretamente) a Arábia Saudita o maior financiador do terrorismo internacional, e também advoga pela movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções contra Israel.

E tambémmanter Deus fora da esfera pública

(Reprodução - jillstein.com)

(Reprodução – jillstein.com)

Como vice-presidente em sua chapa, Stein escolheu Ajamu Baraka, ativista dos Direitos Humanos e fundador da US Human Rights Network, o que confere um pouco mais de diversidade étnica à sua chapa — ainda mais porque só há brancos nas dos Democratas e Republicanos.

Certamente, um dos maiores trunfos com que Hillary espera contar é o apoio dos votos femininos no dia da votação, 8 de novembro. Algo que talvez não seja muito difícil de acontecer, considerando que ela já afirmou que lutará pelo salário igualitário para as mulheres e uma forte proteção aos seus direitos reprodutivos, enquanto o candidato republicano afirmou que mulheres que abortassemdeveriam ser punidas de alguma forma”.

Todavia, Stein afirmou que, nessa questão, a plataforma do Partido Verde seria muito melhor para as mulheres que a dos Democratas.

Pois além de esses dois tópicos – salário igualitário e direitos reprodutivos – já serem consistentemente defendidos pelo Partido Verde, suas duas últimas candidaturas à presidência foram encabeçadas por mulheres (Cynthia McKinney, em 2008 e a própria Stein, em 2012), sem contar a normativa interna do partido de que as mulheres ocupem 50% de suas posições de liderança.

Outro ponto que Stein levantou, é que o Partido Verde “não apoia soltar bombas em cima dos filhos dos outros, ao contrário da outra mulher na corrida presidencial”, numa clara referência ao histórico intervencionista de Hillary Clinton.

Há luz no fim do túnel?

No momento, Stein apareça em quarto lugar na intenção de votos, com 3,2% (Gary Johnson, candidato do Partido Libertário aparece em terceiro lugar com 7%). Alguns fatores pesam contra Stein, fora a óbvia magnitude da máquina bipartidária do país.

O Partido Verde está muito longe de ter a força política necessária para contar com alguém na Casa Branca. Não possui nenhuma presença em câmaras estaduais e apenas alguns assentos em conselhos municipais ao redor do país.

Após a nomeação de Hillary e a revelação, pelo Wikileaks, de que a cúpula do Partido Democrata agiu sistematicamente contra Sanders, muitos acreditaram que o senador daria as costas ao Partido Democrata e apoiaria Jill Stein, ou pelo menos não apoiaria sua adversária nas primárias.

"Black Men for Bernie" convidou Jill Stein para falar com a multidão enquanto a Convenção Nacional Democrática começava suas deliberações para a nomeação de Hillary Clinton (Reprodução)

“Black Men for Bernie” convidou Jill Stein para falar com a multidão enquanto a Convenção Nacional Democrática começava suas deliberações para a nomeação de Hillary Clinton (Reprodução)

Ex-membros da campanha de Bernie Sanders chegara a escrever uma carta aberta ao senador, para que ele se juntasse a Jill Stein, onde lia-se: “Se alguma vez houve uma oportunidade de quebrar do duopólio corporativo dos partidos Republicano e Democrata, é essa. Uma campanha Stein/Sanders seria muito mais poplar que a de Hillary Clinton e mais bem sucedida contra Trump”.

Mas como o senador já afirmara diversas vezes, ele não concorreria por um terceiro partido, caso não fosse nomeado pelos democratas: “a razão para isso é que eu não quero ser o responsável por eleger algum republicano de direita para a presidência dos Estados Unidos”.

Esse medo é compartilhado por aqueles que gostariam de votar em Stein. Como o The Guardian escreveu essa semana, alguns de seus possíveis eleitores terão de ser pragmáticos.

Ainda que uma pesquisa tenha revelado que cerca de 90% dos eleitores de Sanders planem apoiar Hillary, e apesar do apelo de Sanders para que aqueles que estiveram ao seu lado durante se alinhem à candidata, uma chuva de hashtags mostrou que não seria fácil convencer o contingente que se sente traído pelos democratas – de #JillNãoHill à #HillaryNunca. É nesse nicho que Stein está agindo, especialmente nos swing states de Ohio e Florida que tenderiam a votar em Hillary. Considerando que essa eleição tremendamente impopular seja apertada, os votos democratas que Stein angariar podem fazer toda a diferença na vitória de Donald Trump.

Em 2000, por exemplo, Ralph Nader, candidato do Partido Verde, conquistou 97 mil votos na Flórida, estado onde o democrata Al Gore perdeu por 536 votos para George W. Bush”, relembra uma matéria da Time. “A maioria das pessoas que votaram em Nader, disseram que teriam votado em Al Gore caso o verde não estivesse concorrendo”.

Stein, entretanto, rejeita qualquer espécie de culpa caso isso se concretize: “Eu acho que não paira qualquer dúvida que, caso Donald Trump se eleja, a culpa é de Hillary Clinton, pois ela sabotou e apunhalou Bernie Sanders pelas costas”.

Assim sendo, a maior dúvida que existe no momento é se revolução de Sanders e/ou de Stein continuará existindo após o menor dos males for eleito em novembro.

Uma ideia sobre “Uma alternativa nas eleições dos Estados Unidos?

  1. “Assim Caminha a Humanidade” e como já disseram no passado: “Conheça a Verdade e a Verdade vos libertará!”

    Quanto tempo ainda faltam, não se sabe, mas parece que os “Tempos estão chegando!”
    Assim seja!
    Axé!
    Namastê!
    salaam aleikum!
    shalom adonai!

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