Nos artigos do Le Monde Diplomatique, retratos do ultraconservadorismo que alimenta a ascensão de Sarah Palin e do Tea Party
O lado mais conservador da sociedade norte-americana mostrou os músculos na noite deste sábado. O chamadoTea Party — uma articulação informal, mas capilarizada e muito ativa, dos setores que não se conformam com a presença de Barack Obama na Casa Branca — realizou sua convenção nacional em Nashville, Tennesse. Provenientes de todas as partes do país, os cerca de 1100 delegados fizeram de Sarah Palin, ex-candidata a vice-presidente, sua grande estrela.
Oradora final, ela foi aplaudida de pé durante vários minutos. Em seu discurso, pelo qual teria cobrado 100 mil dólares, desfiou um conjunto de chavões neoliberais e neoconservadores pouco coerentes entre si — mas muito atrativos para a plateia a que se dirigiam. Fustigou o aumento das despesas do governo, resultado tanto do esforço para relançar a economia (e aliviar a dor dos mais atingidos pela crise), quanto para salvar instituições financeiras. Comparou o déficit público a um “roubo generacional”. Pediu apoio aos candidatos (às eleições legislativas) que “entendam os princípios do livre-mercado e da responsabilidade pessoal”, retomando um conceito muito repetido por Margareth Thatcher, para repelir políticas sociais distributivistas.
Preconizou, ao mesmo tempo, a retomada do papel imperial dos Estados Unidos — a grande fonte do déficit público. Sugeriu que Obama é antipatriótico, “ao pedir desculpas pela América”. Retomou a ideia de que o país está em guerra contra o terror — e “para vencê-la, precisamos de um comandante-em-chefe, não de um professor de Direito”. Afirmou que os EUA “estão prontos para outra revolução”, procurando inflar o crescimento do Tea Party e apresentá-lo como um contraponto ao poder de mobilização demonstrado por Obama em sua campanha à Presidência.
Exageros à parte, o movimento que fez sua convenção nacional sábado, em Nashville, é um dos grandes fenômenos do cenário político atual, nos EUA. Articulando ideias ultra-conservadoras com elementos da organização horizontal em rede, o Tea Party realizou centenas de reuniões no ano passado. Aproveita-se das dificuldades evidentes de Obama em seu início de mandato, das frustrações que se seguiram e da paralisia da esquerda. Entre diversos textos que jogam luz sobre a direita norte-americana, naBiblioteca Diplô, um, em especial, ajuda a compreender o caldo de cultura de que se nutre este movimento.
Publicado em fevereiro de 2004, foi redigido por Tom Frank, diretor da revista The Blaffer, de Chicago. Descreve uma importante alteração na paisagem político-ideológica dos EUA, iniciada nos anos 1960 e com repercussões ainda hoje. Nesse período, relata Frank, o Partido Republicano conseguiu construir, para si mesmos uma imagem mais complexa do que a de simples “representante dos patrões e da elite econômica”. Ele associou a si mesmo o selo de defensor “do povo humilde”, da “América profunda” que se orgulha de sua capacidade de iniciativa, crê em Deus e rejeita intelectualismo e “intromissão” do Estado.
Também foi capaz de construir, para a esquerda, uma caricatura impopular: a de uma minoria esnobe e arruaceira, que usa piercing,defende o aborto e o casamento homossexual, prefere carros importados, desperdiça dinheiro em restaurantes e bares caros e está sempre disposta a propor mais gastos públicos e aumentos de impostos.
Detalhe desconcertante: esta virada tornou-se mais fácil, sempre segundo Frank, porque a própria esquerda norte-americana a alimenta. Ela transformou sua militância numa espécie de selo que lhe confere pedigree e a distingue dos cidadãos comuns — vistos majoritariamente como como “caipiras” e ignorantes. Despreza os cidadãos, que agitam bandeiras de estrelas e listras — ao invés de tentar convencê-los a se somarem a combates políticos que poderiam ser majoritários. Faz da ação política mais uma “terapia individual” do que o desejo real de promover movimentos transformadores.
O ensaio provocador de Frank pode ser lido aqui. Também vale a pena consultar as dezenas de artigos disponíveis na pasta sobre osEstados Unidos da Biblioteca Diplô.
O que o pequeno tremor de ontem, nos mercados globais, revela sobre a crise econômica, a Europa e as alternativas
Uma onda de pessimismo percorreu as bolsas de valores nesta quinta-feira, como para lembrar que sair da crise financeira exigirá mais tempo (e mais dores) do que se previa em meados do ano passado. Três dos problemas que afloraram ontem são debatidos em profundidade em textos do Le Monde Diplomatique.
O primeiro é a seriedade da doença que atingiu parte das economias do mundo. As novas turbulências financeiras foram causadas pelos sinais de que alguns Estados europeus — Grécia, Portual, talvez Espanha — não suportarão o peso do esforço que fazem para reativar seus sistemas produtivos. Para rolar suas dívidas, Portual e Espanha já são obrigados a pagar juros mais altos aos investidores. Na Grécia, o drama é mais grave. Em desespero, o primeiro-ministro George Papandreou convocou rede de TV em 2/2, para anunciar um “ajuste fiscal” de emergência que cortará salários no setor estatal, reduzirá direitos sociais (como aposentadorias) e serviços públicos (como Saúde). O arrocho, que visa reservar recursos para pagamento de juros, será fiscalizado pela União Europeia — e talvez pelo FMI.
O resultado pode ser uma recessão profunda. Embora a contragosto, participantes do último Fórum Econômico Mundial, reconheceram que a ação dos Estados continua sendo essencial para evitar que as economias mergulhem mais fundo no abismo da crise. Le Monde Diplomatique tratou do tema em diversos artigos, nos últimos anos. Em setembro de 2007 e março de 2008, Frédéric Lordon chamou atenção para a gravidade das consequências que adviriam com o estouro da bolha financeira e a possível instalação de uma crise de confiança na economia mundial.
Um segundo aspecto que vale examinar com o Diplô é o sentido real da maior parte das políticas que levaram à criação do euro. O ataque aos direitos sociais na Grécia revela uma Europa apática, submissa aos valores impostos pelos mercados financeiros, sem coragem para usar seu peso econômico em favor da inovação política. Tais tendências foram analisadas no jornal por Laurent Jacque (fevereiro de 2009) e Michel Foucher (maio de 2007). O segundo autor não se limita à crítica. Ele propõe um conjunto de políticas novas, voltadas não a garantir os privilégios dos investidores, mas a promover e ampliar os direitos sociais.
Os novos tremores nos mercados ressaltam, aliás, a importância de continuar buscando alternativas para um novo sistema financeiro e uma nova lógica produtiva. A este respeito, vale ler o instigante artigo publicado por Jean Marie Harribey, em novembro de 2008. Ele sugere meios para inverter a equação que prevalece no atual drama vivido pelos gregos. As sociedades, argumenta, devem se mobilizar para que, ao invés de desmantelar serviços, a crise sirva como estímulo a pensar na expansão dos serviços públicos gratuitos.
O grande debate sobre o quanto Barack Obama poderia mudar a desastrosa política externa norte-americana está em geral focado sobre o Oriente Médio. Isso faz sentido. Nenhuma outra região suportou tanto o peso da estratégia de segurança nacional de Bush, como demonstram as mortes violentas de mais de 4 mil soldados dos EUA e 93 mil iraquianos.
Há um debate político menos visível, mas não menos apaixonado, sobre a América Latina. Apesar de não ser o assunto mais comentado estes dias, tal debate levanta questões que afetam profundamente pessoas ao sul da nossa fronteira e milhões de norte-americanos que têm laços familiares na região. As relações dos Estados Unidos com a América Latina já não podem ser vistas como aspecto regional da política externa. Em um mundo cada vez mais integrado, elas tornaram-se parte fundamental da discussão sobre comércio, emprego, imigração e criminalidade transnacional nos EUA.
Foi neste contexto que Barack Obama tournou-se, há dias, o candidato do Partido Democrático à presidência. As opiniões dividem-se drasticamente. Poucos acreditam que sua plataforma para a política norte-americana na América Latina realmente siga o “Nós acreditamos em mudança”.
No período imediatamente posterior à indicação, a campanha inevitavelmente fará acenos ao voto latino, especialmente em estados indefinidos, como a Flórida e o Novo México. Isto irá enevoar a imagem do que se pode esperar, caso Obama torne-se presidente.
Mas posturas eleitorais à parte, as cartas postas à mesa permitem uma primeira leitura do futuro hemisférico. A abordagem de Obama, mais do que as próprias políticas, abre espaço para que passemos de um verdadeiro desastre a uma política de boa vizinhança para a região.
Documento recorrer a Roosevelt e suas quatro liberdades. Os blogs abriram o debate: seriam posturas avançadas, retrógradas ou simples chavões eleitorais?
A primeira carta foi aberta no encontro com a Fundação Nacional Cubano-Americana em Miami, no dia 23 de maio. Com a corrida das primárias esquentando, Obama tentou vencer o poderoso grupo político que anteriormente afundou, no Estado, as esperanças do Partido Democrata. Ele ofereceu à multidão uma combinação de fala dura e novas políticas.
Pouco depois do discurso para os cubano-americanos, a campanha lançou Uma Nova Parceria para as Américas[O [texto (em inglês) pode ser baixado no site da candidatura de Barack Obama. Para acessá-lo (em pdf), clique [aqui ]]. O documento, de 13 páginas aborda a política externa regional a partir de três eixos principais, que remetem às “quatro liberdades” proclamadas por Franklin Delano Roosevelt [[Em um discurso ao Congresso dos EUA, em 1941, Roosevelt enunciou o que seriam, para ele, as quatro liberdades essenciais: liberdade de expressão (freedom of speach), que incluía os direitos políticos da democracia; liberdade de culto (freedom of religion); estar livre do medo (freedom from fear), que, segundo ele, se relacionava à luta contra as agressões entre países; e estar livre das necessidades (freedom from need), referência à garantia de uma vida digna.]]: liberdade política / democracia, estar livre do sentimento de medo (segurança), e das necessidades (pobreza).
O discurso e a plataforma provocaram imediatamente polêmcas e trocas mensagens. Nas listas de discussão e nos blogs progressistas e chicanos, debatia-se se estas posições eram positivas, negativas, ou meros chavões eleitorais.
É possível que haja verdade em todas as três avaliações. Parece claro que os posicionamentos expressos no texto estão pouco amadurecidos. Algumas idéias parecem surgidas no momento da redação, e não como resultado de propostas políticas refletidas. Alguns exemplos: a proposta de estender a toda a América Latina o Plano México, oficialmente chamado de Iniciativa Mérida, sequer reconhece que a maioria das iniciativas militares encarnadas por Bush foram repelidas e seriam rejeitadas com veemência por outras nações do continente. Além disso, a ênfase nos mercados de carbono esconde a ausência de programas ambientais abrangentes.
Sem dúvida, porém, a plataforma de Obama marca uma ruptura importante com a política Bush na região. Quando John McCain tomou Otto Reich como seu conselheiro da América Latina, sinalizou a intenção de prosseguir com o pior dos últimos anos na política. Isso fez o sangue ferver na América Latina. Reich afastou os centro-americanos, por sua participação direta no escândalo Irã-contras [Mais informações sobre o episódio na [Wikipedia ]]. Enfureceu os venezuelanos ao apoiar o golpe de 2002 e provocou a ira dos cubanos, por ter protegido Orlando Bosch e Luís Posada Carriles, comprovadamente responsáveis por ataques terroristas anti-Cuba. Por onde passou, Reich deixou um rastro de violações aos direitos humanos e de tenebrosas manipulações políticas.
Sinais de mudança: fechar Guantánomo, acabar com a tortura e as prisões clandestinas no exterior. Anular dívida dos países mais pobres e adotar conceito de “comércio justo”
A equipe de política externa de Obama, por outro lado, mistura veteranos duros com novos pensadores, e parece estar em evolução. Esta heterogenidade transparece por haver, na proposta para a América Latina, tanto apoio de linha dura ao Plano Colômbia quanto oposição a um acordo de “livre”-comércio entre Washington e Bogotá.
Mas tal documento revela uma nova perspectiva sobre a região, que alimenta a esperança de mudanças reais.
O capítulo sobre liberdade política concentra-se na política cubana. Propõe eliminar restrições de viagens à ilha e liberar as remessas monetárias; ao mesmo tempo, “retrocede” na flexibilização do embargo comercial, já que a vê como instrumento de negociação, na transição pós-Fidel. Um certo recuo no compromisso anterior de retirar o embargo é uma jogada eleitoral. Mas o documento sugere tratar-se de uma questão de tempo, não de princípios.
Outras rupturas com a política de Bush incluem o item “Democracia Começa em Casa” que defende o fim das torturas, prisões clandestinas no exterior e detenções indefinidas; o restabelecimento do habeas corpus, e o fechamento de Guantánamo. Estes compromissos concretos não somente mudam vidas, mas transmitem uma clara mensagem aos parceiros latino-americanos que ressaltam há muito o fato de a política externa norte-americana basear-se, muito freqüentemente, em duplo padrão.
O item “Libertar-se das necessidades” apela para uma ajuda maior dos Estados Unidos ao “desenvolvimento de baixo para cima, estando concentrado nas micro-finanças, formação profissional, e programas de desenvolvimento comunitário.” Salienta a necessidade de desenvolver critérios de avaliação e a luta contra a corrupção e de promover liderança pelo exemplo, com decisões de contratação “transparentes e baseadas em mérito”. Outros pontos incluem a realização dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, da ONU, a redução do déficit de educação, especialmente para meninas e mulheres, a anulação de 100% da dívida para a Bolívia, Guiana, Haiti, Honduras, Paraguai, e Santa Lúcia; além de reformas para o Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial.
Estas propostas vão muito além do programa tradicional dos candidatos democratas. O cancelamento da dívida e a reforma das instituições financeiras internacionais são exigências que movimentos sociais vêm fazendo há anos. O fato de estas questões terem sido incorporadas no plano de Obama para a América Latina indica que ele tem ouvido vozes novas e está disposto a colocar, em questões de justiça social ou a redução da pobreza, a ênfase anteriormente dada ao investimento empresarial, liberalização do comércio, e programas de mudança de regime a partir de bases ideológicas. Algumas das propostas já vem sendo complementadas por ações, tais como a Lei contra a Pobreza Global[Para maiores informações sobre a lei, ver o site [GovTrack (em inglês)]], que Obama propôs, para apoiar a realização dos Objetivos do Milênio.
Em integração econômica regional, a plataforma de Obama rompe com seus próprios paradigmas ao invocar o “comércio justo” (termo vagamente definido), a alteração do Nafta, a oposição ao acordo entre os Estados Unidos e a Colômbia, e incluir a possibilidade de oferecer cidadania para trabalhadores ilegais e seus familiares. O compromisso do candidato com o comércio justo foi posto em causa por seu apoio ao acordo de livre comércio com o Peru e declarações de apoio à plataforma Pelosi-Reid — que promove o livre comércio, mas oferece condições tímidas às questões ambientais e trabalhistas. Contudo, Obama também tem colocado a necessidade de uma análise profunda da política comercial e observa a relação entre as políticas comerciais e de alta de imigração sob o NAFTA.
Em energia, visão multilateral sobre biocombustíveis. E algo novo: documento inclui imigração na política externa, abordando-a com base na garantia dos direitos do trabalho
Até mesmo o item sobre segurança, que tem sido fortemente criticado por mimetizar o de Bush, introduz idéias hereges, se consideradas a partir dos dogmas Bush-McCain. Fala-se em uma maior disponibilidade para assumir e partilhar responsabilidades, tomar a dianteira em desafios internos como o controle de drogas e o tráfico de armas e criar parâmetros mensuráveis, enquanto se enfatizam alternativas não-militares. A inclusão de uma “estratégia norte e uma sul” significa o reconhecimento das responsabilidades norte-americanas e falhas no seu próprio território, e parece romper com as declarações hipócritas que jogam a responsabilidade pela segurança transnacional sobre o Sul e foram usadas para justificar intervenções dos EUA.
A proposta de parceria energética é um dos itens que precisam ser trabalhados. Ela promove novos mercados para as tecnologias verdes, e acredita no mecanismo de comércio de emissões de carbono, sem mencionar a necessidade de exigir indústrias limpas, nos Estados Unidos, ou mudar os padrões de consumo. A proposta também inclui incentivos ao seqüestro de carbono, para desestimular a destruição das florestas. Ao mesmo tempo, ignora o papel que desempenham as corporações norte-americanas e a possibilidade de haver regulamentação internacional. Mas também aqui as reflexões cidadãs encontram espaço. Por exemplo: ao mesmo tempo que ressalta o papel dos biocombustíveis, o documento reconhece o conflito entre a produção de alimentos e de energia.
A imigração em geral não é considerada política externa. Tê-la incluído na plataforma de políticas para a América Latina é ponto positivo para Obama. Sua proposta de “instituir o poder das remessas” está ligada ao compromisso de trabalhar junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (Bird), entre outras instituições, para “maximizar o impacto das remessas no desenvolvimento social e econômico em todo o hemisfério.” Não fica muito claro o que ele quer dizer com isso. As comunidades de imigrantes precisam de serviços financeiros com custos mais baixos, e algumas organizações têm obtido sucesso em projetos de desenvolvimento coletivo, financiados através de remessas coletivas. Todavia, com a crise nos preços dos produtos alimentares e aumento do custo de vida, é provável que a maior parte das remessas aos países de origem continuem a responder às necessidades básicas das famílias dos imigrantes.
O mais importante: Obama reitera o compromisso de fazer uma ampla reforma nas políticas de imigração, como “prioridade absoluta em meu primeiro ano como presidente.” Sua proposta inclui achar um caminho para o reconhecimento da cidadania adquirida, enfrentar a burocracia disfuncional e a referência obrigatória para a segurança das fronteiras. Em resposta recente a questionário do The Sanctuary, organização que se dedica a temas latinos, ele complementa a necessidade de uma reforma na imigração com a necessidade de “incentivar a criação de empregos e o desenvolvimento econômico para diminuir a pressão para imigrar.” Ele modera todas as propostas de programas para convite à imigração afirmando que devem prever “maior proteção aos trabalhadores e não impossibilitar a aquisição da cidadania norte-americana”. Seu programa para a América Latina faz, concretamente, apelo para a participação de imigrantes na diplomacia pública.
Aspecto mais conservador está nas políticas “de segurança”. Obama insiste em manter o “Plano Colômbia” e em estender à América Central a “parceria” indesejável com o governo de direita do México
De longe, o ponto mais controverso sobre as posições de Obama em respeito à América Latina é sua preocupação com políticas de segurança. Elas têm provocado imensa controvérsia entre progressistas latinos, latino-americanos, e os analistas de política regional.
Obama lançou sua plataforma poucas semanas após o ataque do governo colombiano a um acampamento das FARC no Equador. A maioria das nações do continente, com exceção da Colômbia, apoiada pelos Estados Unidos, condenou a incursão, pelo fato de ela violar o direito internacional e os combatentes não terem sido atacados por auto-defesa, mas enquanto dormiam.
A incursão militar foi a oportunidade de mostrar o quanto o direito internacional precisa estar acima das alianças ideológicas, mas Obama fez precisamente o contrário. Ele não somente justificou o ataque do governo Uribe, mas sugeriu que:
“O Programa Andino contra as Drogas continue e seja atualizado, de forma que responda à evolução dos desafios. Vamos apoiar plenamente a luta da Colômbia contra as FARC. Iremos trabalhar com o governo para pôr fim ao reinado do terror dos paramilitares de direita. Vamos apoiar o direito desse país atacar terroristas que procuram refúgio seguro além de suas fronteiras. E vamos denunciar os governos vizinhos que derem apoio às FARC. Este comportamento deve ser exposto a condenação internacional e regional. Em caso de necessidade, adotaremos fortes sanções. Isto não pode continuar”.
O entusiástico apoio a Álvaro Uribe, na guerra contra as FARC, claramente não resultou em mudanças na atitude do governo colombiano. Uribe desdenhou de Obama publicamente por sua oposição ao Acordo de Livre Comércio entre EUA e Colômbia. Além disso, orquestrou a recente visita de McCain, dando apoio a um governo republicano em 2009. Como Obama e Uribe não morrem de amor um pelo outro, a verdadeira questão é: a quem o candidato está tentando agradar, com a linguagem dura e uma política unilateral que está desenhando?
Outro longo item sobre segurança é dedicado ao México. O texto de Obama para a América Latina apoia o Plano México e propõe “nova iniciativa para a segurança com os nossos vizinhos latino-americanos, que se estenda à América Central.”
México e Colômbia são as únicas grandes nações governadas pela extrema-direita na América Latina. Apoiar o modelo militar e policial incorporado nos planos Colômbia e México, e a tentação de equiparar a cooperação regional dos EUA com envolvimento militar, contradiz de forma clara os princípios rooseveltianos invocados no resto do documento. Talvez a “nova iniciativa de segurança” a que se refere, possa servir para alterar e não apenas ampliar o Plano México. Mas, se este for o caso, a equipe de Obama deveria desenvolver algo a partir de uma crítica do plano Bush.
Declarações do candidato sobre Chávez causaram desconforto entre parte da esquerda. Mas, ao contrário de Bush, Obama sustenta que quer diálogo com governo da Venezuela
E se, como Bush, o governo Obama planeje cavar um fosso no interior da América Latina, ao premiar aliados ideológicos e punir supostos inimigos, então teremos um problema real.
Não parece ser esse o caso, porém. Nas últimas declarações de Obama em resposta ao questionário do The Sunctuary, ele ponderou suas posições mais exóticas. Sobre o Plano Colômbia, ele observa:
“Apóio o Plano Colômbia. Contudo, é importante observar atentamente para saber se a nossa ajuda à Colômbia reflete a combinação certa de combate ao tráfico de drogas e apoio aos esforços legítimos de agricultura.”
E sobre o Plano México, Obama abre espaço para alguma ambigüidade quando afirma a importância da assistência americana “devidamente orientada” para derrotar as “quadrilhas da droga” mexicanas.
Ele acrescenta: “Temos de examinar cuidadosamente o recente pedido do governo em relação ao Plano México, sobretudo tendo em conta o segredo que envolve a formulação da proposta deste pacote.” O Congresso já destinou US$ 465 milhões ao Plano México e existe um outro pedido de US$ 400 milhões, que está sendo aguardado para o ano fiscal de 2009. Para fazer desta declaração mais do que simples retórica, é preciso promover, imediatamente, um exame crítico da extensão das políticas de segurança de Bush para o México e América Central.
A fala dura de Obama sobre criminalidade e violência é equilibrada por soluções não-militares e um compromisso de envolvimento com a Venezuela, Cuba e o resto da região. A retórica anti-Chávez, corretamente criticada por muitos como imprecisa e divisionista, não é assim tão perturbadora no contexto. Na relação entre EUA e Venezuela, ambas as partes parecem tender ao nervosismo, mas até agora ninguém pareça está atirando paus e pedras. Enquanto analistas políticos progressistas queixam-se das definições mal-informadas que Obama usou para se referir a Hugo Chávez, poucos recordam que o candidato está entre os primeiros e únicos políticos a anunciar a sua disponibilidade para uma reunião com o presidente venezuelano, e tem reiterado que não voltará atrás.
Entre o público progressista, três avaliações distintas sobre o primeiro documento de Obama. Em cada uma, um pouco de verdade
Por último, o documento do democrata comete alguns pecados de omissão importantes, que precisam ser corrigidos no futuro. O candidato só respondeu através de longos silêncios a assuntos que poderiam definir uma nova política regional, construída sobre os princípios que ele tem defendido mais veementemente. Um deles é o fechamento da Escola das Américas, a escola de formação militar em Fort Benning, Geórgia, agora renomeada Instituto de Cooperação de Segurança do Hemisfério Ocidental (WHINSEC). Ativistas têm pressionado o Congresso para encerrar as atividades da instituição que treinou alguns dos piores violadores de direitos humanos nas Américas.
Citando muitos destes pontos, o autor Greg Grandin conclui que “a Doutrina Obama” não irá representar uma ruptura clara com a Doutrina Monroe, que preza a hegemonia norte-americana na região. Tom Hayden, mais otimista, enxerga uma “palavra ambígua” e um “início corajoso”, ao passo que os críticos condenam o discurso e a plataforma como sendo mais do mesmo.
Aqui entra o salto de fé. Fatores de subjetividade aparecem no debate da plataforma de Obama para a América Latina. Ninguém acredita de fato que a política adotada seja igual à retórica da campanha. Assim, a discussão gira torno de saber se o candidato vai avançar em direção ao lado progressista ou conservador de sua plataforma eleitoral. Tal como profetas bíblicos, estamos esperando pelos sinais.
Um dos lados considera que seus “instintos são bons” para a construção de uma política externa mais humana, e as posições mais conservadoras são eleitoralistas. Entre os progressistas descrentes, existem três posições. Os céticos de Obama acreditam que suas posições progressistas compõe sua postura; porém, uma vez no gabinete, o status quo vai prevalecer. Céticos institucionais afirmam que o sistema eleitoral bipartidário nos Estados Unidos nunca irá produzir uma verdadeira mudança – sua queixa não é tanto contra Obama, mas dirige-se a qualquer pessoa que emerja do sistema político afirmando que vai mudá-lo. Finalmente, os “sistêmicos” acreditam que o sistema internacional triunfa sobre o poder de qualquer presidente — até mesmo o da nação mais capitalista e poderosa do mundo — para fazer mudanças fundamentais, mesmo caso ele (ou ela) quisessem. São, é claro, generalizações — e todas as posições têm algo de verdade. E elas servem para caracterizar debates importantes e latentes em torno da candidatura de Obama.
Em 2004, escrevi que a principal expectativa dos governos e sociedades latino-americanas em acompanhar atentamente as eleições nos Estados Unidos era evitar que as coisas piorassem. Pedir uma política de boa vizinhança parecia demais, e John Kerry — o então candidato do Partido Democrata — não conseguiu sequer romper com a retórica com os programas de “promoção da democracia”, uma intervenção militar mal- dissimulada, no âmbito da chamada guerra ao terrorismo e às drogas. Em outras áreas, o candidato democrata à época conseguiu fazer bem o discurso, mas as propostas de política externa repetiam as fórmulas exauridas do passado.
Por que há uma sensação diferente, agora?
A primeira razão é que a política da Obama para região reflete uma significativa mudança de perspectiva. A melhor maneira de ilustrá-lo é a seguinte frase a partir de seu discurso em Miami:
“O que é bom para a população das Américas é bom para os Estados Unidos”. Frase expressa total inversão na postura norte-americana na América Latina, e permite apostar na mobilização
“É tempo para uma nova aliança das Américas. Após oito anos de vigência das políticas fracassadas do passado, precisamos de novas lideranças para o futuro. Depois de pressionarmos durante décadas por reformas de cima para baixo, precisamos de uma agenda que promova a democracia, a segurança e oportunidades de baixo para cima. Por isso, a minha política para as Américas será orientada pelo simples princípio de que o que é bom para a população das Américas é bom para os Estados Unidos. ”
“O que é bom para a população das Américas é bom para os Estados Unidos” não é nada menos que uma total inversão da história norte-americana na região. E a América Latina de hoje mostra que esta nova fórmula não é baseada em altruísmo, mas em uma leitura atenta da realidade. A maior parte das ameaças para a segurança humana, bem-estar econômico e as liberdades democráticas tem surgido justamente devido à sucessão de governos e das políticas do governo norte-americano. As instituições financeiras internacionais tornaram impossível fazer “o que é bom para o povo.” O resultado é que a América Latina enfrenta maior desigualdade do que qualquer região do mundo, e mais de metade da população vive em estado de pobreza.
Esta perspectiva parece também reconhecer que a América Latina amardureceu e valida, em princípio, experiências de reforma na região que o governo Bush tem amaldiçoado.
Não é por acidente que o programa de Obama para a América Latina saiu de um modelo rooseveltiano. Ultimamente o candidato, o grupo Progressistas por Obama[Progressives for Obama. O [manifesto de lançamento do grupo foi publicado pela revista The Nation]], outros think-tanks, e grupos de cidadãos têm usado os conceitos de Roosevelt para tentar reconstruir os princípios da Política de Boa-vizinhança da década de 1930, e também para demonstrar à opinião pública norte-americana que uma mudança significativa na nossa política externa é possível.
Para a América Latina — o espaço em que foi encenada a Política de Boa-vizinhança original — a analogia é especialmente relevante. Hoje, muitos movimentos populares e novos governos inclinados à esquerda defendem programas sociais mais próximos ao New Deal de Roosevelt que ao “Consenso de Washington”. O governo Bush, que enxergou isso como uma ameaça, não pode perceber que as turbulências na América Latina eram um convite para rever o atual modelo de integração econômica e a adotar maior flexibilidade.
Este é o outro motivo por que a política para a América Latina é importante hoje. Livre de conflito generalizado, repleta de democracias e num processo de grandes redefinições de políticas, a região é um laboratório para mudanças, em um mundo globalizado. É exatamente o que há diversos países têm feito por lá, ao longo dos últimos anos.
Em segundo lugar, existem razões para suspeitar que Obama, o ser humano, tem de fato bons instintos. Seu passado, sua experiência em organização, e os suas posições anteriores na vida política diferem das da maioria dos políticos, e sua posição na comunidade afro-americana lhe permite maior sensibilidade para os historicamente excluídos.
“Corresponder à retórica com atos”, a expressão utilizada no documento sobre a América Latina, será um grande desafio. Obama terá de fazer jus à promessa de buscar “o que seja bom para todos, não só para Wall Street”, insistindo que as corporações devem obedecer o direito internacional e sacrificar parte dos mega-lucros que retiram da exploração dos recursos naturais nos países da América Latina. Se isso significa dizer à Chevron que está sozinha na batalha legal contra o governo equatoriano, envolvendo destruição de milhares de hectares de floresta amazônica, ou à Chiquita que não é bom contratar paramilitares para proteção na Colômbia, exclente.
Dois equívocos a evitar: a crença em que a simples eleição de Obama dará início a uma nova era e o fatalismo de pensar que ele governará obrigatoriamente de acordo com as mesmas velhas práticas
Como em todos os aspectos da reforma na política externa, o fator crítico na definição de uma nova política regional é a capacidade de romper a inércia em Washington, que tem limitado a visão e a ação para mudança. A equipe de Obama terá de receber com uma pitada de desconfiança as recomendações políticas e econômicas do, digamos, Conselho de Relações Exteriores. Num recente relatório, o órgão voltou a lançar apelos cansativos à liberdade de comércio e ecoou Condoleezza Rice, ao considerar medidas para a redistribuição da riqueza nacional, adotadas na América Latina, como um sinal de “ressurgimento dos nacionalismos.” Eleito presidente, ele deve estar disposto a manter as promessas políticas, mesmo quando os lobbies pressionarem, ou que os analistas de pesquisas e os políticos tradicionais “advertirem” que tais promessas não são majoritáris.
A razão mais importante para pensar seriamente em mudança é que a campanha de Obama é maior do que o próprio candidato. A mídia tem procurado convencer o público a ser cético em relação a uma mudança real. O movimento, ainda incipiente, para desafiar esta domesticação é o maior feito da campanha de Obama até agora. As relações de respeito mútuo no hemisfério não dependem apenas de eleições presidenciais; dependem de uma reativação da sociedade civil nas Américas, em um momento crítico para a região.
No debate sobre a mudança na política externa, não se trata novamente de sentar e esperar para ver quem tem razão: os que acreditavam que elas eram possíveis ou os que apostaram no fracasso. Não podemos abrir espaço para os extremos. Nem o cenário otimista, segundo o qual a simples assunção de Obama dará início a uma nova era nas relações dos EUA com a América Latina; nem o pessimista, em que, congelado pela inércia do sistema, ele vai governar de acordo com as mesmas velhas práticas. Nenhuma destas visões abre espaço para a participação ativa dos cidadãos na definição de uma nova política externa.
Se a campanha de Obama continuar a construir uma base popular, incorporando setores da população que haviam sido afastados da participação democrática — especialmente jovens –, teremos a matéria-prima para fazer a mudança. Em última análise, esta mudança não irá depender somente de receitas políticas, mas de uma nova auto-imagem política coletiva que, como disse Roosevelt, respeita a si mesma, a fim de respeitar os direitos dos outros.
Especialmente para esta edição, Pedro Marques nos oferece trechos de seu último livro – Manuel Bandeira e a música: com três poemas visitados –, recentemente publicado, em co-edição, pela Editora Ateliê e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Os trechos foram editados por Marques, de maneira a transformá-los num ensaio que é não apenas uma introdução à Bandeira, mas também um estudo sobre o tema da infância em sua obra. Saliente-se a sutil, minuciosa análise do poema “Sacha e o poeta”.
Dida Bessana escreve sobre o romance histórico Maria de Sanabria – a lendária expedição das mulheres que atravessaram o Atlântico no século XVI, do ítalo-uruguaio Diego Bracco. Mais que uma resenha, o texto dialoga com o autor – que participou do Salão de Idéias da última Bienal do Livro de São Paulo –, explicitando as relações entre ficção e história.
Fábio Fernandes aproveitou a estréia do filme Ensaio sobre a cegueira para reler a obra homônima de José Saramago. Recuperando Jorge Luis Borges e H. P. Lovecraft, Fábio resgata o tema do labirinto, introjetado, tornado imaterial, parte da consciência humana, na ficção que Fernando Meirelles reconta. Quando não há mais lugar para a esperança, o que resta ao homem, além do labirinto?
Renata Miloni analisa o infanto-juvenil O fazedor de velhos, de Rodrigo Lacerda, publicado pela Cosac Naify. A literatura como meio de superação das incertezas e das decepções, de encontro com o outro e de abertura para o amor: todos esses elementos se encontram na história de Pedro, o jovem protagonista, e na relação que ele manterá com Nabuco, o velho mestre, seu guia nessa jornada de autoconhecimento.
Tem coisas que não dá pra traduzir. Por melhor que você chegue a falar uma segunda língua, existem expressões que necessitariam de tanto tempo para serem explicadas que é melhor nem tentar.
Isso não sai da minha cabeça desde que estava em um festival em Paris e, meio da muvuca, alguém deu um grito. Uma espécie de senha-para-se-reconhecer-brasileiro-em-show-de-rock-em-qualquer-parte-do-mundo. O “toca Raul!” saiu esganiçado, quase desafinado. Mas era um “toca Raul!” legítimo, bem audível.
Como explicar para um francês todo o significado sócio-anárquico-místico-irônico-contracultural da expressão?
– Não dá pra explicar.
– Tenta.
– O Raul Seixas é um músico baiano, um pioneiro do rock brasileiro.
– Então as pessoas querem escutar as músicas dele no show?
– Não é isso.
– E por que pedem para tocá-las?
– Elas não estão pedindo para tocá-las. Só estão gritando “toca Raul!”.
– Não entendo.
– Eu disse que era complicado.
– Continua.
– O Raul Seixas fez muito sucesso nos anos 70, principalmente pelas músicas em parceria com o Paulo Coelho.
– Paulo Coelho, o bruxo adorado aqui na França?
– O próprio.
– Já até imagino. Eram músicas de meditação, de elevação espiritual, né?
– Na verdade, muitas eram de adoração ao coisa ruim.
– Coisa ruim?
– O canhestro.
– Hein?
– O príncipe das trevas.
– Paulo Coelho adorando o capeta? Agora embolou tudo.
– Avisei…
– Deixa eu tentar compreender: as pessoas pedem músicas do Raul Seixas, mas não querem escutá-las. E muitas dessas músicas foram feitas juntas com o diabo, mas adoravam o Paulo Coelho.
– Na verdade, é o contrário.
– É confuso.
– Ele também era confuso. Tanto que ficou conhecido como maluco beleza.
– Era doido?
– Era. Quer dizer, não era. Bom, talvez fosse. Sei lá. E o mais curioso é que existe até hoje uma legião de fanáticos que se vestem exatamente como ele.
– Então são esses os malucos beleza que gritam “toca Raul!”?
– Nem sempre.
– Eu acho que nunca vou entender o que isso significa.
– É complicado mesmo. “Toca Raul!” é uma expressão muito brasileira. Tão brasileira quanto a Gisele Bündchen.
– Gisele Bündchen? Ela não é alemã?
– Ah, não enche.
Mais
Daniel Cariello assina a coluna Chéri à Paris. Também mantém o blog de mesmo nome e edita a revista bilíngüe Praias, pandeiros e limoncelos
As primeiras notas foram facilmente reconhecidas. E todos entraram juntos no refrão de No Woman No Cry. Todos, menos o próprio violeiro, que ficou novamente pelo caminho, mais estático que a Vênus de Milo
Sene-Sene-Senegal
— Táxi?
— Não, obrigado.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Mas alguém vem te buscar?
Pequenos espaços, grandes problemas
— E aí escolheram a resposta mais criativa.
— Que pergunta?
— “Qual a diferença entre a mulher e a televisão?”
— E o que você respondeu?
— O controle remoto!
Arigatô, monsieur
. No bairro chinês tem um McDonalds com cardápio em chinês. Ou em japonês, sei lá.
. Apesar de ter sido criado por um japonês, o Miojo e seus derivados são chamados aqui de “macarrão chinês”.
. O bairro chinês, na verdade, fica na Praça da Itália.
Um quadro, três histórias
Verdadeiros samurais modernos, munidos de máquinas fotográficas ao invés de espadas, os japoneses não se importaram com as dimensões da obra e nem com o aviso, e saíram clicando em uma velocidade digna de Guiness. Do livro dos recordes, claro, não da cerveja
Salamaleque!
— Bra bra bra minha mulher bra bra bra bra.
— Eu sei, eu sei. Também acharia estranho o fato de a moto sumir.
— Bra bra bra bra bra loja… Gentil bra bra.
— Que isso… Precisando é só chamar.
Roteiro de viagem
— Essa, não.
— Não quer visitar a Torre Eiffel?
— Quero não.
— Mas todo mundo que vai a Paris visita.
— Pois eu vou ser o primeiro a não ir.
Calendário de inverno
— No fim das contas, o que importa é que o verão está chegando. Quais são seus planos?
— Eu vou pro Brasil.
— Pro Brasil, pro inverno de lá? E vai fazer o quê?
— Como assim? Usar todos esses casacos que comprei, claro.
Eu x Zidane
“Senti o peso e a responsabilidade. 160 milhões de brasileiros e 60 milhões de italianos esperavam ansiosos por alguma ação minha. Respirei fundo e, imitando o meio-campista francês, meti a testa no peito do cara, com mais força do que o previsto”
Paris para crianças
— Você sabe o que é escargot?
— Não.
— É um caramujo.
— Eca.
— Os franceses comem.
— É por isso que eles fazem aquele biquinho?
Protesto!
Todo dia tem uma manifestação em Paris, pelos motivos mais diversos. Ontem, esbarrei em uma passeata pelo direito dos cães. Quando cheguei em casa, encucado, comecei a fazer uma lista de possíveis novas campanhas, organizações e movimentos, caso a inspiração dos parisienses acabe um dia
Como falar francês sem falar francês
Quanto boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: “pardon, j’ai été inattentif”. Em bom português, “desculpa, estava desatento”. Mas nunca peça pra repetir
Pinga ni mim
Eram eles de novo, acompanhados por três policiais. Entraram e pegaram nossos dados. Enquanto um escrevia, os oito restantes ollhavam pra parede. Tinha tanta gente admirando os pingos que tombavam, como se fosse uma instalação, que se eu abrisse umas cervejas pareceria um vernissage
Alô, Hugo
— É o Hugo, mexicano?
— Não. É o Daniel, brasileiro.
— Mas você fala espanhol? (…) Que estúpida eu sou. Você fala brasileiro, né?
— Também não.
A Terceira Guerra Mundial
O argelino suava. Sua hegemonia estava em jogo. Se tivesse razão, teria o ego tão inflado que voltaria voando pra casa. Se estivesse errado, perderia o posto de professor de Deus, que ele mesmo se concedera. A russa só ria, mostrando sua milionária arcada dentária para a turma
Procura-se pão francês
— É o pão do dia-a-dia no Brasil.
— E vocês o chamam de pão francês? Olha, acho que ele não existe na França.
— Quer dizer que temos sido enganados esse tempo todo?
— Lamento te revelar isso assim, de sopetão.
Marco Catalão, em sua coluna “Vozes hispânicas”, apresenta a obra poética de Pedro Salinas, cuja principal característica é “uma biografia do próprio amor, em suas infinitas variações, com a ambigüidade insolúvel de prazer e dor, presença e ausência, plenitude e fracasso”.
Alysson Oliveira analisa o romance O encontro, de Anne Enright, vencedor do Man Booker Prize 2007. Segundo Oliveira, “Enright não está preocupada em contar uma história, mas em desconstruir o passado de uma família infeliz”, utilizando-se, para tanto, de “uma narrativa que disseca momentos da história familiar seguindo uma ordem ilógica”.
Diego Viana fala sobre Paris em agosto: “é a estação que o povo inteiro esperava para fechar seus postos de trabalho, subir no carro ou no trem e tomar o rumo do sul, como uma nação de andorinhas ocasionais”.
Fechamos a edição desta semana com a narrativa “Eclipse”, da escritora Maria Valéria Rezende: “Nem se lembra do antes. Nas suas mais longínquas memórias ele está sempre. Todo o resto de sua infância perdeu-se numa nebulosa indefinida. Ele é sua lembrança mais antiga e nítida”.
Senta-se na cama e abre a caixa de madeira marchetada, presente dele para os 15 anos dela. Aliás, o único presente de verdade que ele mesmo escolheu, não comprado pela mãe para ele dar.
Ana Clara examina meio distraída as muitas páginas arrancadas de revistas, todas com fotografias dos artistas de cinema vestidos na farda branca da marinha americana, que inundaram os filmes da década pós-guerra. Num canto da caixa, uma latinha de pastilha Valda, meio enferrujada, e uma fotografia em branco e preto de um grupo de crianças, mero instantâneo sem nenhuma arte, em que duas cabecinhas estão emolduradas por um canhestro círculo de tinta vermelha.
Folheia tudo aquilo como se fosse um livro várias vezes lido e relido. Já não são gestos nem lembranças que emocionem, apenas um hábito para passar o tempo cada vez que deseja eclipsar-se da sala, trancando-se no seu quartinho. Lá fora, a festa já vai a pleno vapor, esperando-se apenas a chegada de Murilo e Beatriz para cantar-se parabéns, apagar-se o bolo e o conjunto de chorinho começar a tocar. Bodas de ouro dos avós, tinha de ser chorinho.
Nem se lembra do antes. Nas suas mais longínquas memórias ele está sempre. Todo o resto de sua infância perdeu-se numa nebulosa indefinida. Ele é sua lembrança mais antiga e nítida.
O que lembra é a maravilhosa sensação de completude, de realidade densa e excludente de todo o vago mundo que ficava de fora daquele armário, quando ali metiam-se os dois, ela e Murilo, nas brincadeiras de esconder. Ninguém mais, em todo aquele bando de crianças que invadia a chácara dos avós nas férias, teria a estapafúrdia idéia de esconder-se no guarda-roupa de tia Argentina, nem sequer de entrar em seu quarto. Tão esquisita, brava que ela era! Pois teve-a Murilo, talvez por viver longe e não conhecer bem a fama da tia bruxa.
Ele abria com cuidado a porta do quarto quando Ana Clara, buscando também esconderijo, dobrou a esquina do corredor e o viu. Murilo lhe fez sinal de que se calasse e o acompanhasse.
Inaugurou-se assim a experiência mais fundamental de sua vida, a única vida real que viveu até hoje. O guarda-roupa era pequeno, escuro e cheirava a mofo. Murilo, muito crescido para sua idade, ocupava quase todo o espaço lá dentro e ela só cabia porque ele a enlaçava com os dois braços e a apertava bem junto dele. E suspendia-se o tempo, a luz, o movimento, o som. Os dois imóveis, ela sentindo o calor do corpo dele, a delícia do cheiro dele, suor, hortelã e sabonete Eucalol, a umidade da franja de cabelo dele empapada de suor contra a testa dela. Só isso, até que ouvissem os gritos dos outros chamando por Murilo. E isso era tudo, a concentração suprema da felicidade. Os dois, no escuro.
Desde então, sem que nunca trocassem uma palavra a respeito, foi sempre assim enquanto perdurou entre eles a brincadeira de esconde-esconde, que o passar do tempo fatalmente haveria de soterrar. Ela dava a volta por um lado da casa, ele partia correndo na direção oposta, mas era no armário de tia Argentina que acabavam os dois, fundidos naquele silêncio e naquela imobilidade.
Fora dali, apenas algum olhar cúmplice, de vez em quando, mais nada. Só uma vez, quando perdeu o primeiro dente, sem nada explicar, ele lhe entregou a latinha de pastilha Valda com o dentinho tilintando lá dentro. Um ano depois, foi a vez dela presenteá-lo, sempre sem palavras, com o seu primeiro dente perdido, acondicionado num lindo saquinho que Natália tinha jogado na cesta de papéis do quarto das meninas, de plástico branco, com folhas verdes e flores vermelhas e a palavra “tampax” impressas. Era lindo o saquinho, que se fechava puxando um cordão de seda, e Murilo beijou-o antes de escondê-lo no bolso da calça.
Fim das férias, ele partia para São Paulo, ela voltava para a casa na cidade, a escola, e nada sabiam um do outro até o encontro do verão seguinte na chácara e no guarda-roupa de tia Argentina. De repente, sem que se soubesse bem porque, já ninguém mais falou em brincar de esconder. Depois do jantar, Murilo e ela, naturalmente, debruçavam-se na balaustrada da ponta mais escura da varanda, em silêncio, para ver a lua e as estrelas. Uma vez, apenas, ele lhe disse que ela estava da cor da lua, “Você é como a lua, Ana Clara, Ana Escura, Ana aparecendo, Ana se escondendo…”.
Dois anos depois ele deixou de vir nas férias: estava se preparando para o exame da escola da Marinha. Foi então que ela começou a colecionar as fotografias de artistas fardados de branco e a, pouco a pouco, compreender o que significava para ela o laço silencioso que a juntava a Murilo. Levou um susto enorme quando ouviu alguém dizer que casar-se com primo não podia, era pecado, além de perigoso para a saúde dos filhos do casal. Depois de dias de angústia, perguntou: Mamãe, Murilo é meu primo? E soube que não era propriamente primo, de sangue: era o neto de tia Clarinha, que fora a melhor amiga de Vovó e morrera muito cedo. Esperou, aliviada. Nos quinze anos dela, Murilo não veio, mas mandou a caixa de presente. Fez questão de escolher ele mesmo, disse Vovó.
Na festa de bodas de prata de tio Cláudio, ele, afinal, apareceu. Festão! Até Beatriz, a prima do Rio de Janeiro, viria para a festa, aquela Beatriz pouco conhecida, exibida, estabanada, que dizia que os primos daqui eram “do interior”, embora os ofendidos se cansassem de explicar que isto era uma ilha no mar, nem sequer estava no continente, como é que podia ser “interior”? Beatriz, sempre bronzeada, muito mais do que nós, não sabíamos por quê, se o sol daqui é o mesmo de lá. Beatriz era dourada, puro sol.
Murilo chegou trajando a farda branca de guarda-marinha. Lindo. Ana Clara estava feliz com seu vestido cinza com reflexos prateados. Cor de lua. Murilo beijou-a de leve no rosto mas, como sempre, guardou silêncio. Ficaram os dois assim, imóveis, calados, ela de olhos fechados para reviver a felicidade do armário. Êxtase.
Ana Clara voltou a si com um murmúrio em crescendo que encheu a sala. E viu a moça dourada, de vestido amarelo como um girassol, ou melhor, o próprio sol. Eram os outros que se voltavam para ela, que se acercavam, moviam-se acompanhando os movimentos dela. Murilo também. Foi a ele que Beatriz escolheu: Murilo! Que lindo está de farda! Veio direto de Angra para cá? Por que não me disse que vinha, podíamos ter vindo juntos. Ele virou-se inteiramente para Beatriz. Ana Clara ficou parada à sombra das costas dele, eclipse que perdurou para sempre. Ela, sozinha, do lado escuro.
“O passado é um país estrangeiro: eles fazem as coisas diferentes lá”, comenta L. P. Hartley no início de seu romance O mensageiro. Para Veronica Hegarty, protagonista e narradora de O encontro, de Anne Enright (Editora Alfaguara), esse também é um país tedioso e infeliz. Porém, ela é obrigada a visitá-lo depois que seu irmão, Liam, suicida-se da mesma forma que Virginia Woolf: afogando-se num rio, com os bolsos cheios de pedras.
Nesse livro, ganhador do Man Booker Prize de 2007, o passado ressurge como um país coberto de neblina. Nem tudo é lembrança, alguma coisa é reconstituição, outras são palpites. O filtro seletivo da memória de Veronica prega peças nela, e faz com que se aproprie da história de outras pessoas. Não são poucas as vezes, ao longo da narrativa, em que ela se pergunta se algo realmente aconteceu, e, em caso afirmativo, se foi daquela forma. Num dos momentos em que pensa nas brincadeiras de infância com seus irmãos, ela faz suposições: “O mais provável é que Liam tenha posto a touca no meu rosto e quase me matado. Ou foi Kitty que foi sufocada por nós dois”.
Veronica, mãe de duas filhas e esposa infeliz, era a irmã mais próxima de Liam, por isso cabe a ela ir de Dublin a Londres buscar o corpo do irmão. Essa é a tênue linha narrativa que costura os fragmentos de O encontro. Enright não está preocupada em contar uma história, mas em desconstruir o passado de uma família infeliz, por isso, esse não é bem um livro que acumula camadas de compreensão para o leitor – mas uma narrativa que disseca momentos em família seguindo uma ordem ilógica.
A avó Ada (esse nome seria uma homenagem ao brilhante Ada ou ardor, de Vladimir Nabokov?) é uma figura importante no passado de Veronica, assim como Charlie Spillane, o marido de Ada, e Lamb Nugent, o amigo, e possível amante da avó. Como a narradora não pôde, obviamente, vivenciar o passado dos avós, o que ela toma como a história desse triangulo amoroso é feito de suposições, fragmentos que ela conhece somados à sua imaginação.
“Cada um de nós ama alguém, mesmo sabendo que eles vão morrer. E continuamos amando, mesmo quando não estão mais lá para a gente amar. E isso não tem nenhuma lógica, nenhuma utilidade, assim eu vejo”, pondera uma Veronica um tanto amargurada com o caminho que as vidas tomam. Depois da morte de seu irmão, ela se afasta, em seu luto, do marido e das filhas, e passa a perambular à noite pela casa, pelas ruas sem destino. O seu maior questionamento é como ela e o irmão, que tiveram uma infância e uma juventude tão próximas, podem ter tomado caminhos tão diferentes.
Ao longo de O encontro, a escritora está mais preocupada com a composição da frase, com a escolha das palavras do que com a elaboração de uma narrativa ao modo clássico. E é nessa opção pelo sensorial que ela encontra força nas imagens que cria. Cores, sons, odores e texturas têm um papel fundamental para criar no leitor uma sensação de sinestesia. “O vestido de Ada farfalha junto ao corpo quando ela se põe de pé. E podia bem cair inteiramente no chão a seus pés; o vestido podia ser feito de água, podia ser uma poça de cor em torno dos pés dela, tão nua que ela parece agora.”
É nesse passado misterioso dos avós, que tenta recriar, que Veronica busca a origem da infelicidade da família. Sua mãe sempre vaga; Liam problemático; os outros irmãos, ensimesmados em suas próprias vidas. Como o país estrangeiro chamado passado raramente é agradável aos Hagerty, O encontro tem uma atmosfera melancólica que chega, muitas vezes, a ser depressiva. O que não é nenhuma surpresa, afinal, o romance lida com frustrações e perdas – em especial a morte.
Terreno incerto e brumoso
No entanto, é reducionista dizer que, pela temática e abordagem, o livro de Enright é plenamente depressivo. É melancólico, certamente, mas, ao mesmo tempo, instigante, como todas as grandes obras de arte podem ser. No filme As horas, baseado no romance homônimo de Michael Cunningham, a escritora Virginia Woolf é um personagem de ficção começando a escrever sua obra-prima, Mrs. Dalloway. Ela está certa de que um personagem deverá morrer. Mas quem? A protagonista frustrada? Ou o poeta visionário? Quando seu marido e editor, Leonard Woolf, pergunta por que alguém deve morrer, ela responde que é para que os outros valorizem mais a vida. Em O encontro, os que sobrevivem podem ter uma nova visão sobre o mundo, sobre a vida – mas será que a valorizam? Ao colocar uma personagem questionando o passado, a autora leva o leitor a um terreno incerto e brumoso, que pode ser tão doloroso para ele quanto de fato é para os personagens. “Existe uma coisa maravilhosa na morte, como as coisas todas se fecham e as atitudes que você considerava vitais não são nem vagamente importantes.”
O “encontro” do título é algo difícil de definir. Pode se referir ao encontro da família no funeral de Liam (com cenas tão pungentes como engraçadas), ou ao encontro de Veronica com o corpo do irmão. Contudo, é mais provável que se refira ao encontro do passado com o presente, um círculo que tenta se fechar.
Nesse país estrangeiro chamado passado, Veronica se perde e se reencontra inúmeras vezes. É por meio dessa tentativa de reconstrução que o leitor encontra algo de passional, embora distante, na prosa de Enright. Em um de seus momentos de lucidez, a protagonista pondera que “o que [a] deixa surpresa [...] não é o fato de que todo mundo perde alguém, mas que todo mundo ama alguém. [...] Cada um de nós ama alguém, mesmo sabendo que eles vão morrer. E continuamos amando, mesmo quando não estão mais lá para a gente amar. E isso não tem nenhuma lógica. Nenhuma utilidade, assim eu vejo”. Mas, em O encontro isso é o visto no passaporte para entrar num país distante e desconhecido.
Nos quatro cantos do mundo, supersticiosos tremem à simples menção do nome de agosto, esse mês maldito de catástrofes e guerras, massacres e crises. Há quem proponha revogar essa página do calendário; cedem-se uns dias a junho, os outros a setembro, e talvez assim o mundo encontre a paz. Sem russos na Geórgia, sem alemães na Polônia, sem turcos na Grécia. Seria sacrificado, é verdade, o tributo a Otávio, o primeiro imperador, mas estou certo de que, se pudesse escolher, o augusto herdeiro de César desceria do pedestal de seu mês em nome da paz entre os povos. À parte suas vitórias militares, era um pacifista.
Sejam quais forem as desgraças que podem recair em agosto sobre as cabeças dos mortais, asseguro que elas não recaem sobre cabeças parisienses. Se o anjo exterminador, em seu mês mais ocupado, se decidir a sobrevoar esta capital, terá dificuldade em encontrar vítimas para sua perversidade. Vai encontrar apartamentos e escritórios de portas trancadas, nada mais. Infelizmente para o espírito do mal, cada alvo possível já irá bem longe.
O verão já nem é mais aquele. A claridade e o calor de julho estão mitigados e não se pode mais andar à noite com as mesmas roupas leves do dia. Mesmo algumas folhas particularmente frágeis já adiantaram os ponteiros para o outono e secam antes da hora. Em outras palavras, é a estação que o povo inteiro esperava para fechar seus postos de trabalho, subir no carro ou no trem e tomar o rumo do sul, como uma nação de andorinhas ocasionais.
Tenho certeza de que ainda hei de ver o dia em que as placas de rua de Paris serão trocadas pelo inglês, só neste período, para facilitar a circulação. Francês, para quê? Todos que falam essa língua estão longe, dando seus mergulhos em Nice e em Cannes, ou então, por que não, se sobrou um dinheirinho, na Sicília, na Tunísia, na Indonésia. Até no Brasil, já que é inverno e não faz aquele calor horrível. Por aqui, só resta a gente de fora, que veio pegar a fila da torre Eiffel e deixar uns caraminguás de que os cofres da república bem carecem.
O mais belo volume sobre Paris
Não tente viver como um francês em Paris em agosto. Já ao longo do ano essa é uma idéia de turista com complexo de superioridade; no verão, simplesmente não é possível. Faltam as padarias para comprar baguete, faltam cafés para se sentar à calçada e quiosques para brigar por um jornal. Por outro lado, posso deixar, como sugestão ao visitante com gosto por flanar, a idéia de se meter pelas ruas de comércio, desertas e paralisadas. Onde deveria haver velhinhas com carrinhos de feira, só se encontram americanos armados de máquinas fotográficas, japoneses com filmadoras, o de sempre. Perplexos todos, claro, desconfiados talvez de que os locais fugiram de sua chegada.
A cada golpe de vento, balançam os avisos nas vitrines vazias. Foram afixados pelos comerciantes no último dia do expediente, na empolgação de quem vai partir e aproveitar, até que enfim, o calor tão fugaz do continente, longe dessa paisagem ocre da capital. Dizem os papéis, às vezes impressos, às vezes rabiscados à mão, que os estabelecimentos estarão fechados de tal data a tal data, por motivo de descanso anual, como já desconfiávamos nós, os leitores. E eventualmente algum vendedor se lembra de abrir uma concessão à simpatia e deseja “boas férias” a todos. Isto é, aos clientes. Tenho um amigo fotógrafo que planeja lançar um livro só com imagens desses recados. Será mais um belo volume sobre Paris.
A tranqüilidade das ruas vazias é, por momentos, um alívio. Mas não demora para se tornar desoladora, angustiante até. Afetada pela falta de um movimento que costuma ser intenso, minha cabeça acaba entrando numa espiral de cálculos que por pouco não me enlouquece. Para começar, suponho um valor de aluguel, que naturalmente esse é um custo que não deixa de ser imposto só porque é verão. Desconto dele o custo da matéria-prima, mas adiciono novamente a mão-de-obra, paga o ano inteiro, decerto, ainda mais com as férias remuneradas. Subtraio em seguida as contas de luz, gás e água e tento distribuir o restante pelos demais onze meses, para calcular a provisão necessária a essa pequena liberdade. Nem precisaria ter me perdido nos números para entender que existe um impacto sobre o preço ao consumidor.
Especulo sobre a mentalidade empresarial do comerciante de rua francês. Se ele estivesse preocupado em fazer dinheiro, bastaria seguir o exemplo das grandes redes. Contratam-se estudantes durante o verão, de preferência jovens bem apresentáveis que dominem o inglês; vende-se uma enormidade de produtos menos qualificados para os turistas, sempre desesperados por jogar dinheiro fora; aumentam-se os preços, considerado o fator sazonal, e sem titubear, que é a lógica dos negócios. Daí por diante, resta apenas faturar.
Mas a racionalidade econômica passa ainda mais longe desses pequenos estabelecimentos do que o anjo exterminador que avassala o resto do mundo em agosto, o mês do cão. Não vou ser cretino a ponto de associar uma coisa à outra, mas claro está que quem vai ao longe protegido fica. No fundo, é um alento perceber que ainda resta uma categoria no mundo que se permite não pensar como profissional uma vez ou outra. No lugar de encaixar o balanço patrimonial, como mandam os manuais, que tal fechar tudo e ir à praia, para variar? Que se descabelem os supersticiosos, os reformadores do calendário. Aqui, agosto é mês de descanso, não é mês de se expor a desgraças.
Composta por nove livros, publicados entre 1923 e 1955, a obra poética de Pedro Salinas (1891-1951) encontra seu centro na trilogia formada por La voz a ti debida (1933), Razón de amor (1936) e Largo lamento (1938), que condensam, unificadas na temática amorosa, as principais vertentes de sua poesia: o conflito entre aparência e realidade; a busca por uma palavra poética que supere as limitações da linguagem cotidiana; a interrogação acerca dos limites da identidade individual. Assim, a experiência amorosa surge nesta obra como um processo de busca e de conhecimento, empreendido não apenas no momento fugaz da união, mas sobretudo na solidão e na ausência.
Como assinalou o poeta Jorge Guillén, os títulos desses três livros estabelecem um diálogo com a tradição literária espanhola. A Idade Média, o “Século de Ouro” e o século 19 ecoam respectivamente em Razón de amor (que alude a Razón feita d’amor, obra do século 13 em que o relato amoroso é acompanhado de um debate sobre seus desdobramentos), La voz a ti debida (expressão tomada de uma écloga de Garcilaso de la Vega) e Largo lamento (título que alude a uma Rima de Bécquer). No primeiro livro da trilogia, observamos o encontro amoroso e a tentativa de descobrir a essência da amada; no segundo, a separação dos amantes e a reflexão mais madura acerca do sentimento; no terceiro, o fim doloroso e o reencontro impossível.
Mais do que uma biografia individual, linear e prosaica, o que se oferece aqui é uma biografia do próprio amor, em suas infinitas variações, com a ambigüidade insolúvel de prazer e dor, presença e ausência, plenitude e fracasso, que o caracteriza. “Memória / de um ontem que foi carne”, não faltam aos versos de Salinas a substância palpável e viva da experiência amorosa, que os afasta da mera abstração. A “verdade de dois”, mínima e precária, ultrapassa a verdade cotidiana, e encontra sua razão e sua plenitude no único lugar em que ela pode perdurar: no universo recriado pela poesia.
{¿Serás, amor,
un largo adiós que no se acaba?
Vivir, desde el principio, es separarse.
En el primer encuentro
con la luz, con los labios,
el corazón percibe la congoja
de tener que estar ciego y solo un día.
Amor es el retraso milagroso
de su término mismo;
es prolongar el hecho mágico
de que uno y uno sean dos, en contra
de la primer condena de la vida.
Con los besos,
con la pena y el pecho se conquistan
en afanosas lides, entre gozos
parecidos a juegos,
días, tierras, espacios fabulosos,
a la gran disyunción que está esperando,
hermana de la muerte o muerte misma.
Cada beso perfecto aparta el tiempo,
le echa hacia atrás, ensancha el mundo breve
donde puede besarse todavía.
Ni en el llegar, ni en el hallazgo
tiene el amor su cima:
es en la resistencia a separarse
en donde se le siente,
desnudo, altísimo, temblando.
Y la separación no es el momento
cuando brazos, o voces,
se despiden con señas materiales:
es de antes, de después.
Si se estrechan las manos, si se abraza,
nunca es para apartarse,
es porque el alma ciegamente siente
que la forma posible de estar juntos
es una despedida larga, clara.
Y que lo más seguro es el adiós.}
Serás, amor,
um longo adeus que não termina?
Viver, desde o princípio, é separar-se.
Já no primeiro encontro
com a luz, com os lábios,
o coração percebe a angústia
de ter que estar um dia cego e só.
O amor é o milagroso adiamento
do seu término mesmo:
é prolongar o fato mágico
de que um mais um ainda sejam dois,
contra a sentença inicial da vida.
Com os beijos,
com a tristeza e o peito se conquistam,
em trabalhosas lutas, entre gozos
semelhantes a jogos,
dias, terras, espaços fabulosos,
à grande disjunção que está esperando,
irmã da morte ou morte, simplesmente.
Cada beijo perfeito afasta o tempo,
joga-o pra trás, dilata o mundo breve
onde é possível se beijar ainda.
Nem na chegada, nem no encontro
tem o amor seu cume:
na resistência a separar-se
é onde nós o sentimos,
despido, altíssimo, tremendo.
Nossa separação não é o momento
em que braços ou vozes
despedem-se com gestos materiais:
é de antes, de depois.
Se as mãos se estreitam, se se abraça,
não é jamais para se separar,
é porque a alma cegamente sente
que a forma única de se estar junto
é numa despedida longa, clara.
E nada é mais seguro que o adeus.
***
{No quiero que te vayas,
dolor, última forma
de amar. Me estoy sintiendo
vivir cuando me dueles
no en ti, ni aquí, más lejos:
en la tierra, en el año
de donde vienes tú,
en el amor con ella
y todo lo que fue.
En esa realidad
hundida que se niega
a sí misma y se empeña
en que nunca ha existido,
que sólo fue un pretexto
mío para vivir.
Si tú no me quedaras,
dolor, irrefutable,
yo me lo creería;
pero me quedas tú.
Tu verdad me asegura
que nada fue mentira.
Y mientras yo te sienta,
tú me serás, dolor,
la prueba de otra vida
en que no me dolías.
La gran prueba, a lo lejos,
de que existió, que existe,
de que me quiso, sí,
de que aún la estoy queriendo.}
Não quero que te vás,
ó dor, última forma
de amar. Estou sentindo-me
viver quando me dóis,
não em ti, nem aqui;
longe: na terra, no ano
de onde tu me vens,
naquele amor com ela
e tudo o que existiu.
Sim, nessa realidade
submersa que se nega
a si mesma e que jura
jamais ter existido,
que só foi um pretexto
meu para que vivesse.
Se tu não me ficasses,
ó dor, irrefutável,
eu acreditaria;
mas me ficaste tu.
Tua verdade mostra-me
que nada foi mentira.
E enquanto eu te sentir
tu serás sempre, dor,
a prova de outra vida
em que não me doías.
A grande prova, enfim,
de que existiu, que existe,
de que me amou, de fato,
de que ainda a estou amando.
***
Error de cálculo
{¡Qué solos, sí, qué púdicamente solos
estábamos allí, en el fondo del vacío
que muchos seres juntos crean siempre,
en el salón del bar de moda adonde entramos
a hablar de nuestras almas, rehuyendo
con gran delicadeza
la tramoya usual
— lagos, playas, crepúsculos —
que los amantes nuevos buscan!
¡Qué solos, y qué cerca, entre la gente!
Perfecta intimidad, exenta de romanzas,
de cisnes e ilusiones,
sin más paisaje al fondo
que el arco iris de las botellas de licores
y la lluvia menuda
de frases ingeniosas — salida de teatro —
con que corbatas blancas y descotes, de once a doce,
asesinan despacio un día más.
Distantes, un poco distantes,
entre nosotros la circunferencia de la mesa
se interpone, cual símbolo del mundo
a cuyos dos lados estamos
fatalmente apartados,
y por eso, viviendo
el amor que hay más fuerte
sobre la tierra: un gran amor de antípodas.
Por mutuo acuerdo
para no tropezar en rimas fáciles,
apartamos los ojos de los ojos:
tú mirando a tu taza, y a su abismo
— producto del Brasil, y sin azúcar —,
como a un futuro
que es imposible ver más claro por ahora,
y que quizá te quite el sueño; yo, a mi vaso
en donde las burbujas
transparentes, redondas, de la soda
me ofrecen grandes cantidades
de esperanzas en miniatura,
que absorbo a tragos lentos.
¡Y hablar, hablar así en esa perfecta
forma de unión en que la simulada indiferencia
acerca más que abrazo o beso,
de nuestra vida y de su gran proyecto en el vacío
— estepas, mar, eternidad,
porvenir sin confines ni señales —
como quien planea un viaje
por una tierra ya toda explorada,
con horarios de trenes y mapas a la vista,
procurando llenar día tras noche
con nombres de ciudades y de hoteles.
Hablar de nuestras almas, de su gran agonía,
como se habla de un negocio,
con las inteligencias afiladas,
huyendo de la selva virgen donde vivimos
en busca de ese sólido asfalto de los cálculos,
de las cifras exactas, inventores
de una aritmética de almas que nos salve
de todo error futuro: enamorarnos
de otra nube, sembrar en el desierto,
o acostarse en la verde pradera sonriente
de alguna muerte prematura.
Cualquiera de esos riesgos
que podría arruinarnos,
como arruina una tarde o una carta
a cinco años
si no se la prevé y se suprime
con un eclipse o dejándola cerrada.
Tú decías, mirando en el vacío,
muy despacio; «Sí, sí, si calculamos
que mi alma puede resistir un peso
de treinta días cada mes, o al menos
de siete días por semana, entonces…»
(Los camareros cruzan, tan vestidos de blanco
sobre el piso brillante y azulado
que sin querer me acuerdo
del lago y de los cisnes de que huimos.)
Y te escucho los cálculos
con dedos impacientes por un lápiz
con que apuntarme sobre el corazón
en el terso blancor de la pechera
o en un papel casual, si no,
las cifras esas cuya suma
si es que contamos bien tiene que ser
la eternidad, o poco menos.
Seguimos sin mirarnos. Miro al techo.
Y quebrando de pronto nuestro pacto,
por orden superior, siento
que si no hay pronto un cielo en que amanezca
no cumpliré más años en tu vida.
¡Un cielo, un cielo, un cielo!
Sólo en un cielo puedo
escribir el balance de tu amor junto al mío:
las demás superficies no me sirven.
Y el camarero — tú, que se lo mandas —
enciende allí en el techo una alba eléctrica
donde caben las cuentas enteras del Destino.
Yo digo: «No sería mejor…» Otro proyecto,
sus suspiros o ceros, se inicia por el aire
tan semejante a las volutas débiles
del humo del cigarro tuyo que ya no sé
si es que lo invento yo o que tú lo espiras.
Otra vez me extravío:
(De una mesa de al lado se levanta
una pareja; son Venus y Apolo
con disfraz de Abelardo y Eloísa,
y para más disimular vestidos
al modo de París. Se van hablando
de vos como en los dramas.
Pasan junto a un espejo y en el mundo
se ven dos más, dos más, dos más. De pronto
se me figura, todo alucinado,
que podríamos ser una pareja
tú y yo, si tú y si yo… Voy recordando
igual que el que anticipa lo que quiere,
que allá, en el paraíso,
hubo otros dos, primero, que empezamos
separados o juntos, tú y yo, todos
por ser una pareja; y este insólito
descubrimiento me hace
agachar la cabeza porque siento
que voy a darme con el techo antiguo:
con nuestros padres.)
Tú, a mi lado,
me llamas. Vuelvo al cálculo: «Decía
que si en vez de esperarme en la estación
o en la esquina
de la Sexta Avenida, me esperases
dentro de alguna concha o del olvido,
podríamos ir juntos a la bolsa
en donde los fantasmas azulados
de los días futuros,
los acaparadores de las dichas,
cotizan los destinos, y jugar,
comprando las acciones más seguras.
Si juntamos tú y yo los capitales
que hemos atesorado
a fuerza de sumandos extrañísimos:
sortijas, discos, lágrimas y sellos,
podríamos tener entre los dos,
sin reservarnos nada para nuestra vejez,
dándolo todo…» Hay una pausa.
Ninguno de los dos nos atrevemos
a aventurar la cifra deseada
ni el sí que comprometa. Un mundo tiembla
de inminencia en el fondo de las almas,
como temblaba el mar frente a Balboa
la víspera de verlo. Nos miramos, por fin.
Un ángel entra por la puerta rotatoria
todo enredado con sus propias alas,
y rompiéndose plumas, torpemente.
Ángel de anunciación. Lo incalculable
se nos posa en las frentes y nosotros
lo recibimos, mano a mano, de rodillas.
No hay nada más que hablar. Está ya todo
tan decidido cual la flecha cuando empieza.
Subimos la escalera: ella nos dice
con gran asombro nuestro,
que todo eso pasó en un subterráneo,
como las religiones que se inician.
Afuera hay una calle igual que antes,
y unos taxis que aguardan a sus cuerpos.
Y pagando su óbolo a Caronte
entramos en la barca
que surca la laguna de la noche
sin prisa. Al otro lado
una alcoba, en la costa de la muerte,
nos abrirá el gran hueco
donde todos los cálculos se abisman.}
Erro de cálculo
Como estávamos sós, pudicamente
sós, sim, ali, no fundo do vazio
que muitos seres juntos criam sempre,
naquele bar de moda aonde fomos
falar de nossas almas, evitando
tão delicadamente
a tramóia usual
— lagos, praias, crepúsculos —
que todos os amantes novos buscam!
Como estávamos sós, e perto, entre as pessoas!
Perfeita intimidade, isenta de romances,
de cisnes e ilusões,
sem mais cenário ao fundo
que o arco-íris das garrafas de licores
e a garoa miúda
de frases engenhosas — porta de teatro —
com que gravatas brancas e decotes, de onze a doze,
devagar assassinam mais um dia.
Distantes, um pouco distantes,
entre nós dois o círculo da mesa
se interpõe, como símbolo do mundo
a cujos dois lados estamos
fatalmente afastados,
e, por isso, vivendo
o amor mais forte que há
sobre o planeta: um grande amor de antípodas.
Por mútuo acordo,
para não tropeçar em rimas fáceis,
afastamos os olhos um do outro:
tu, olhando esse abismo em tua xícara
— produto do Brasil, e sem açúcar —,
como a um futuro
que por ora é impossível ver mais claro,
e que talvez te tire o sono; eu, meu copo
onde algumas borbulhas
transparentes, redondas, desta soda
oferecem-me grandes quantidades
de esperanças em miniatura,
que sorvo a tragos lentos.
E falar, falar assim, nessa forma
perfeita de união em que uma indiferença simulada
une mais que beijo ou abraço,
da nossa vida e seu grande projeto no vazio
— estepes, mar, eternidade,
futuro sem confins e sem sinais —
como quem planejasse uma viagem
por uma terra já toda explorada,
com horários de trens e com mapas à vista,
buscando preencher dia após noite
com nomes de cidades e de hotéis.
Falar das nossas almas, da sua grande agonia,
como se fala de um negócio,
com as inteligências afiadas,
deixando a mata virgem onde nós vivemos
em busca desse sólido asfalto dos cálculos,
dos números exatos, inventores
de uma aritmética das almas que nos salve
de todo erro futuro: enamorarmo-nos
de outra nuvem, semear no deserto,
ou deitarmos na verde pradaria sorridente
de alguma morte prematura.
Qualquer um desses riscos
que nos poderia arruinar,
como arruína uma tarde ou uma carta
a cinco anos
se não prevista e suprimida
com um eclipse ou deixando-a bem fechada.
Tu dizias, olhando no vazio,
bem devagar: “Sim, sim, se calculamos
que minha alma pode suportar um peso
de trinta dias cada mês, ou pelo menos
de sete dias por semana, então…”
(Passam garçons, tão vestidos de branco
sobre o piso brilhante e azulado
que sem querer me lembro
dos cisnes e do lago que evitamos.)
E ouço teus cálculos
com dedos ansiosos por um lápis
com que anotar sobre o meu coração
nesta limpa brancura do peitilho
ou, senão, num papel qualquer
esses números cuja soma,
se é que contamos bem, terá que ser
a eternidade, ou pouco menos.
Sem nos olhar continuamos. Olho o teto.
De repente, quebrando o nosso pacto,
sinto, por uma ordem superior,
que se não há um céu em que amanheça
não aniversariarei na tua vida.
Um céu, um céu, um céu!
Somente num céu posso
escrever o balanço do teu e do meu amor:
as demais superfícies não me servem.
E o garçom — tu o mandaste —
acende ali no teto uma alvorada elétrica
onde cabem as contas todas do destino.
Eu digo: “Não era melhor…” Outro projeto,
seus suspiros ou zeros, inicia-se no ar
tão semelhante às débeis espirais
da fumaça do teu cigarro que não sei
se sou eu que o invento ou tu que o expiras.
Outra vez me extravio:
(De uma outra mesa ao lado se levanta
um casal: são Apolo e Vênus
fingindo de Abelardo e de Heloísa,
e, para mais dissimular, vestidos
à moda de Paris. Vão se tratando
por “vós” como nos dramas.
Passam junto a um espelho e já no mundo
se vêem mais dois, mais dois, mais dois. E logo
eu imagino, inteiramente louco,
que poderíamos ser um casal
tu e eu, se tu e se eu… Vou recordando,
como quem antecipa o que deseja,
que lá, no paraíso,
houve outros dois, que começamos, antes,
separados ou juntos, tu e eu, todos,
sendo um casal; e esta insólita
descoberta me faz
abaixar a cabeça porque sinto
que vou batê-la contra o teto antigo:
os nossos pais.)
Tu, a meu lado,
chamas-me. Volto ao cálculo: “Dizia
que, se em vez de esperar-me na estação
ou lá na esquina
da Terceira Avenida, me esperasses
dentro do esquecimento ou de uma concha,
poderíamos ir juntos à bolsa
onde os fantasmas azulados
dos dias do futuro,
os varejistas das felicidades,
calculam os destinos, e apostar,
comprando entre as ações as mais seguras.
Se juntamos nós dois os capitais
que já atesouramos
graças a estas parcelas estranhíssimas:
argolas, discos, lágrimas e selos,
poderíamos ter entre nós dois,
sem nada reservar para a velhice,
dando ao total…”. Há uma pausa.
Nenhum dos dois nos atrevemos
a aventurar a cifra desejada
nem o sim que nos prenda. Um mundo treme
de iminência no fundo dos espíritos,
como tremia o mar frente a Balboa
na véspera de vê-lo. Olhamo-nos, por fim.
Um anjo cruza a porta giratória
todo enredado com as próprias asas,
rasgando as penas, desastradamente.
Anjo de anunciação. O incalculável
nos pousa em frente ao rosto, e nós
o recebemos, as mãos dadas, de joelho.
Nada mais a falar. Está já tudo
tão decidido quanto a flecha quando parte.
Subimos pela escada: ela nos diz,
com grande assombro nosso,
que tudo se passou num subterrâneo,
como as religiões que se iniciam.
Lá fora há uma rua como antes,
e táxis aguardando por seus corpos.
E pagando o seu óbolo a Caronte
adentramos no barco
que sulca a água da noite lentamente,
sem pressa. Do outro lado,
uma alcova, no litoral da morte,
nos abrirá o vão
onde todos os cálculos se abismam.
Nessa sessão inaugural do Congresso Nacional, com o objetivo de refletir o que se passa hoje na Bolívia, quero compartilhar com vocês, de maneira muito breve, três conceitos: o da revolução, o da transição estatal e o de Estado.
O que é, em sentido estrito, uma revolução? Fundamentalmente, trata-se de uma transformação radical, rápida, sob controle do poder do Estado. Isso significa, em primeiro lugar, que em toda revolução se dá a formação de uma nova colisão de classes sociais e de grupos culturais anteriormente marginalizados do poder político e que agora assumem o controle direto do poder do Estado.
Uma revolução é, também, uma mudança rápida do poder estatal de um bloco de classes sociais a outro. Quando essa mudança do poder do Estado é feita através da força, falamos de uma revolução violenta. Tanto a Bolívia como outros países do mundo têm exemplos de revoluções violentas. Agora, quando a transição de um bloco social de classes a outro sob poder do Estado realiza-se por meios pacíficos e eleitorais, falamos de uma revolução democrática. Ambas, revoluções violentas e democráticas, são uma transformação do Estado – podendo-se, dessa forma, chamá-las de revoluções políticas.
Quando a mudança política não só modifica a estrutura do Estado mas também a estrutura econômica da sociedade e seus hábitos culturais, falamos de uma revolução sócio-cultural. Nem toda revolução política é necessariamente uma revolução sócio-cultural. Somente o será, quando essa mudança do bloco sob o poder do Estado gerar transformações estruturais na economia, na cultura e nos hábitos da sociedade.
O que modifica, em profundidade, uma revolução? Quem controla, de maneira estrutural, o poder do Estado?
“Quando quem passa a ocupar o poder são classes totalmente distintas, falamos de uma revolução. E ele é tão mais radical quanto maior for a distância entre o bloco dominante antigo e o novo”
Quando essa modificação se dá no interior de um mesmo grupo de classes sociais, é simplesmente uma transição política ou uma reacomodação do mesmo bloco no poder. Mas quando quem passa a ocupar o poder são classes sociais totalmente diferentes ao governo anterior, falamos de uma revolução. Neste caso, a distância entre a bloco dominante antigo — deslocado do poder –, e o bloco emergente é diretamente proporcional à radicalidade de uma revolução.
Mas o que é esse Estado do qual estamos falando? Em termos sintéticos, podemos dizer que um Estado é, em primeira instância, em seu fundamento íntimo e elementar, monopólio da coerção legítima e dos tributos. Em sua composição e estrutura articulada, um Estado é uma correlação de forças; uma institucionalidade; e um sentido comum.
Quando dizemos correlação de forças, significa que existem grupos e classes sociais que têm maior capacidade de incidência na tomada de decisões políticas e econômicas, no controle da coerção legítima, na modificação de pressupostos, nos contratos públicos, na administração da justiça, na viabilização de investimentos, na planificação cultural etc. Em toda sociedade moderna e enquanto houver Estado, haverá classes sociais com menos capacidade de influência. A isso, damos o nome de correlação de forças.
A institucionalidade do Estado, seus poderes Executivo, Legislativo e Judicia, suas normas, trâmites, burocracia, memória são as maneiras pelas quais essa correlação de forças se consagra, materializa-se, objetiva-se, e se torna procedimento, norma e memória do Estado.
E, por último, um Estado é um sentido nacional comum. Ou seja, um conjunto de idéias dirigentes, em torno das quais governantes e governados organizamos e imaginamos nosso destino comum para as décadas seguintes.
“Uma crise de Estado torna-se visível quando pedaços importantes da sociedade, anteriormente apáticos, mobilizam-se por outros projetos de vida econômica e política. A Bolívia vive um processo assim desde 2000″
Por iso, uma revolução que transforma o Estado é um processo político que muda a correlação de forças; troca um grupo social por outro; é um processo político que modifica as instituições, as formas como se objetivam as correlações de forças; e, fundamentalmente, uma revolução é uma modificação mental que transforma em sentido comum da sociedade, das percepções, dos desejos e a maneira como uma sociedade imagina seu destino, o de seus filhos, de sua comunidade, de sua pátria.
Com estas idéias teóricas gerais, queria refletir com vocês sobre como essa mudança estrutural do Estado está acontecendo na Bolívia. De um Estado neoliberal para um Estado que podemos chamar: social, pluricultural e autônomo.
Toda revolução, toda a transição estatal passa por um largo processo – não acontece da noite para o dia. A revolução boliviana que teve sua coroação em 1952, foi precedida, ao menos, por sete anos de gestação e, por último, de culminação. As crises bolivianas de Estado, — que seguimos vivendo hoje –, visualizou-se em 2000. O primeiro momento de uma crise de Estado ou de uma revolução é o momento da visualização das crises.
Quais são as características da visualização de uma crise de Estado ou de uma revolução? Primeiro, o governo legalmente constituído perde o controle das expectativas e das aspirações de uma parte relativamente importante da sociedade. Em segundo lugar, o governo perde a liderança política, portanto, estamos diante de governos em momentos de crises de Estado, que já não têm capacidade de seduzir os cidadãos. Em terceiro lugar, a cise de Estado manifesta-se quando o controle das Forças Armadas racha, ou quando organismos legítimos da coerção da sociedade entram em contradição e cisões internas. Por último, uma crise de Estado é visualizada quando pedaços importantes da sociedade, anteriormente apáticos, mobilizam-se com outros projetos de vida econômica e política. A Bolívia viveu esses momentos no ano 2000 – dias dramáticos de crises, mas que deram lugar a todo processo que dura até hoje.
“O novo imaginário de país é marcado pela nacionalização dos recursos naturais, pela igualdade entre os povos indígenas e mestiços e pela busca da distribuição territorial do poder do Estado, sob a forma de descentralização ou autonomia”
O segundo momento da crise de Estado ou da revolução é o que chamamos, segundo Gramsci, o empate catastrófico.
O empate catastrófico significa a emergência de um bloco social com vontade de disputar o poder de Estado em nível nacional. A chave para um empate catastrófico acontece quando antigas coalizões do velho poder têm à frente um novo bloco emergente com ânsias de poder político – do poder do Estado. Isso é justamente o que se sucedeu com os movimentos sociais bolivianos. Da atitude sindicalista reivindicativa, que caracterizou os anos 1980 e 1990, eles passam, nos anos 2000, a assumir uma vontade de poder estatal e a dar início a esse empate catastrófico.
Em segundo lugar, um empate catastrófico surge quando se confrontam duas visões de país, duas visões de mundo que disputam o imaginário e a esperança da coletividade social. No período de 2003 – 2005, esse empate catastrófico apresentou-se com uma disputa entre dois horizontes. São dois imaginários coletivos: um, o dos últimos 20 anos, em que predominava o apego às privatizações, ao investimento estrangeiro, a uma globalização descontrolada, à conformação de coalizões partidárias para dar governabilidade e a um tipo de colonialismo interno disfarçado; o outro, o que se confrontou com o primeiro com vontade de poder e que deu lugar ao empate catastrófico, foi um novo horizonte de país marcado pela nacionalização dos recursos naturais, pela igualdade entre os povos indígenas e mestiços e pela busca da distribuição territorial do poder do Estado sob a forma de descentralização ou de autonomia.
Existe empate catastrófico quando há um bloco social que busca disputar o poder em escala nacional, quando há visões de país confrontadas e quando esse bloco com vontade de poder tem a capacidade de mobilizar, em escala nacional, distintos segmentos sociais. A Bolívia viveu tal empate catastrófico em torno de 2005.
“A terceira etapa da revolução, a que chegamos nas eleições de 2005, permite que novas classes, povos e identidades culturais tenham capacidade de influir no âmbito público estatal, sem necessidade de alianças políticas”
Em dezembro de 2005, o país entrou numa terceira etapa da revolução ou da crise estatal, como podemos chamar: a conquista democrática do poder político. Por meio de eleições, modificaram-se as estruturas de classes, povos e identidades culturais, que hoje têm maior capacidade de decisão no âmbito público estatal sem necessidade de alianças políticas. Isso, somado à distância cultural entre as forças sociais vitoriosas e as derrotadas poderia, sem dúvida, ajudar a explicar o processo de polarização que posteriormente o país viveu, já que os canais de vinculação nos hábitos, na vida cotidiana e na própria gestão de governo, são bastante escassos. Isso gerou distanciamentos entre o bloco do poder ascendente e o bloco de poder decadente.
Uma quarta etapa de um processo revolucionário é a expansão e assentamento nacional e institucional do novo poder; um processo de irradiação das novas decisões, os novos horizontes do bloco de poder emergente. No caso da Bolívia, isso se deu através de um conjunto de medidas institucionais. No plano econômico: primeiro a recuperação dos recursos naturais, que modificou a relação do Estado boliviano com a economia mundial. Agora, 75% da da renda petroleira é apropriada publicamente, o chamado government take. Em segundo lugar, uma nova política de terras; em terceiro, um papel renovado na construção de empresas do Estado competitivas e adequadas aos tempos modernos e de transformações tecnológicas. Já no plano político: o referendo que procura institucionalizar a nova correlação de forças no âmbito nacional.
Por último, a expansão e assentamento nacional do novo bloco de poder se deu, fundamentalmente, por meio da consolidação de um só horizonte nacional, de um só ideário de transformação social. Sejamos de esquerda ou de direita, tenhamos posições mais ou menos conservadoras ou mais ou menos radicais, hoje a política da Bolívia apresenta quatro fundamentos – e ninguém que queria fazer política no país pode afastar-se deles.
O primeiro é o papel econômico protagonista, decisivo e condutor do Estado. O segundo fundamento da política do século 21, pelo menos nessas duas décadas, é a igualdade: mestiços e indígenas, indígenas e mestiços, com direitos iguais, sentados na mesma mesa, definindo a economia, a política e o rumo da sociedade. O terceiro fundamento da política é a redistribuição da riqueza; ninguém discute hoje a necessidade e obrigatoriedade de quitar a dívida e a ferida social de uma pátria agoniada pela pobreza. E o quarto é a redistribuição territorial do poder do Estado.
“É nítida a cisão do bloco conservador. Uma vertente busca o poder político a longo prazo, por meios democráticos. Lamentavelmente, há também um bloco conservador radical e violento, que felizmente é minoritário”
Hoje em dia na Bolívia, não se confrontam duas visões de país. Em algum momento, possivelmente, poderia surgir uma nova visão de país com vontade de poder, é provável, teoricamente deve-se considerar a hipótese, mas nesses anos, nesse meses, existe somente uma visão de poder. A diferença – e isso se comprovou muitas vezes no debate no Senado ou com os prefeitos – é como se acentua ou se intensifica um e outro dos quatro pilares; uns querem uma desconcentração territorial do poder mais rápida; já outros, querem acelerar o papel protagonista do Estado na economia.
Mas hoje, quem quem quiser fazer política na Bolívia, tem que obrigatoriamente ocupar-se destes quatro princípios. Portanto, falamos da consolidação e da vitória irreversíveis, de um único sentido comum e um único projeto de transformação estatal. Diferenças existem nas velocidades, acentuações, mas todos – esquerda e direita, moderados ou radicais – movemos nossa atividade política em torno desses quatro princípios.
Uma quinta etapa do processo revolucionário, paralela a quarta, é, sem dúvida, o recuo do antigo bloco de poder, das forças conservadoras, ao plano regional – e sua adequação parcial ao novo sentido comum. Há uma crise interna de lideranças e, é nítido, uma cisão do bloco conservador, configurando-se duas vertentes. Uma delas, democrática, assume a busca do poder político a longo prazo, por meio de métodos democráticos: da luta eleitoral, do Congresso, do debate ideológico. Lamentavelmente, surge também um bloco conservador radical e violento, felizmente minoritário, mas que expressa uma conseqüência política de toda revolução: o surgimento de setores que gostariam mudar o curso do processo político servindo-se da violência e da intolerância.
Por último, toda revolução tem o que chamamos de um ponto de bifurcação, que não tem nada a ver com o racha da sociedade, como mal interpretou algum comentarista. O ponto de bifurcação, que de fato é um conceito da física, da termodinâmica, do professor Ilya Prigogino, está associado com o surgimento de ordem a partir da incerteza, a construção da estabilidade a partir da instabilidade.
“A grande aposta do governo nacional e das forças políticas do Congresso é que a nova bifurcação se dê da mesma forma como começou esta revolução: por meios democráticos, pacíficos e eleitorais”
Estamos vivendo um momento de instabilidade e toda revolução, em suas cinco ou seis etapas, tem momentos de instabilidade. O momento em que a instabilidade amadurece, para parir uma estabilização do sistema estatal e politico, é o do ponto de bifurcação e estabilização do novo Estado. Quando chegará tal ponto de bifurcação, última etapa deste processo revolucionário, é algo que os atores políticos deverão definir.
Permitam-me lembrar dois momentos de pontos de bifurcação. O primeiro – violento – deu-se em 1952. A revolução aconteceu em 1947, a vitória eleitoral em 1951 e o ponto de bifurcação em 1952, com uma insurreição. Outro exemplo, mas não violento, foi em 1986. O velho Estado nacional popular caía e emergia, vigoroso, o Estado neoliberal. A crise manifestou-se em 1977, o MNR e ADN ganharam as eleições em 1985, mas a bifurcação deu-se pouco antes de 1986, quando os mineiros que marchavam a La Paz foram cercados e preferiram regressar, pacificamente vencidos, a suas minas, para nunca mais voltar à vida política.
É provável que estejamos nos aproximando de um ponto de bifurcação. Mas a grande aposta do governo nacional e das forças políticas do Congresso é que tal bifurcação se dê da mesma forma como começou esta revolução: por meios democráticos, pacíficos e eleitorais.
A proposta de referendo ou de uma série deles em 2008 é uma aposta para consolidar a estabilização do novo Estado, a partir de um processo democrático eleitoral, onde o que se dispute sejam idéias e convicções, não pedras e balas. Por tal resolução da consolidação do novo Estado por meios pacíficos e democráticos, apostamos que a Bolívia alcance estabilidade.
“O novo bloco de poder não é egoísta, não fecha as portas. Convoca as demais forças a pactuar. A Bolívia precisa ter certeza de mudança, mas também estabilidade e segurança nas regras pacíficas e democráticas da transformação”
Os resultados de uma revolução verificam-se mediante muitos dados e cifras. Permitam-me explorar dois resultados que me parecem irreversíveis e que definem a situação da Bolívia do século 21. Aconteça o que acontecer daqui por diante, será com paz e democracia.
O primeiro resultado é a igualdade — entre povos, sociedades, culturas, idiomas, vestimentas, cores de pele. Isso é um fato irreversível: já não se pode voltar atrás. A Bolívia já não suportaria um regresso a formas de dominação colonial e de racismo camuflado. A Bolívia mudou e, hoje, indígenas e mestiços, como nesta mesa, podemos compartilhar a tomada de decisões políticas e econômicas, e a forma como conduziremos o país.
O segundo: o papel do Estado. Passamos de um Estado fraco, raquítico, ligth, que nos jogou para o fim da fila de uma globalização desrespeitosa e alocada, a um Estado forte. Hoje, o Estado boliviano controla cerca de 21% da economia, do PIB do país. Nosso horizonte é chegar a 30%. No que diz respeito à produção direta de riquezas, o Estado Boliviano que recebemos encontrava-se literalmente aniquilado, participando com apenas 0,6% da produção, controla hoje pelo menos 8% do aparato produtivo. Nossa esperança é chegar a 20 a 25% como um Estado sólido, moderno e capaz de redistribuir sua riqueza.
Daqui por diante, o grande objetivo é concluir pacífica e pactuadamente tal processo de transformação do Estado. O novo bloco de poder não é egoísta, não fecha as portas. O novo bloco de poder convoca as demais forças, as emergentes e as deslocadas, a pactuar-se, a integrar-se e a ser partícipes de uma única estrutura estatal, capaz de dar à Bolívia a certeza de mudança, mas também estabilidade e segurança nas regras pacíficas e democráticas da transformação. (Tradução: Aurelie Tolat e Carolina Gutierrez))
Mais
Discurso pronunciado em 22/1/2008, no Congresso Nacional boliviano, na abertura das sessões legislativas de 2008-2009. O texto original, em castelhano, está aqui
Em 15 de agosto, o ex-bispo Fernando Lugo assumiu a presidência do Paraguai, interrompendo mais de 60 anos de governo do Partido Colorado, o que inclui a longa ditadura do general Alfredo Stroessner. Durante seu período como bispo da região de São Pedo, Lugo manteve forte vínculo com os movimentos sociais, e em particular com o campesinato paraguaio. Dali nasceu seu movimento Tekojoja, do qual surgiu a proposta de apresentar o religioso como candidato presidencial. Lugo renunciou então a sua função eclesiástica sem esperar o consentimento do Vaticano – que tardava – e aceitou participar da disputa. Formou-se a Aliança Patriótica pela Mundança, uma coalização de mais de vinte correntes, que inclui liberais, a Democracia Cristã e o Partido Comunista Paraguaio. Neste conglomerado, destaca-se o Partido Liberal (PLRA), individualmente o mais estruturado e que obteve maior representação parlamentar. Mas esta coalizão tão diversa e o personalismo particular de Lugo entorpeceram a gestação do novo governo e geraram dúvidas sobre seu futuro imediato.
Nas eleições de 20 de abril, Lugo obteve aproximadamente 42% dos votos. Mas seus rivais imediatos — Blanca Ovelar, do Partido Colorado, e o ex-General Lino Oviedo (que também tem origem nas filas coloradas) — somaram, com suas candidaturas, mais da metade (32% e 22%, respectivamente) dos votos depositados pelos cidadãos paraguaios. No Parlamento, o isolamento das forças de Lugo é muito grande. Os colorados têm quase 38% das cadeiras de deputados; os liberais pró-Lugo (PLRA) controlam pouco menos de 34% e 19% estão em poder da Unace, o partido do ex-general Oviedo. No Senado, os colorados têm um terço das cadeiras e as demais forças, um percentual semelhante ao de deputados. Para aprovar qualquer lei, Lugo terá de contar com o respaldo da principal força política de sua coalizão — os liberais –, o que nem sempre é fácil. E, além disso, negociar com pelo menos mais uma das forças com peso no parlamento. Até agora, os contatos e aproximações foram com a Unace do ex-golpista e direitista Lino Oviedo.
O novo presidente terá de perseguir diversos objetivos importantes, nos primeiros meses de gestão. Lugo sabe que a sua anunciada “batalha contra a pobreza” requer recursos, e por isso antecipou que deverá desenhar uma nova política tributária, que supere a atual — fraca e ineficiente. “Só assim”, afirmou há alguns dias, “poderá começar a ser quitada a dívida social que se acumulou durante décadas de indiferença e corrupção”. Atualmente, 1,1 milhão, dos 6 milhões de habitantes do país, encontram-se em pobreza extrema, com renda inferior a um dólar por dia.
Outra questão fundamental será renegociar com o Brasil os termos do acordo sobre a usina hidrelétrica de Itaipu, que estabelece o direito a uma divisão igual sobre energia gerada. Mas o Paraguai, com seu escasso desenvolvimento, só utiliza 17% dos 50% dos que lhe correspondem. O resto, vende ao Brasil — um gigante que necessita dessa energia — mas por um preço considerado insuficiente. Algo similar ao que ocorria com o gás que a Bolívia fornecia ao Brasil e à Argentina, renegociado a preços mais justos, depois que Evo Morales assumiu o poder.
Num país tradicionalmente rural, a reforma agrária é o grande tema. Cerca de 500 famílias controlam 90% das terras e o avanço da soja transgênica está expulsando centenas de milhares de agricultores
Mas não há dúvidas de que o tema de maior transcendência é o da distribuição de terra. Além de ser um problema antigo, Lugo prometeu, durante sua campanha eleitoral, levar adiante uma Reforma Agrária Integral, que modifique a situação presente, em que 12 milhões de hectares, os melhores recursos naturais do país, estão nas mãos de umas poucas famílias e consórcios. As estatísticas assinalam que o Paraguai tem a distribuição de terra mais desigual da América Latina. Centenas de milhares de agricultores lutam há décadas para melhorar as condições de vida. Os proprietários sempre contaram com a cumplicidade policial e governamental para reprimir os movimentos rurais. Mais de uma centena de dirigentes e líderes camponeses foram assassinados nos últimos vinte anos. A quase totalidade desses crimes continua impune, sem responsáveis e condenações.
Estima-se que um pouco mais de 500 famílias possuem 90% das terras, enquanto outras 350 mil famílias carecem delas. Tal situação incidiu na diminuição da população rural nos últimos 20 anos (de 67% para 30%). A migração interna significou um deslocamento da pobreza e da miséria para os bairros de Assunção e outras cidades. Martín Almada, militante social, ganhador do Prêmio Nobel Alternativo da Paz, e descobridor dos “Arquivos do Terror” do Plano Condor, afirma que o problema da concentração de terras em seu país começou realmente quando a Argentina, Brasil e Uruguai prestaram-se aos interesses do império da vez, a Inglaterra, e deram início à chamada guerra da Tríplice Aliança (1865-1870). “Porque no Paraguai, repartia-se a riqueza, não a pobreza, um mau exemplo para a região”. Como conseqüência daquela guerra, e de outra provocada pelos EUA anos mais tarde, (Paraguai contra Bolívia, em 1935), a estratificação social desenhou-se com 5% de ricos (proprietários das terras férteis), 10% de classe média e entre 75 a 80% de pobres.
A investigadora paraguaia Mirta Barreto acrescenta que logo veio a privatização maciça na década de 1950, com a ditadura de Stroessner. E continua: “durante mais de um século, vorazes fatores externos confluiram para expulsar de suas terras os camponeses e os donos originais”. A tudo isso acrescenta-se, mais recentemente, o modelo de monocultura de soja, que agravou o conflito, lançando milhares de famílias na pobreza, provocando desemprego, e imigração. Segundo fontes oficiais, estima-se que 600 mil agricultores foram expulsos de suas terras pelo agressivo cultivo de soja, nos últimos sete anos. Mais de 180 mil paraguaios imigraram para a Argentina.
O Movimento Camponês Paraguaio crê, e tem razões para isso, que chegou finalmente o tempo de justiça. Foi parte fundamental da base que permitiu a vitória da Aliança Patriótica pela Mudança. Na semana da posse de Lugo, cerca de três mil agricultores ligados à Coordenação da Luta pela Terra e Soberania ocuparam uma fazenda arrendada por um cidadão brasileiro em São Pedro, região onde atuou o bispo Fernando Lugo. O dirigente dos sem-terra paraguaios, Elvio Benítez, afirmou que a ocupação “era uma mensagem clara para os que terão a responsabilidade de governar nosso país em benefício de todos”. Os agricultores também pressionam para que o Estado elabore um cadastro nacional sobre a distribuição de terras, para contar com dados fidedignos sobre quem são os proprietários e quantos hectares possui cada um. O sociólogo Tomás Palau avalia que no Paraguai cada pecuarista conta com uma média de 2,7 hectares por cabeça de gado, e que os cultivos de soja transgênica ocupam mais de 2,5 milhões de hectares, cujo semeadura mecanizada e cultivo não requerem muitos trabalhadores rurais. Porém, estas medidas encontraram forte resistência por parte dos latifundiários. Cláudia Russer, da Associação de Produtores de Soja, já pediu que o novo governo defina-se frente à “insegurança”, e exigiu garantias para a propriedade privada.
Martin Almada, ganhador do Nobel alternativo, alerta: Lugo “enfrentará a força da legislação burguesa, um parlamento retrógrado, uma justiça corrupta e forças armadas cuja mentalidade vê o povo como inimigo”
Há, ainda, sinais eloqüentes de crise produtiva no setor industrial. O novo governo vai se reunir com a empresa Petropar, que controla a distribuição de combustíveis e está em falência virtual, com uma dívida de mais de 300 milhões de dólares. A empresa INC (Indústria Nacional de Cimento) quebrou e são freqüentes as interrupções, por falhas técnicas, de suas fábricas principais. As ferrovias, algumas das quais abandonadas, representam mais memória que realidade.
Às dificuldades enumeradas somam-se outras, não menos importantes. É fácil prever que a convivência de Lugo com seu vice, Julio Cesar Franco, do Partido Liberal não será fácil. A maioria deste partido opõe-se às nomeações de ministros e ocupantes de postos-chaves escolhidos por Fernando Lugo. Alguns dirigentes do partido acreditam que Franco está marginalizado ou não ter o destaque que, segundo eles, corresponderia ao seu cargo de vice-presidente.
Martin Almada, o vencedor do Nobel alternativo, manifestou dúvidas de que Lugo poderá cumprir seu compromisso de promover a reforma agrária. Afirmou que o novo presidente “enfrentará a força da legislação burguesa, um parlamento retrógrado, uma justiça corrupta e forças armadas cuja mentalidade, formada pela Doutrina da Segurança Nacional, vê o povo como inimigo”. Além disso, ele acredita que, nas condições objetivas de hoje, Lugo terá de se limitar a gerir a pobreza, administrando a herança de mais de 60 anos de governo colorado. A menos que se disponha a organizar e mobilizar a maioria silenciosa, composta pelos socialmente excluídos.
Mas também há dúvidas a respeito desta possibilidade. Há poucos dias, Belarmino Balbuena, um dos líderes do movimento camponês e aliado de Lugo nas eleições de 20 de abril, expressou sua oposição à forma utilizada pelo presidente para mobilizar seus apoiadores. Ele acusou especificamente o chefe de gabinete de Lugo, Miguel Lopez Perito,de organizar concentrações populares ao estilo do Partido Colorado, já que os recursos para promovê-las não partem das organizações sociais. Balbuena, que também pertence à Frente Popular e Social, acha que são “maus sinais” do novo governo.
Para enfrentar oligarquia, será preciso falar aos excluídos, enfrentar a corrupção, dispor de quadros. Nas próximas semanas, começaremos a saber se Lugo terá condições — e está disposto — para tanto
A este panorama complexo, é preciso acrescentar que o resultado das eleições não altera o equilíbrio de poder dos poderosos interesses econômicos e políticos, que tentam manter seus privilégios, regalias e usufruto de concessões obtidas por mecanismos viciados. Vai ser difícil anular estes métodos, já que o tráfico de influências e a corrupção são parte da “normalidade” administrativa. A concentração de poder econômico permite comprar funcionários, ganhar licitações e subornar juízes e procuradores. Para reverter este cenário, será necessário agir com firmeza e dispor dos quadros necessários para gerenciar e supervisionar a transparência e a honestidade. Grande parte da atividade privada está associada de forma inescrupulosa aos orçamentos públicos, em especial às grandes obras. Segundo críticos, todas foram realizadas com superfaturamento e, em alguns casos, descumprimento dos compromissos da licitação.
Entre as batalhas para impor um governo que funcione normalmente e em consonância com a legislação, está a do contrabando. Ninguém arrisca números, mas muitos crêem que esta atividade ilícita, firmemente enraizada no país, movimente muitos milhões de dólares. Também é conhecido o poder dos grupos que controlam o contrabando. Embora não se possa quantificar sua amplitude, é possível imaginá-la a partir de uma informação: o próprio presidente admitiu ninguém quer aceitar o cargo de diretor da alfândega. O engenheiro João Max Rejalaga, candidato, desistiu devido à “falta de garantias para a sua vida.” Horas antes, havia recebido ameaças de morte da máfia que controla o contrabando. A mensagem é clara: querem que tudo continue como está. E esse será um dos grandes obstáculos para as aspirações de mudança, não só na alfândega.
Embora durante a campanha eleitoral o ex-bispo tenha se aproximado dos governos do continente que se distanciam (em graus variáveis), da influência norte-americana, há quem duvide que seu governo assuma esta postura. Na própria Aliança, há críticas à presença de ex-funcionários da ditadura Stroessner no círculo mais próximo ao futuro presidente. Além disso, há quem lhe atribua contatos com James Cason, embaixador americano em La Paz, uma delegação diplomática que teve influência decisiva sobre o governo paraguaio nos últimos 60 anos. Há mesmo quem receie o fato de o papa Ratzinger ter concedido a Lugo, em 30 de julho, em decisão surpreendente, a licença há muito solicitada. Os adeptos do presidente rejeitam esta crítica, argumentando que Lugo terá minorita entre os deputados e senadores — e por isso deve agir pragmaticamente, se quiser governar. Lembram também que ele terá de enfrentar uma estrutura administrativa hostil a qualquer transformação.
Tudo isto é verdade — mas também é certo que grande parte do povo paraguaio, a maioria que votou em Lugo, confia de que deixe para trás as formas autoritárias de governo, o clientelismo, as injustiças e o favorecimento aos grandes grupos económicos, entre eles os latifundiários. Para isso, o presidente terá de fazer todos os esforços para romper uma imagem criada por Martin Almada, parafraseando o intelectual brasileiro Josué Castro: “no Paraguai, os ricos não podem dormir à noite, porque têm medo dos pobres; e os pobres também não dormem, porque estão famintos…” Almada ressalta: “há, no Paraguai, uma pobreza explosiva”.
A partir das próximas semanas, quando Lugo tomar suas primeiras decisões, as dúvidas começarão a se dissipar.
Em meados de abril último, o atual Comandante Militar da Amazônia, General Augusto Heleno Ribeiro Pereira, proferiu no Clube Militar, no Rio de Janeiro, uma palestra em que associou as terras indígenas das fronteiras amazônicas a um risco iminente à soberania nacional sobre esses territórios. O seminário, promovido por aquele clube, levava o curioso título “Brasil, ameaças a sua soberania”, e, nele, as vozes
nacionalistas conjugavam-se com vozes do melhor calibre conservador, como a do advogado Ives Gandra Martins, membro da organização católica ultra-conservadora Opus Dei. O resultado pretendia ser um contraponto entre denúncia e alarmismo, já bem insinuado pelo título do evento.
Frente à disputa judicial que se desdobra em torno da Terra Indígena Raposa-Serra do Sol, na fronteira nordeste de Roraima, as palavras do General Heleno, condenando a política indigenista brasileira como “lamentável e caótica”, causaram forte impacto jornalístico. Como desdobramento, outras vozes, militares e conservadoras, no mesmo tom, clamaram atenção. O tema no qual se harmonizam essas
vozes pode ser sintetizado como o do fantasma retórico de uma nova e iminente ameaça à “segurança nacional”: a da “balcanização” étnica, capitaneada por ONGs internacionais, por meio da instrumentalização dos povos indígenas brasileiros, que poderia até mesmo desembocar numa perigosa e incontrolável catarata de processos “secessionais” do território nacional.
Assim, no frigir dos ovos da polêmica lançada pelo general Heleno, um ex-presidente do mesmo Clube Militar e também ex-Comandante Militar da Amazônia, o general Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, um reconhecido e devotado nacionalista (mas não por isso menos espalhafatoso), publica uma nota no website do clube. Nesta, aponta como culminação da presumida conspiração internacional, a recente Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas, aprovada pela ONU em 13 de setembro passado, com o voto favorável do Brasil. “A se confirmar essa tendência, teremos retalhado o Brasil em 227 nações, com 180 diferentes idiomas. O crime contra o Brasil e sua soberania e unidade territorial terá sido perpetrado”, diz o documento. Para o general Lessa, o perigo está em que “a longa e polêmica Declaração é um
instrumento internacional que modifica a ênfase nos direitos individuais e, pela primeira vez, valoriza os ‘direitos humanos coletivos’ e atribui às comunidades indígenas a posse do território onde vivem e dos seus recursos naturais, bem como o direito coletivo à autonomia”.
O apelo fácil de um certo discurso nacionalista e o entroncamento da veemente condenação à política indigenista, feita pelo atual Comandante Militar da Amazônia, com a generalidade de um discurso anti-indígena, sustentado pela teia de interesses econômicos (sobretudo fundiários) na região, seguramente garantem, para essa retórica da nova “ameaça à segurança nacional”, um nicho regional de apoio político. No
entanto, e a despeito da imediata dimensão localista dessas alianças implícitas, é razoavelmente evidente que o coro das manifestações críticas à “política indigenista”, almeja alçar a “questão indígena” a um novo patamar de inquietação ideológica, modulado com o ressoar público (e sobretudo midiático) de uma certa “preocupação amazônica”, particularmente audível nas semanas que se seguiram ao estardalhaço
promovido pelo general Heleno.
Ainda que ambígua em seu conteúdo, a lógica da proteção significou o estabelecimento de uma relação direta, necessária e institucionalizada entre o Estado nacional e as populações indígenas
Os novos acordes dessa nem tão nova melodia parecem soar agora na
conjunção da retórica da “segurança nacional” com um possível (ou talvez mesmo, iminente) debate sobre alguns termos de regulação jurídica, que incidem sobre temas (a propósito dos quais pesa uma considerável disputa discursiva) que rondam a atualidade não apenas nacional como também internacional. Temas como multiculturalismo,
diversidade, etnicidade, direitos coletivos, enfim, o estatuto sócio-jurídico não mais de um ideal (ou pressuposto) republicano da “igualdade”, mas sim daquele hoje alentado por uma certa agenda pós-moderna: o da “diferença”.
De outra parte, a específica articulação de instâncias políticas que sustentam a lógica discursiva daquela pretendida condenação lançada pelo general Heleno à política indigenista brasileira não apenas traz à tona o rastro de um movimento histórico que pode ser remontado às alianças políticas gestadas durante o projeto de colonização da Amazônia do assim chamado “regime militar” (expresso em seu lema “integrar para não entregar”), como traz à tona também uma tensão que perpassa a história da própria política indigenista brasileira no século 20. Desse modo, a contundente crítica do general Heleno a essa política é, em termos históricos, tanto sintomática – se consideramos um período mais recente – quanto anacrônica – se consideramos uma já larga tradição constituída pelo Estado brasileiro (com a presença fundacional, inclusive, dos militares), a respeito do trato com os povos indígenas.
Em termos gerais, o século 20 parece ter caracterizado um novo padrão
genérico de relações dos poderes públicos brasileiros com os povos indígenas. Se nos períodos históricos precedentes essas relações ficavam tão apenas determinadas, de forma circunstancial, pelo contato dos agentes colonizadores com os índios, o século passado deu lugar ao conceito de “proteção”, como lastro para uma política indigenista
de Estado. Ambígua em seu conteúdo, oscilando entre a tutela cerceadora e a promoção da autonomia relativa, a lógica da proteção significou, em termos genéricos, o estabelecimento de uma relação direta, necessária e institucionalizada entre o Estado nacional e as populações indígenas.
Como uma nova forma de racionalidade administrativa do Estado, sua
inspiração emanou do positivismo que embebeu a instituição militar e a tornou avalista de novas expectativas sobre a nacionalidade, com as quais a recente República ingressou no século 20. Do mesmo modo, seu mentor, tanto intelectual quanto “espiritual”, foi também um militar, o futuro marechal Rondon, encarregado de alcançar e já àquela época também “integrar”, através das novas tecnologias de comunicação (a
saber, o telégrafo) as longínquas fronteiras do extremo oeste do país, onde a presença pioneira do Estado tinha que se haver com a presença dos “silvícolas”.
Rondon via populações indígenas como parte do patrimônio comum da nacionalidade. Deviam ser integradas coletivamente com suas culturas, numa lógica oposta aos interesses das oligarquias regionais
Dessa forma, o modelo rondoniano da proteção implicava, antes de tudo, em uma proteção “nacional”, que tomava as populações indígenas como parte de um patrimônio comum da nacionalidade, que devia ser integrado no (e pelo) espaço político do Estado Nacional, a despeito do (e quase sempre contra o) particularismo dos interesses das oligarquias regionais. Não por acaso, os termos com os quais o próprio Rondon emoldurou o sentido dessas relações, já em 1910, quando da fundação do primeiro órgão indigenista, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), sintetizavam uma paridade de estatuto entre comunidades indígenas e nacionalidade particularmente significativa, já seja até mesmo para os termos hoje tão caros às preocupações de alguns generais com a “segurança nacional”. No mesmo momento da criação do Serviço de
Proteção ao Índio, Rondon, em uma de suas cartas, após argumentar que uma descentralização federativa das incumbências relacionadas à proteção “aqui resultaria em extermínio, ali [n]a catequese forçada, teológica ou metafísica, e mais alem [n]o abandono”, conclui que: “os índios não devem ser tratados como propriedade do Estado dentro de cujos limites ficam seus territórios, mas como Nações Autônomas,
com as quais queremos estabelecer relações de amizade”.
Se a lógica que ordena o princípio indigenista da proteção supõe uma relação, no fim das contas conformada como aliança implícita, entre o Estado Nacional e os seus “protegidos”, os povos indígenas, contra os interesses locais da exploração econômica irracional e do usufruto, é notório também que, historicamente, não apenas variaram suas escalas como também suas contingências políticas. A mais importante das
mudanças de escala foi, com certeza, o advento histórico de criação do Parque Indígena do Xingu.
Patrocinado pela iniciativa dos irmãos Villas Bôas, que, para isso,
conquistaram o apoio do ainda general Rondon e de uma aliança de atores sociais (jornalistas, antropólogos e militares da FAB, entre outros), proposto em 1952 e tornado efetivo em 1961, o novo parque, criado à semelhança dos parques nacionais de preservação natural (uma invenção norte-americana da segunda metade do século 19), destinou aos índios um extenso território, reconhecido como habitat social, que seria preservado como um território cultural, independente da mera função de subsistência material, como se reconhecia antes. É essa concepção que foi consagrada pela Constituição de 1988, reconhecendo aos povos indígenas o direito a um território destinado à sua plena reprodução cultural, no qual se inserem seus marcos de memória e
as referências espaciais culturalmente relevantes para o seu sentido de existência.
O pensamento autoritário-liberal quer incorporar indivíduos avulsos a uma nacionalidade genérica e abstrata. Para ele, a condição indígena é provisória; seu sentido de mundo, descartável; sua cultura, desprezível
De outra parte, as contingências políticas também variaram, a ponto de
produzir o que se pode chamar de “proteção ambígua”, operada, não obstante, a partir dos termos e princípio da lógica da proteção, e fazendo uso dos mecanismos institucionais criados sob seu abrigo. A década de 70 do século 20 representa provavelmente a culminação dessas “ambigüidades”. Ela se deu exatamente por ocasião da maior intensificação, promovida pelo Estado Nacional, e no contexto de um regime político autoritário, da expansão da fronteira agrícola e da exploração econômica, sob a forma do extrativismo empresarial ilimitado (e, por conseqüência, social e ambientalmente descontrolado) da Amazônia.
A proteção ambígua pretendeu se justificar pela perspectiva assimilacionista, na qual o ideal a se perseguir é a incorporação dos índios como indivíduos avulsos a uma nacionalidade genérica, meramente abstrata; é a perspectiva pela qual a condição indígena é não mais que provisória; o sentido de mundo dessas coletividades humanas, descartável; a “cultura indígena”, enfim, e fazendo uso dos termos do então ministro do Exército nos albores da Nova República, “não é respeitável”. Tudo o que importa, para essa conquista amazônica pensada pela geopolítica da segurança nacional, é a ocupação
predatória do espaço, a apropriação selvagem da riqueza natural e a redução dos índios à estrita condição de mão-de-obra (igualmente apropriável). A noção rondoniana da comunidade, logicamente subjacente na designação que o marechal fizera aos povos indígenas como “nações” (pois aqui a terminologia é menos relevante que as elações lógicas), perde toda sua substância. O indigenismo suposto pela tradição militar autoritária de forma alguma filia-se ao legado rondoniano.
Mais do que a referência um tanto automática ao contexto político de uma época, a designação dessa tradição militar como autoritária é também compreensível no contexto de uma lógica política que, ao operar segundo a racionalidade instrumental dos interesses do Estado (justificados como “interesses nacionais”), descarta a complexidade social. Essa lógica pré-determina o mundo a ser visto e a forma como ele
deve ser, literalmente (inclusive nos termos da semântica militar), “enquadrado”. Não foi casualidade que toda a justificação técnica que o general Heleno ofereceu, quando da sua cabal desqualificação da política indigenista brasileira (essa sim, rondoniana), não foi outra que a eificação fenomênica encarnada na fórmula retórica “é só ir lá para ver”.
É claro que esse mundo “visto” pelo general já está pré-determinado (ou viciado) por uma mirada atavicamente obtusa.
Só há razão para falar em “direitos étnicos” se são assumidos como direitos coletivos, irredutíveis ao mero usufruto individualista — o único que a tradição liberal parece aceitar
O problema maior do pensamento militar brasileiro contemporâneo, condicionado ainda pela visão estratégica canhestra da “segurança nacional”, continua sendo, sem dúvida, a sua profunda ignorância do mundo social. Nisso, os militares não avançaram um centímetro desde os tempos da ditadura. Não é casualidade que o “indigenismo” dos militares reitere, para o caso atual do embate de interesses em torno da demarcação da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol, em Roraima, os mesmos argumentos sobre a “ameaça à soberania” (que as terras indígenas representariam) que já haviam empunhado à época do projeto Calha Norte e do debate em torno da demarcação da Terra Yanomami, duas décadas atrás.
Na verdade, para além da mera especulação, das miragens e dos fantasmas, só o que resta como base objetiva, para que, a partir dela, os renovados ideólogos militares possam vislumbrar uma “ameaça” à soberania nacional é, como o demonstra o horror manifestado pelo general Luiz Gonzaga Schroeder Lessa à Declaração Universal dos
Direitos dos Povos Indígenas, da ONU, o reconhecimento de uma coletividade amparada legalmente como tal, como se toda e qualquer nacionalidade não pudesse abrigar mais que a indivíduos, redutíveis à condição mercadológica de mão-de-obra. O espantalho dos direitos coletivos é provavelmente muito próximo ao fantasma do comunismo. Compreende-se que para alguns militares isso pareça ideologicamente
ameaçador. Daí que constitua uma ameaça à soberania nacional, não deixa de ser uma enorme miopia política, tão característica, aliás, da tradição militar autoritária.
Essas considerações incidem, assim, irremediavelmente, sobre um debate contemporâneo que se desdobra sob a égide conceitual da diferença no espaço social. O que elas nos sugerem também é que não se trata de fazer simplesmente um elogio genérico à diferença e a uma diversidade retórica, mas de se ponderar sobre o estatuto dessa diferença, ou seja, sobre o que ela incide, a partir de quais critérios e segundo qual regime. Se a diferença cultural e a especificidade de uma memória social — que subsidiam, em último termo, o reconhecimento dos povos indígenas — fundamentam-se na partilha coletiva de um sentido de mundo, só há razão, portanto, para falar de coisa como “direitos étnicos” precisamente se são assumidos como direitos coletivos, irredutíveis ao mero usufruto individualista (como, do contrário, certa tradição liberal se esforça por impingir, ao tratar coisas como, por exemplo, políticas de quotas).
Reiteramos: a maior ameaça que no fim das contas ronda a cabeça de certos ideólogos militares é a “ameaça” dessa diversidade de sentidos e sua legitimidade; exatamente o que o pensamento autoritário não admite, apesar de sua eventual tintura de boas intenções, pincelada sobre uma retórica de defesa da soberania.
O mundo assistiu a uma mini-guerra no Cáucaso este mês. A retórica, embora apaixonada, foi muito irrelevante. A geopolítica é uma série gigantesca de jogos de xadrez a dois, nos quais os jogadores buscam vantagens de posição. Nestes jogos, é crucial saber as regras que permitem os movimentos. Cavalos não podem mover-se em diagonal.
De 1945 a 1989, o principal jogo de xadrez era jogado entre os Estados Unidos e a União Soviética. Era conhecido como Guerra Fria, e as regras básicas eram chamadas “Yalta”. A mais importante delas dizia respeito à linha que dividia a Europa em duas zonas de influência. Foi chamada por Winston Churchill de “Cortina de Ferro” e ia de Stettin a Trieste. A regra era: não importava quanto conflito fosse provocado na Europa pelos peões, eles não deveriam provocar uma guerra real entre os Estados Unidos e a União Soviética. E ao fim de cada episódio de conflito, as peças deveriam retornar para os postos de onde haviam saído. Esta regra foi observada meticulosamente até o colapso do comunismo em 1989, episódio marcado notoriamente pela destruição do muro de Berlim.
É perfeitamente claro, como todo o mundo observou na época, que as regras de Yalta foram revogadas em 1989, e que o jogo entre os Estados Unidos e a Rússia (a partir de 1991) mudou radicalmente. O maior problema desde então é que os Estados Unidos não compreenderam bem as novas regras. Eles proclamaram a si próprios — e foram proclamados por outros — a superpotência solitária. Em termos de regras de xadrez isto foi interpretado como se os estivessem livres para mover-se pelo tabuleiro da forma que bem entendessem. E, em particular, para trazer os antigos peões soviéticos para sua esfera de influência. Sob o governo Clinton, e de forma mais espetacular sob o de George Bush, os Estados Unidos foram levando o jogo dessa forma.
Havia um único problema: os Estados Unidos não eram a superpotência solitária; e sequer, uma super-potência. O fim da Guerra Fria fez com que deixassem de ser uma das duas superpotências, para se tornarem um Estado forte, em uma redistribuição verdadeiramente multilateral de poder real, no sistema inter-estatal. Muitos países grandes são agora capazes de jogar os seus próprios jogos de xadrez sem ter de pedir licença às duas super-potências de outrora. E eles começaram a fazer isso.
Derrotada a União Soviética, Clinton age para conquistar seus peões e ampliar a OTAN. Mas o grande delírio veio com Bush, que renegou acordos, invadiu o Iraque e quis controlar a Ásia Central
Duas grandes decisões geopolíticas foram tomadas nos anos de Clinton. Primeiro, os Estados Unidos forçaram bastante, e foram relativamente bem-sucedidos, para incorporar os antigos satélites soviéticos do Leste Europeu à OTAN. Tais países estavam ansiosos por este ingresso, ainda que os Estados-chave da Europa Ocidental — Alemanha e França — relutassem de algum modo. Percebiam que a manobra norte-americana também os transformava em alvo, ao limitar a liberdade de ação geopolítica que recém haviam adquirido.
A segunda decisão estratégica norte-americana era tornar-se parte ativa nos realinhamentos de fronteiras na antiga República Federal da Iugoslávia. Isto levou-os a sancionar — e reforçar, com suas tropas — a secessão de facto do Kosovo em relação à Sérvia.
Mesmo sob Yeltsin, a Rússia sentia-se descontente com estas duas iniciativas geopolíticas norte-americanas. No entanto, a desordem politica e econômica naqueles anos era tão grande que o máximo que podiam fazer era reclamar — deve-se dizer que de um modo um tanto débil…
George W. Bush e Vladimir Putin assumiram o poder mais ou menos simultaneamente. Bush decidiu levar adiante as táticas da potência solitária (em que os Estados Unidos decidem por si mesmos como mover suas peças) com muito mais audácia do que Clinton havia feito. Em 2001, recuou do tratado anti-mísseis assinado com a União Soviética, em 1972. Depois, anunciou que os Estados Unidos não se prontificariam a ratificar os novos tratados assinados por Clinton em 1996; o Tratado de supressão dos testes nucleares [Compreensive Test Ban], e as mudanças acordadas para o tratado de desarmamento nuclear SALT II. Para completar, comunicou que Washington manteria seu projeto de militarização do espaço, conhecido como “escudo anti-mísseis”.
E, é claro, Bush invadiu o Iraque em 2003. Como parte deste envolvimento, os Estados Unidos vislumbraram e obtiveram direitos às bases militares e de sobrevôo nas repúblicas da Ásia Central — que anteriormente faziam parte da União Soviética. Além disso, promoveram a construção de óleodutos e gasodutos que procuravam tornar desnecessários os sistemas russos. E finalmente entraram em acordo com a Polônia e a República Tcheca para estabelecer pontos de defesa de mísseis, sob alegação de defesa contra o Irã. A Rússia, porém, os viu como voltados contra si.
{{{Duas causas imediatas explicam a guerra. Diante da independência do Kosovo, a Rússia reivindicou direitos iguais. E, sem exército, Saakshvilli
acreditou no conto do poder unilateral de Washington}}}
Putin estava disposto a resistir com mais força que Yeltsin. Como jogador prudente, porém, ele se preocupou primeiro em fortalecer sua base, restabelecendo a autoridade central e revigorando o aparato militar russo. Neste período, as marés da economia mundial mudaram, e a Rússia tornou-se de repente um rica e poderosa controladora de reservas e linhas de abastecimento de petróleo e gás natural, dos quais os países ocidentais dependem fortemente.
O presidente russo começou começou a agir. Negociou acordos com. Manteve relações próximas com o Irã. Começou a pressionar os Estados Unidos para fora das bases militares na Asia Central. E se posicionou firmemente contra a extensão da OTAN em duas zonas estratégicas: Ucrânia e Geórgia.
O colapso da União Soviética deflagrou movimentos separatistas em diversas de suas antigas repúblicas, inclusive a Geórgia. Quando, em 1990, a Geórgia buscou acabar com o status de autonomia das zonas étnicas não-georgianas, estas imediatamente proclamaram-se Estados independentes. Não foram reconhecidos, mas a Rússia garantiu sua autonomia.
As causas imediatas para a mini-guerra destes dias têm dupla origem dupla. Em fevereiro, Kosovo institucionalizou sua autonomia de facto. Este movimento foi apoiado por e reconhecido pelos Estados Unidos e por boa parte dos países europeus. A Rússia alertou, na época, que a lógica deste movimento aplicava-se igualmente às secessões de facto nas antigas repúblicas soviéticas. Na Geórgia, a Rússia agiu imediatamente, pela primeira vez, reconhecendo a independência de jure da Ossétia do Sul, em resposta direta aos fstos em Kosovo,
Em abril, os Estados Unidos propuseram, durante reunião da OTAN, que a Geórgia e a Ucrânia fossem recebidas, em um plano de adesão chamado Membership Action Plan. Alemanha, França, e o Reino Unido opuseram-se a isso, alegando que seria uma provocação à Rússia.
Neoliberal e fortemente pró-Washington, o presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, estava agora desesperado. Ele deu-se conta de que a reafirmação da autoridade georgiana na Ossétia do sul (e na Abkházia) poderia perder-se para sempre. Aproveitou-se de um momento em que a Rússia estava supostamente desatenta (Putin, agora primeiro-ministro nas Olimpíadas; o presidente Dmitri Medvedev de férias) para invadir a Ossétia do Sul. Seu exército fracassou completamente, como era de esperar. Mas Saakashvili imaginou que estivesse forçando a mão dos EUA (aliás, da Alemanha da França também).
Como nota irônica, a Geórgia, uma das últimas aliadas dos Estados Unidos na coalizão no Iraque, retirou todos os 2 mil soldados que ainda mantinha por lá
Ao invés disso, ele teve uma resposta imediata da força militar russa, que esmagou a pequena armada georgiana. De George W. Bush, obteve retórica. Mas afinal de contas, o que Bush poderia fazer? Os Estados Unidos não são uma super-potência. Suas forças armadas estão atoladas em duas guerras sem perspectivas no Oriente Médio. E, mais importante que tudo, eles precisam muito mais da Rússia do que o contrário. O ministro de Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, frisou, num artigo publicado pelo Financial Times, que a Rússia é um “parceiro do Ocidente no Oriente Médio, Irã e Coréia do Norte”.
A Rússia também controla, em essência, o abastecimento de gás da Europa Ocidental. Não por acaso, foi o presidente Sarkozy da França — e não Condolezza Rice — quem negociou a suspensão do conflito. No acordo firmado entre os dois países, a Geórgia faz duas concessões essenciais. Compromete-se em não mais utilizar a força contra a Ossétia do Sul, e aceita um documento que não faz nenhuma referência a sua integridade territorial.
A Rússia saiu, portanto, muito mais forte que antes. Saakashvili apostou tudo o que tinha e está agora geopoliticamente falido. Como nota irônica, a Geórgia, uma das últimas aliadas dos Estados Unidos na coalizão no Iraque, retirou todos os 2 mil soldados que ainda mantinha por lá. Estas tropas jogaram um papel importante nas áreas xiitas, e agora precisam ser substituídas por tropas norte-americanas, que terão que deixar outras áreas.
Quem joga o xadrez geopolítico precisa conhecer suas regras. Do contrário, corre o risco de ficar emparedado.