Quem sucederá Ban Ki-moon na ONU?

Após dez anos, Ban Ki-moon deixará o cargo em 31 de dezembro de 2016 (AP)

Após dez anos, Ban Ki-moon deixará o cargo em 31 de dezembro de 2016 (AP)

Democratização ainda parece distante. Regra não-informal sugere que chegou a vez de alguém da Europa Oriental. Pressão para escolha de primeira mulher em 70 anos também pode influenciar

Por Vinicius Gomes Melo

No final deste ano, o secretário-geral da ONU Ban Ki-moon deixará o cargo após dez anos ocupando-o e já no próximo dia 21 de julho, o Conselho de Segurança se reunirá pela primeira vez para avaliar os possíveis candidatos e candidatas a ocupar o trigésimo oitavo andar na sede da organização em Nova York.

Desde o início do ano, alguns países-membros interessados já vêm apresentando nomes para que estes pudessem participar de debates públicos e passar por uma espécie de sabatina para a avaliação de suas capacidades para suceder Ban Ki-moon.

O que é algo inédito na ONU, considerando que a escolha da pessoa que representaria, teoricamente, todas as outras bilhões de pessoa do planeta, acontecia por trás de portas fechadas, semelhante ao conclave papal no Vaticano.

Isso é um passo que a organização está dando rumo a uma maior transparência e um antiga exigência da Assembleia Geral em ter maior participação na escolha de quem ocupará sua secretaria-geral.

Todavia, esse processo de democratização ainda está longe de ser uma realidade, pois a prerrogativa para tal escolha ainda reside naqueles que ocupam os assentos do Conselho de Segurança – principalmente os “cinco grandes” com poder de veto – e será dali que virá o nome “recomendado” (por falta de eufemismo melhor) para a Assembleia Geral votar.

O maior lobby político ocorrendo até o momento é que a pessoa escolhida venha da Europa Oriental, cujo grupo regional na ONU é o único que nunca ocupou o posto mais alto na sede em Nova York. Não à toa, que entre as 12 candidaturas, 9 vieram da região.

Além disso, depois de Trygve Lie (Noruega), Dag Hammarskjöld (Suécia), U Thant (Myanmar), Kurt Waldheim (Áustria), Javier Pérez de Cuéllar (Peru), Boutros Boutros-Ghali (Egito), Kofi Annan (Gana) e Ban Ki-moon (Coréia do Sul), a pressão para que venha um nome feminino por trás das portas fechadas do Conselho de Segurança é enorme.

Confira abaixo as atuais candidaturas à secretaria-geral da ONU:

(UN Photo - Mark Garten)

(UN Photo – Mark Garten)

Irina Bokova (Bulgária) – Considerada umas das favoritas para o cargo, Bokova ocupa a diretoria-geral da UNESCO desde 2009. É vista como amigável à Rússia, o que pode render-lhe o veto dos Estados Unidos.

Em 2011, ela já teve atritos com Washington, após a UNESCO aceitar a Palestina na organização. Os EUA cortaram seu financiamento e Bokova foi duramente criticada por Victoria Nuland, diplomata que ficou conhecida mundialmente por seu papel durante a crise EUA-Rússia-Ucrânia, em 2014.

(UN Photo - Rick Bajornas)

(UN Photo – Rick Bajornas)

Helen Clark (Nova Zelândia) – Ex-premiê de seu país (1999-08), Clark lidera o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), desde 2009. Também pode ser considerada um dos nomes mais fortes na corrida, por já ter sido uma chefe de Estado e ter experiência dentro da organização.

Contra ela, pesa o grupo regional de onde vem: Europa Ocidental e Outros. Região que já ocupou a secretaria-geral da ONU três vezes no passado.

(UN Photo - Rick Bajornas)

(UN Photo – Rick Bajornas)

Vesna Pusić (Croácia) – Até janeiro desse ano foi a Vice-Premiê de seu país e também Ministra das Relações Exteriores, tendo liderado a entrada da Croácia na União Europeia, em 2013. Todavia, alguns de seus feitos mais notáveis aconteceram na antiga Iugoslávia, quando fundou a primeira organização não-governamental do país, em 1979; e no início da década de 1990, em meio ao desmembramento do país, organizou encontros entre cidadãos sérvios e croatas, enquanto os dois países ainda estavam em guerra.

Infelizmente, os principais pontos à seu favor, também podem agir contra sua recomendação, considerando que seu ativismo pelos direitos humanos, principalmente direitos LGBT, antagonizaria a Rússia.

(UN Photo - Amanda Voisard)

(UN Photo – Amanda Voisard)

Natalia Gherman (Moldávia) – Assim como a representante da Croácia, Gherman também foi Vice-Premiê e Ministra das Relações Exteriores de seu país, até janeiro desse ano. Em 2014, o The Guardian a elegeu uma das “sete mulheres a ser observada na política global”.

Entretanto, acredita-se que a longa disputa entre Moldávia e Rússia a respeito da região fronteiriça da Transnistria, pode render o veto de Moscou.

 

(UN Photo - Rick Majornas)

(UN Photo – Rick Majornas)

Susana Malcorra (Argentina) – Atual Ministra das Relações Exteriores argentina, Malcorra foi Chefe de Gabinete do Secretariado Executivo da ONU, selecionada pessoalmente por Ban Ki-moon.

Mas de acordo com alguns analistas, ainda mais que o grupo regional Caribe e América Latina da qual faz parte, sua nacionalidade o fantasma das ilhas Malvinas podem ser motivos para veto do Reino Unido.

 

(UN Photo - Rick Bajornas)

(UN Photo – Rick Bajornas)

Christina Figueres (Costa Rica) – Tendo anunciado sua candidatura há apenas uma semana, Figueres ocupa a chefia das Nações Unidas sobre a Mudança no Clima desde 2010 (cargo que deixará na próxima segunda-feira, 18) e foi umas principais arquitetas do acordo global sobre o tema, assinado ano passado, em Paris.

Sua nomeação poderia também ser descartada por conta do grupo regional de onde vem, mas sua elogiada atuação nos últimos 6 anos frente a um assunto que será uma eterna pauta dentro da ONU, pode fazer com que o Conselho de Segurança ignore a regra não-escrita da rotatividade regional para a secretaria-geral.

(UN Photo - Mark Garten)

(UN Photo – Mark Garten)

António Guterres (Portugal) – Outro ex-premiê (1995-2002) e, tal qual Helen Clark, também ocupou um cargo na ONU desde então: Alto Comissário para Refugiados da ONU (2002-15), talvez o principal posto de alto escalão dentro da ONU, abaixo do Secretário-Geral. É o único candidato que já recebeu o apoio oficial de outros países: França e Timor Leste.

Teoricamente, possui o CV mais qualificado entre as candidaturas, por sua ampla experiência em lidar com a máquina da ONU e seus países-membros. Porém, tem uma dupla desvantagem: seu gênero e seu grupo regional.

(UN Photo - Devra Berkowitz)

(UN Photo – Devra Berkowitz)

 

Danilo Türk (Eslovênia) – Ex-presidente de seu país (2007-12), Türk foi assistente do secretário-geral entre antes de ser presidente (2000-05). Sua experiência dentro da ONU e também como chefe de Estado talvez lhe assegure uma vantagem frente aos outros candidatos homens da Europa Oriental.

 

 

 

(UN Photo - Evan Schneider)

(UN Photo – Evan Schneider)

Igor Lukšić (Montenegro) – Lukšić tinha apenas 34 anos quando se tornou primeiro-ministro de seu país após a renúncia do premiê anterior. Hoje, aos 40 anos, ele é o mais jovem entre os candidatos para a secretaria-geral da ONU, porém seu posicionamento pró-Ocidente e sua disposição em tornar a pequena Montenegro em um membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) provavelmente garantirá que sua nomeação seja vetada pela Rússia.

 

(UN Photo - Paulo Filgueiras)

(UN Photo – Paulo Filgueiras)

Vuk Jeremić (Sérvia) – Tem apenas 41 anos, já presidiu a Assembleia Geral da ONU de 2012 a 2013, após ter sido, durante cinco anos, Ministro das Relações Exteriores sérvio (2008-12), quando foi considerado um dos diplomatas mais atuantes de sua época, principalmente para fazer campanha contra a independência de Kosovo, em 2008.

Historicamente, a Sérvia possui bom relacionamento com a Rússia, o que talvez garantisse um forte aliado na hora da escolha, porém seu estilo diplomático é considerado agressivo demais para o cargo.

(UN Photo - Kim Haughton)

(UN Photo – Kim Haughton)

Miroslav Lajčák (Eslováquia) – Atual Ministro das Relações Exteriores e Vice-Premiê de seu país, Lajčák foi um dos principais nomes durante as negociações para o fim da crise na Ucrânia, em 2014. Por conta disso, é visto com bons olhos pelos EUA e pela União Europeia, porém, a decisão da Eslováquia em aceitar apenas refugiados cristãos oriundos do Oriente Médio e África não foi bem recebida pela comunidade internacional.

 

(UN Photo - Evan Schneider)

(UN Photo – Evan Schneider)

Srgjan Kerim (Macedônia) – Serviu como Ministro das Relações Exteriores (2000-01) e presidiu a Assembleia Geral da ONU, entre 2007 e 2008. Não está na lista dos favoritos,tendo a seu favor apenas o grupo regional de onde faz parte.

Porém, isso pode lhe servir de vantagem pelo fato de os principais países do Conselho de Segurança não escolherem alguém exatamente conhecido.

 

6 ideias sobre “Quem sucederá Ban Ki-moon na ONU?

  1. Provavelmente esta dúvida só subsiste ao autor, porque ele desconhece que Portugal está na moda e que 2016 é o ano da nossa reafirmação como povo-charneira na História da Humanidade.

    • O Brasil também esteve na moda nos últimos anos (Copa do Mundo, Olimpíadas, Michel Teló) e o Vaticano escolheu um argentino para ser Papa!

      PS: e ainda bem que foi assim =)

  2. Nossa, sou mulher e atualmente penso que não deveriam ocupar certos cargos de poder, penso que os reflexos não têm sido muito bons na grande maioria, exceto raras exceções, que não assumam, por Deus nãoooo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *