Às vésperas do desmembramento do Sudão, tropas do norte ocupam cidade-símbolo. Ressurge fantasma de conflito em que potências não estão isentas.
Por Luis F. C. Nagao
Um incidente grave reavivou, no último sábado (21/5), o fantasma de uma guerra civil que marcou o Sudão durante mais de duas décadas – e foi interrompida há cinco anos, por acordo de paz. Forças militares sudanesas ocuparam a cidade de Abyei, situada na fronteira entre o país e a nova nação que surgirá de seu desmembramento, em 9 de julho – o Sudão do Sul. O pretexto foi uma escaramuça ocorrida dias antes: uma emboscada, supostamente armada por guerrilheiros do Movimento de Libertação do Povo Sudanês (MLPS), matou 22 soldados do norte. A resposta – “desproporcional e irresponsável”, como qualificou a Casa Branca – levou cerca de 40 mil pessoas a deixarem a cidade, na condição de refugiados. O incidente convida a recordar um conflito que provocou cerca de 2 milhões de mortes e um número equivalente de refugiados. A grande maioria das vítimas é do sul.
Para entender o contexto, é preciso resgatar a história do país após a independência (conquistada em 1956, após dominação britânica de seis décadas). O Sudão é marcado por violência e conflitos religiosos. O norte, majoritariamente muçulmano, oprime o sul cristão. A autodeterminação sulista é uma luta antiga. Duas guerras civis feriram o país, nos últimos 50 anos. A primeira durou quase duas décadas (1955-1972), quando o sul exigia um sistema federativo. Na segunda guerra (1983-2005), o norte pretendeu transformar todo o país (inclusive regiões do sul) num estado árabe. Em 1989, um golpe de estado levou ao poder Omar Hassan al-Bashir do Partido do Congresso Nacional (PCN). O saldo da segunda guerra civil foi dois milhões de mortos e um milhão de refugiados. O genocídio de Darfur (ver a artigo na Biblioteca Diplô), teve intensa repercussão em todo o mundo. Outro texto, no mesmo site, destaca como três grandes potências com interesses na África – Estados Unidos, França e China – intervieram veladamente na guerra civil (os dois primeiros países), ou se omitiram diante dos massacres contra o sul, para manter negócios com o norte.
A possível paz foi firmada apenas em 2005, num acordo celebrado em Navaisha (Quênia), entre o presidente sudanês Omar al-Bashiar (que assumira o poder num golpe de Estado, em 1989) e o líder do MLPS, John Garang. Os dois pontos centrais firmados foram: um referendo, em que a população do sul deveria decidir sobre a criação de um novo país; e uma segunda consulta, para que, em caso de secessão, os habitantes da fronteiriça Abyei optassem a que país desejariam se integrar.
Em janeiro de 2011, deu-se o primeiro referendo. Os residentes do sul escolheram, por ampla maioria, separar-se do norte e criar seu próprio país. A formalização da independência está marcada para 9 de julho. A consulta aos moradores de Abyei ainda não foi realizada. Ela envolve um complicador étnico-religioso.
A população fixa é majoritariamente composta pelo grupo dinka ngok, de maioria cristã. Mas a região recebe, periodicamente, uma tribo nômade árabe: os Missíria. Na época de seca, eles deixam seus territórrios no Norte e rumam a Abyei. Tratam a cidade e região, como “oceano árabe”. Fazem o percurso há pelo menos 300 anos. O presidente sudanês tem procurado explorar este fato. Dias após a ocupação da cidade, procurou justificar-se, afirmando que “o MLPS quer fazer dos dinka ngok cidadãos de primeira classe, e dos Missíria cidadãos de segunda. Nós não aceitaremos isso.”
Analistas estão em sinal de alerta com toda essa movimentação. Para o analista político sudanês Mohamed Hassan Saeed, há risco grave de o incidente do fim de semana evoluir para novos choques militares e jogar sombras no progresso de negociação das partes. Já Khalid Abdallah conferencista de ciência política em Cartum no Centro al-Rasid, diz: “Abyei provou que o Acordo de Paz entre o norte e o sul do Sudão não foi compreendido. Vários problemas ficaram pendentes.”
A palavra mais adequada para descrever o momento é apreensão. Ainda não se sabe se a contagem regressiva sudanesa será para celebrar a autodeterminação ou detonar a bomba relógio. Independência ou morte podem ser as duas faces dessa moeda.
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achei bom
Nao se pode sumeter um povo ha opressoes por ambiçoes politicas de quem que seja a religiao e tradicional escolha de um povo que tem visao de espirito e de alma…as opiçoes indigenas dos politicos africanos, nao obedecem as regras da vontade dos seus povos, na qual primam no posicionamento canibal de defender as suas familias e riquezas…..isto intristesse DEUS.