Uma mulher no comando da ONU?

 

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As principais candidatas: Vesna Pusić (Croácia), Natalia Gherman (Moldávia), Irina Bokova (Bulgária), Hele Clark (Nova Zelândia)

Sete décadas depois de criadas, as Nações Unidas podem ter pela primeira vez uma mulher na secretaria-geral.

Por Vinicius Gomes Melo

Entre as eleições municipais por todo o Brasil e a corrida pela Casa Branca nos Estados Unidos, outra votação é digna de nossa atenção esse ano: a secretaria-geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

No próximo dia 21 de julho, o Conselho de Segurança começará, de maneira oficial, a considerar os nomes que se candidataram para o cargo, e nos próximos meses, o mundo inteiro ficará sabendo quem será a nova pessoa a ocupar o 38. andar do prédio da ONU, em Nova York.

A grande novidade é que setenta anos e oito secretários-gerais depois, existe a real possibilidade de que uma mulher ocupe o posto pela primeira vez, quando Ban Ki-moon deixar o cargo em 31 de dezembro de 2016.

Apesar de ser um de seus principais objetivos nos últimos anos, a ONU é uma organização que ainda não atingiu a paridade de gênero: apenas 25% dos cargos de seu alto escalão são ocupados por mulheres.

Foi somente em 2010, que a Assembleia Geral da ONU criou a UN Women, ramificação que foca em igualdade de gênero e o empoderamento da mulher. Talvez isso seja um reflexo do patriarcado que ainda reina nos cargos executivos dos países que compõem a ONU: em 2015, somente 19 mulheres eram chefes de Estado, entre os 193 países-membros da organização.

A UN Women, inclusive, é quem está fazendo lobby para que uma mulher seja escolhida para a secretaria-geral.

Além deste, ainda há o debate sobre qual “grupo regional” será contemplado com a secretaria-geral da ONU.

Há uma regra não-escrita de que a pessoa escolhida para o cargo deve decorrer de uma alternância regional, mais ou menos como na escolha dos países sedes para a Copa do Mundo.

Porém, para essa rotação no cargo, as regiões do planeta não são divididas por continentes, mas sim por grupos, veja abaixo.

Azul: Grupo da África | Verde: Grupo Ásia-Pacífico | Rosa: Grupo da América Latina e Caribe Vermelho: Grupo da Europa Oriental | Bege: Grupo da Europa Ocidental e Outros

Azul: Grupo da África | Verde: Grupo Ásia-Pacífico | Rosa: Grupo da América Latina e Caribe | Vermelho: Grupo da Europa Oriental | Bege: Grupo da Europa Ocidental e Outros

E de acordo com essa “regra”, o grupo regional a ser contemplado dessa vez seria a Europa Oriental, região que ainda não teve representantes no maior posto da principal organização internacional do planeta.

Não à toa, no momento em que foi dada a largada para que os países-membro da ONU nomeassem suas escolhas, a maior parte das primeiras candidaturas vieram da região. Entre os onze nomes, oito são de lá.

Entre as mulheres na contenda estão Irina Bokova (Bulgária), Vesna Pusić (Croácia), Natalia Gherman (Moldávia), Helen Clark (Nova Zelândia) e Susana Malcorra (Argentina).

As três primeiras, todavia, são as que têm maiores chances até o momento, considerando que os países-membros desejem quitar duas dívidas de uma só vez, escolhendo uma mulher que venha da Europa Oriental.

Os candidatos homens são: Miroslav Lajčák(Eslováquia), Igor Lukšić (Montenegro), Danilo Türk (Eslovênia),Vuk Jeremić (Sérvia),Srgjan Kerimserif(Macedônia) e Antonio Guterres (Portugal), o único fora do grupo da Europa Oriental.

Talvez a maior balança na questão seja encontrar um nome aceitável tanto para EUA, quanto para Rússia – ambos com poder de veto à qualquer nomeação – considerando que os conflitos recentes na Síria e na Ucrânia colocaram as duas potências em campos opostos, à la Guerra Fria.

A única certeza, todavia, é que a pessoa escolhida receberá como herança de Ban Ki-moon uma das maiores crises de credibilidade que a organização já enfrentou nessas sete décadas.

De fato, parece nunca houve um momento tranquilo que todos os antigos secretários-geral encontrassem ou deixassem o cargo no momento em que a ONU. Até mesmo Kofi Annan (1997-06), talvez o mais celebrado entre eles, saiu da secretaria em um período que a própria relevância da organização estava sendo questionada pelo mundo, na esteira da Guerra do Iraque, promovida pelos EUA e Reino Unido – que depois de meses tentando obter a chancela internacional do Conselho de Segurança da ONU autorizando a nova guerra, concluíram que a opinião do resto do mundo não importava tanto assim e seguiram em frente com seus planos.

Entretanto, a revelação do diplomata sueco Anders Kompass de que os soldados franceses em missão de paz estavam molestando sexualmente crianças na República Centro Africana, lançou uma terrível sombra naquela que é um dos maiores símbolos da ONU: os “capacetes-azuis”, aqueles que integram as forças de manutenção da paz.

Claro, isso sem contar a contínua ameaça do terrorismo, a contínua elevação do aquecimento global e a contínua crise de refugiados pelo globo. Mas, numa triste ironia, os escândalos envolvendo os capacetes-azuis poderiam ajudar que se tenha uma escolhida, ao invés de um escolhido, para o cargo.

No próximo texto do blog, uma análise sobre as atuais candidatas e candidatos para a secretaria-geral da ONU.

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